sábado, 29 de abril de 2017

Contos Do Sábado: Carlos Drummond de Andrade : O Presépio:


Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida
entre a Missa do Galo e o presépio. Se fosse à igreja, o presépio não
ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, não veria
namorado.
Ë difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo
para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi
inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma
fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa.
E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.
Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos
doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas
de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas
porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e
noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe
de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são
confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem. A total ocupação
varre o espírito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre à
força de repetido, ressoa pela casa toda. "Dasdores, as dálias já foram regadas
hoje?" "Você viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?"
"Ah, Dasdores, meu bem, prega esse botão para sua mãezinha." Dasdores
multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano
supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração
ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo
com brilhantina, está Abelardo.
Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e eis a que
ocorre na espécie. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas, e até mesmo
extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o
trabalho... Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa.)
Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior
- É uma conspiradora - e sempre acha folga para pensar em Abelardo.
Esta véspera de Natal, porém, veio encontrá-la completamente desprevenida.
O presépio está por armar, a noite caminha, lenta como costuma fazê-lo no
interior, mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar, que não
perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino,
desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais, salvo esta moça,
pode dispor o presépio, arte comunicada por uma tia já morta. E só Dasdores
conhece o lugar de cada peça, determinado há quase dois mil anos, porque
cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do
presépio que cede a novidades.
As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa, e desembrulhá-las
é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação
do presépio. Todos os irmãos querem colaborar, mas antes atrapalham, e
Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da
direção. Jamais lhes será dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na
Virgem e em São José. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidiárias. O melhor
seria que não amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha
a paisagem de água e pedras, relva, cães e pinheiros, que há de circundar a
manjedoura. Nem todos os animais estão perfeitos; este carneirinho tem uma
perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim
mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante
miúdos, não guardam proporção com os cameleiros que os tangem; mas são
presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domésticos, a
qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. Através de
um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só, e não há
limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos;
sente neles a macieza da mão de Abelardo.
Alguém bate palmas na escada; ô de casa! amigas que vêm combinar a
hora de ir para a igreja. Entram e acham o presépio desarranjado, na sala em
desordem. Esta visita come mais tempo, matéria preciosa ("Agarra-me!
Agarra-me!"). Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para
fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de
tempo mas também uma calma dominadora - algo de muito importante
e que não pode absolutamente ser adiado - se esse alguém é nervoso, sua
vontade se concentra, numa excitação aguda, e o trabalho começa a surgir,
perfeito, de circunstâncias adversas. Dasdores não pertence a essa raça
torturada e criadora; figura no ramo também delicado, mas impotente, dos
fantasistas. Vão-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores,
interrogando o relógio, nele vê apenas o rosto de Abelardo, como também
percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos,
dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte.
A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio,
dispondo-as onde convém. Nada fará com que erre; do passado a tia repete
sua lição profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar
estrela, de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide, está alterado,
ou subtrai-se. Dasdores não o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o
prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a
impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao
profano, dando, talvez, preferência a este último, pois no fundo da caminha
de palha suas mãos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir -
sentia, Deus me perdoe - era um calor humano, já sabeis de quem.
Aqui desejaria, porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sê-lo,
acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos
braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação, vestir-se
violentamente, sair com as amigas - depressa, depressa-, ir correndo ladeira
acima, encontrar a igreja vazia, o adro já quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas
seria preciso atribuir-lhe, não braços e pernas suplementares, e sim outra
natureza, diferente da que lhe coube, e é pura placidez. Correi, sôfregos,
correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas
continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliação. Não
assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta
noite, depois do Menino, é o relógio, e este vai mastigando seus minutos,
seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos esquecermos dele, talvez
pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos
a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou
rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores,
que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada,
levantar os muros de Belém. Começa a fazê-lo, e o tempo dispara de novo.
"Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta, no
estouvamento dos irmãos, que querem se debruçar sobre o caminho de areia
antes que essa esteja espalhada, na muda interrogação da mãe, no sentimento
de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos, no calor
que começa a fazer apesar das janelas escancaradas - há uma previsão de
malogro iminente. Pronto, este ano não haverá Natal. Nem namorado. E a
noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.
Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida,
juntando na imaginação os dois deuses, colocando os pastores na posição
devida e peculiar à adoração, decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de
Abelardo, o mistério prestigioso do ser de Abelardo, a auréola que os
caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele
morena de Jesus, e aquele cigarro - quem botou! - ardendo na areia do
presépio, e que Abelardo fumava na outra rua.

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