quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis: ITE, MISSA EST:


Fecha o missal do amor e a bênção lança
À pia multidão
Dos teus sonhos de moço e de criança,
Soa a hora fatal, — reza contrito
As palavras do rito:
Ite, missa est.
Foi longo o sacrifício; o teu joelho
De curvar-se cansou;
E acaso sobre as folhas do Evangelho
A tua alma chorou.
Ninguém viu essas lágrimas (ai tantas!)
Cair nas folhas santas.
Ite, missa est.
De olhos fitos no céu rezaste o credo,
O credo do teu deus;
Oração que devia, ou tarde ou cedo,
Travar nos lábios teus;
Palavra que se esvai qual fumo escasso
E some-se no espaço.
Ite, missa est.
Votaste ao céu, nas tuas mãos alçadas,
A hóstia do perdão,
A vítima divina e profanada
Que chamas coração.
Quase inteiras perdeste a alma e a vida
Na hóstia consumida.
Ite, missa est.
Pobre servo do altar de um deus esquivo,
É tarde, beija a cruz;
Na lâmpada em que ardia o fogo ativo,
Vê, já se extingue a luz.
Cubra-te agora o rosto macilento
O véu do esquecimento.

Ite, missa est.





Texto-fonte: Falenas:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente no Rio de Janeiro, por B.-L. Garnier, em 1870.

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