quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Poesia De quinta Na Usina: Fernando Pessoa:114 ESTÉTICA DO ARTIFÍCIO :



" A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar.
Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente
existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me
esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu
ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico
empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não
sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar
as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu
cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não
posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares
frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada

beleza."









Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/

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