quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Augusto dos Anjos:II:



Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele, lúgubre e só, trôpego e cambaleando Foi-se arrastando, foi aos poucos se arrastando,

Para as bordas fatais dum precipício fundo!

Quis um momento ainda olhar para o Passado...

E em tudo que o rodeava, oito vezes, funéreo Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado!

De súbito, avistando uma frondosa tília Julgou, louco, avistar a ÁRvore da Esperança...
E bateram -lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara, os filhos, a família!

Não morreria, pois! Somente morreria Se da Vida, sozinho, ele pisasse os trilhos...
Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto, viveria!

Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos, onde arde e floresce a Crença,
Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara!

E aos tropeços, tombando, o Velho caminhava...

Caminhava, e a sonhar, bêbado de miragem, Nem viu que era chegado o termo da viagem, E amplo, a rugir-lhe aos pés, o precipício estava.

Num instante viu tudo, e compreendendo tudo, Quis fazer um esforço -- o último esforço, e o braço Pendeu exangue, o peito arqueou-se, o cansaço Empolgara-o, e ele quis falar e estava mudo!

Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico, no horror brutoda despedida
Abraçou-se com a Dor, abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas!

Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros, era a turba trovadora
Que assim cantava, enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos!

E o cadáver, a toa, a flux d’água, flutua! Ninguém o vê, ninguém o acalenta, o acalenta...

Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija, alguém vela o cadáver: a Lua!

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