quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Augusto dos Anjos: CANTO DE AGONIA:






Agonia de amor, agonia bendita!

--         Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura

E o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:

-- Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei, ontem, a sós, num volutuoso assomo, Numa prece de amor, numa felícia infinda,

Delícia que ainda gozo, oração, prece que ainda Entre saudades rezo, e entre sorrisos e entre Mágoas soluço, até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. Amor, escuridão e eterna claridade...

-- Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve, Frio que me assassina, amor e frio, neve,

Neve que me embala como um berço divino, Neve da minha dor, neve do meu destino!

E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia, agonia, agonia, agonia!

-- Diz e morre-lhe a voz, e cansado e morrendo O Viajeiro vai, e vê a luz e vendo

Uma sombra que passa, uma nuvem que corre, Caminha e vai, o louco, abraça a sombra e... morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita...


Agonia de amar, agonia bendita!

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