quinta-feira, 13 de abril de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Fernando Pessoa: A Falência do Prazer e do Amor:



I
Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas...
Dantes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.
Hoje não, fujo dessa idéia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo — humanas,
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer
Mudando sempre,
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.
Quero
Afogar em bulício, em luz, em vozes,
— Tumultuárias cousas usuais —
o sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.
Folgaria
De encher num dia... num trago,
A medida dos vícios, inda mesmo
Que fosse condenado eternamente —
Loucura! — ao tal inferno,

A um inferno real.

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