segunda-feira, 17 de abril de 2017

Crônicas De Segunda Na Usina: Machado de Assis: Miss Dollar:

Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber
quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresentação de Miss
Dollar, seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o papel
sem adiantar a ação. Não há hesitação possível: vou apresentar-lhes Miss
Dollar.
Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar é
uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à
flor do rosto dois grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas
tranças loiras. A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma
criação de Shakespeare; deve ser o contraste do roastbeef britânico, com
que se alimenta a liberdade do Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o
poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o português
deve deliciar-se com a leitura dos sonetos de Camões ou os Cantos de
Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante
criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e biscoitos para acudir às
urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa eólia;
o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua morte um
suspiro.
A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.
Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias;
nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta
vez será uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas
arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita.
Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto
de carneiro a uma página de Longfellow, coisa naturalíssima quando o
estômago reclama, e nunca chegará a compreender a poesia do pôr-dosol.
Será uma boa mãe de família segundo a doutrina de alguns padres-
mestres da civilização, isto é, fecunda e ignorante.
Já não será do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda
mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss
Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas páginas, seria
uma boa inglesa de cinqüenta anos, dotada com algumas mil libras
esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever
um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor
aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se não tivesse óculos verdes
e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda
branca e chapéu de linho em forma de cuia, seriam a última demão deste
magnífico tipo de ultramar.
Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a heroína do
romance não é nem foi inglesa, mas brasileira dos quatro costados, e que
o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.
A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem
as outras são exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina romântica,
nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a brasileira rica. Falha
desta vez a proverbial perspicácia dos leitores; Miss Dollar é uma cadelinha
galga.
Para algumas pessoas a qualidade da heroína fará perder o interesse do
romance. Erro manifesto. Miss Dollar, apesar de não ser mais que uma
cadelinha galga, teve as honras de ver o seu nome nos papéis públicos,
antes de entrar para este livro. O Jornal do Comércio e o Correio Mercantil
publicaram nas colunas dos anúncios as seguintes linhas reverberantes de
promessa:
Desencaminhou-se uma cadelinha galga, na noite de ontem,
30. Acode ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e quiser
levar à Rua de Mata-cavalos no..., receberá duzentos mil-réis
de recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao pescoço
fechada por um cadeado em que se lêem as seguintes
palavras: De tout mon coeur.
Todas as pessoas que sentiam necessidade urgente de duzentos mil-réis, e
tiveram a felicidade de ler aquele anúncio, andaram nesse dia com
extremo cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se davam com a fugitiva
Miss Dollar. Galgo que aparecesse ao longe era perseguido com tenacidade
até verificar-se que não era o animal procurado. Mas toda esta caçada dos
duzentos mil-réis era completamente inútil, visto que, no dia em que
apareceu o anúncio, já Miss Dollar estava aboletada na casa de um sujeito

morador nos Cajueiros que fazia coleção de cães. 

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