quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Augusto dos Anjos: ESTROFES SENTIDAS:



Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra
Como o pólipo que se agarra ao lodo

E a ostra que às rochas eternais se agarra.

O amor reduz-nos a uniformes placas, Uniformiza todos os anelos
E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.

Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma, E, desvairado, sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma, Eleito Deus no altar do fetichismo!

Tudo sacrifiquei para adorá-lo

-- Mas hoje, vendo o horror dos meus destroços, Tenho vontade de estrangulá-lo

E reduzi-lo muitas vezes a ossos!

Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor, à luz das minhas frases, Uma montanha que se desmorona, Estremecendo em suas próprias bases.

E em qualquer parte do Universo veja -- Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja

Despedaçada pelo sacrilégio.

A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Além, nas oliveiras, Aves de várias cores e de várias Espécies, cantam óperas inteiras.

A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia.

Na área em que estou, ao matinal assomo, Passa um rebanho de carneiros dóceis...
E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis.

Observo então a condição tristonha Da Humanidade, ébria de fumo e de ópio,
Tal qual ela é, e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio.

O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes, construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.

Da observação nos elevados montes Prefiro, à nitidez real dos aspectos, Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos.

A inanidade da Ilusão demonstro Mas, demonstrando-a, sinto um violento Rancor da Vida -- este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento!

Nisto a alma o ofício da Paixão entoa E vai cair, heroicamente, na água Da misteriosíssima lagoa

Que a língua humana denomina Mágoa!

Dos meus sonhos o exército desfila E, à frente dele, eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila,

Como Tirteu na guerra de Messênia!

Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime...
E quando a Dor me dói, tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime!


Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta, À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta!

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