sábado, 25 de março de 2017

Projeto contos Do Sábado Na Usina:Graciliano Ramos: Baleia:

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe
em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras
supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca
e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de
hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho
queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral
ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as
orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de
roscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira,
lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a
cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que
adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma
pergunta:
- Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano
afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem
dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que
ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os
para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos:
prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas
do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los,
resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a
decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma,
as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória
tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
- Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de
verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta
vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as
crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios.
Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa.
Mas compreendia que estava sendo severa de mais, achava difícil Baleia
endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia
para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com
os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às
orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho,
conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras,
açulando um cão invisível contra animais invisíveis:
- Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa
da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras
no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono
desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado
da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido
com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca
do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto.
Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se
mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou
o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de
Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e
os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho
da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por
um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao
copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras.
Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos
pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito
sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte
posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve
medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca
macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as
moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos
colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou
a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado
de
banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando
as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e
aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e
não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou
morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam
diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e
escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro
engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro
vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro
se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente,
com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam
em liberdade.
Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua
pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez
mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe
apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão.
Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava
surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher
o
rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não
poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a
cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar
o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração,
cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim
algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza
o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do
chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A
obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas,
procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia
não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que
estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno
coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam
andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos
dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o
cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio
completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no
poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam
Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações
familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se
tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a
língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo,
a pancada que recebera no quarto, e a viagem difícil do barreiro ao fim do
pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de
trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza,
varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um
bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se
amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um
formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do
peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo
se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela
doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria,
certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás.
E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam
com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro

enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Projeto contos do Sábado Na Usina:Luigi Pirandello: O Homem da Flor na Boca:


(L ́uomo del Fiori in Boca)
Tradução: Eduardo Muniz & Alvaro Pilares

PERSONAGENS: O pacifico freguês e o homem da flor na boca

ATO ÚNICO
CENA – Noite de verão. Uma pequena rua solitária que acaba numa avenida. Ao fundo, entre os galhos das arvores, aparecem os candeeiros elétricos acesos. No prédio de esquina da pequena rua, à esquerda, um pobre café noturno, com mesinhas e cadeiras de passeio fracamente iluminadas pelo candeeiro aceso, à beira do mesmo passeio. Diante da casa da direita uma lâmpada acesa. No ângulo da ultima casa da esquerda que faz esquina com a avenida outro candeeiro aceso.
Quase no fim do dialogo, na altura indicada no texto, aparecerá por duas vezes um vulto de mulher, vestida de preto, com um velho chapéu enfeitado com penas já sem frescura.
É um pouco mais de meia noite. Em alguns intervalos da peça ouvir-se-á um som distante tilintante de um bandolim. Quando o pano sobe, aparece o Homem da Flor na Boca sentado numa das mesas, observando demoradamente e em silencio um Pacifico Freguês que na mesa ao lado chupa com um canudo um refrigerante.
O HOMEM: Pelo que vejo, o senhor, um homem pacifico e metódico... perdeu o trem?
O FREGUÊS: Por um minuto, sabe? Chego na estação e lá o vejo, fugindo diante de mim.
O HOMEM: Podia ter corrido atrás dele!
O FREGUÊS: Podia! É engraçado, eu sei! Se eu não tivesse que carregar todos aqueles embrulhos e embrulhinhos... Mais carregado que um burro! Mas as mulheres... sabe como é – pedindo sempre encomendas e não param. Você acredita que quando desci do carro, eu levei três minutos só para arrumar nos dedos os barbantes de todos os pacotes: dois em cada dedo.
O HOMEM: Gostaria de ter visto isso. Sabe o que eu faria no seu lugar? Teria deixado tudo no carro.
O FREGUÊS: E minha mulher? E as minhas filhas? E todas as amigas delas?
O HOMEM: Iam gritar muito, e eu ia me divertir com isso.
O FREGUÊS: Talvez o senhor não saiba como se tornam as mulheres quando estão de férias.
O HOMEM: Ora! Sei, e muito bem! Digo isso justamente por saber. Todas dizem que não precisam de nada.
O FREGUÊS: Nada? Elas são até capazes de dizer que vão viajar pra fora só com a intenção de economizar. Depois assim que chegam em alguma cidadezinha aqui por perto, quanto mais feia, suja e miserável for, mais elas insistem em enfeitá-la caprichando nos figurinos acessórios. Ora, as mulheres, meu caro senhor! Mas a final, é a profissão delas!...”Se você desse um pulo até a cidade, meu amor!... Eu estava precisando realmente disso... disso... daquilo... e também você podia... se não se incomoda (engraçado esse: ”se não se incomoda”, não acha?)... Já que você vai pra lá, quando passar em frente...”- Mas, minha querida, como é que você quer que eu faça tudo isso em apenas em três horas? – “Ora, o que é que tem? Você pega um táxi...” – O pior é que eu achava que só ia demorar três horas e não trouxe a chave de casa.
O HOMEM: Essa é muito boa! E depois?
O FREGUÊS: Ora, depois eu deixei aquele montão de encomendas e fui jantar num restaurante; depois, eu fui ao teatro pra dar uma espairecida. Lá estava muito quente. Na saída me perguntei: E agora, vou fazer o que? Já passa da meia noite e às quatro da manhã eu tenho que pegar o primeiro trem, então nem vale a pena ir deitar. E vim até aqui. Este café não fecha, né?
O HOMEM: Não fecha, não senhor! (PAUSA) E, então, deixou todos os seus pacotes na estação?
O FREGUÊS: Porque me pergunta isso? Por acaso não estão seguros lá? Estavam todos tão bem embrulhados e...
O HOMEM: Não, não digo isso! Muito bem embrulhados, calculo: Com aquela arte especial dos vendedores, de embrulhar os objetos que vendem... (PAUSA) Que mãos! Uma bela folha de papel dobrada, vermelha, polida... que só de olha-la já é um prazer...Tão lisa, que até dá vontade de encostá-la no rosto para sentir o seu toque delicado... Estendem a folha sobre o balcão, e depois, com elegância e desembaraço, colocam em cima, precisamente no meio, o tecido fino, bem dobrado. Levantam primeiro de baixo, com o dorso da mão, uma ponta da folha de papel; dorso da mão, uma ponta de papel: até lhe fazem uma pequena prega, supérflua, só por amor à arte. Então, dobram de um lado e do outro, em triângulo, a folha de papel, e viram por baixo as duas pontas; estendem uma das mãos para o rolo de fita; puxam o necessário para atar o embrulho. E atam tão rapidamente que nem temos tempo de admirar a habilidade do empregado, e já nos apresentam o embrulho feito, com o nó pronto pra levarmos pendurado nos dedos.
O FREGUÊS: Percebo que o senhor dedicou muita atenção aos empregados das lojas...
O HOMEM: Eu? Meu caro amigo, eu passo dias inteiros observando-os! Sou capaz de ficar mais de uma hora, parado, olhando pra dentro das lojas através das vitrines. Chego a esquecer de mim. Parece que sou, e realmente gostaria de ser, aquele tecido de seda... aquele cetim... a fita vermelha, ou azul, que as vendedoras das lojas, depois de a medirem com o metro... já viu como fazem? Enrolam no polegar em forma de oito, antes de embrulhar. (PAUSA) Observo o cliente ou a cliente que sai da loja com o embrulho na mão, ou numa sacola, ou debaixo do braço... Sigo- os com os olhos, até sumirem da minha vista... fico imaginando... - Ah, quantas coisas imagino!, o senhor não faz ideia! (PAUSA, DEPOIS PARA SI) Mas me ajuda, isso me ajuda.
O FREGUÊS: (PAUSA) Desculpe... o que é que lhe ajuda?
O HOMEM: Me agarrar assim – quero dizer, com a imaginação – à vida. Como uma planta trepadeira nas grades de um portão... (PAUSA) Ah, nunca deixar a imaginação descansar, nem um instante sequer: - Aderir, aderir com ela, continuamente, à vida dos outros... – mas não à vida de gente que conheço! Não! Não! A essa não! Eu sinto por ela... uma repugnância, se o senhor soubesse! Um nojo! Aderir à vida dos estranhos, em volta dos quais a minha imaginação pode trabalhar livremente; mas isso não é um capricho meu, muito pelo contrario, levando em consideração as menores peculiaridades descobertas neste ou naquele estranho. E se soubesse quanto e como ela trabalha! Dependendo até onde consigo aprofundar, vejo até mesmo a casa deste ou daquele indivíduo; vivo lá dentro; me sinto dentro dela, até sinto o cheiro... sabe? Aquela espécie de cheiro particular de cada casa! Da sua, da minha... – mas na nossa, nos já não sentimos mais, porque já é o cheiro da nossa própria vida...Não sei se eu tô sendo claro. Ah, pelo visto sim e...
O FREGUÊS: Sim, porque...quero dizer: deve ser realmente muito prazeroso para o senhor imaginar todas essas coisas...
O HOMEM: (COM EVIDENTE FADIGA DEPOIS DE PENSAR UM INSTANTE)- Prazeroso? Pra mim?
O FREGUÊS: Quer dizer... calculo...
O HOMEM: Me diz uma coisa. Já foi consultar algum médico de renome?
O FREGUÊS: Eu não! Por que? Não estou doente!
O HOMEM: Não se assuste! Só tô perguntando para saber se já viu, no consultório desses grandes médicos, a sala onde os clientes esperam a sua vez de serem atendidos.
O FREGUÊS: Já vi, sim. Tive de acompanhar uma vez uma das minhas filhas, que sofria dos nervos, e...
O HOMEM: Muito bem. Não me interessa saber. Só me interessam aquelas salas... (PAUSA) Já reparou nelas? Um sofá de tom escuro, desses antigos... as cadeiras estofadas, muitas vezes desiguais... Tudo comprado de ocasião, de segunda mão, colocadas ali para os clientes; não pertencem ao lugar. Já o médico tem na sua casa rica e bela, uma outra sala, para ele e para as amigas da esposa. Imagine como destoaria uma das suas cadeiras ou poltronas se fosse trazida para cá, para o lugar reservado aos clientes, a quem basta esses moveis sem pretensões, decentes, sóbrios. Queria saber se o senhor, quando foi com a sua filha, reparou bem na poltrona ou na cadeira onde se sentou enquanto esperava.
O FREGUÊS: Eu não, com francamente...
O HOMEM: É verdade: o senhor não estava doente... (PAUSA). Mas nem todos os doentes reparam naquilo, mergulhados como estão no pensamento da sua própria doença... (PAUSA) E, no entanto, quantas vezes alguns deles estão ali, atentos, observando os movimentos ansiosos dos dedos que fazem sinais inúteis, no braço puído daquela cadeira em que estão sentados!...Pensam e não veem. Mas que efeito faz. Quando saímos da consulta, e voltamos a atravessar a sala, vendo de novo a cadeira onde há pouco estávamos sentados, à espera da sentença do nosso mal ainda ignorado! Ocupada por outro paciente, também ele com a sua doença secreta; ou ali, vazia, impassível, à espera de um outro qualquer que vai ocupá-la... (PAUSA) Mas o que estávamos falando?... Ah, sim, é verdade... O prazer da imaginação. – Não sei bem porque me lembrei logo de uma das cadeiras dessas salas dos médicos, onde os pacientes estão à espera da consulta...
O FREGUÊS: Sim... realmente...
O HOMEM… Não vê a relação? Nem eu. Mas é que certos laços ligando imagens entre si longínquas, são tão particulares a cada um de nós, e determinados por causas e experiências tão singulares, que deixaríamos de nos compreender se, ao falarmos, não nos inibíssemos de utilizá-los. Nada mais lógico, por vezes, do que estas analogias. Mas a relação pode talvez ser esta, repare: – “Teriam prazer, aquelas cadeiras, em imaginar quem é o paciente que vai sentar-se nelas, à espera da consulta? Que doença ele tem? Para onde ele vai? O que fará depois da consulta?” Nenhum prazer. E assim eu também: Nenhum! Entram e saem os clientes e elas, pobres cadeiras, estão lá à espera de serem ocupadas. Pois bem, a minha é uma ocupação parecida. Ora me ocupa este, ora aquele. Neste momento está me ocupando o senhor, e creia que não sinto prazer algum com o trem que perdeu, com a família que espera o espera na cidadezinha de ferias, com todas as reclamações que eu imagino que tenha...
O FREGUÊS: Ai, tantas, nem calcula!
O HOMEM: Dê graças a Deus que não passam de reclamações. (PAUSA) Existem coisas piores, meu amigo. Eu lhe digo que tenho necessidade de me agarrar com a imaginação à vida alheia; mas assim, sem prazer, sem me interessar de maneira alguma, muito pelo contrário... pelo contrário... para sentir a irritação da vida, para julgá-la estúpida e inútil, tanto que realmente não deve importar muito a ninguém perdê-la. (RAIVOSAMENTE) E isso é necessário que a gente perceba, sabe? Com provas e exemplos contínuos, implacavelmente. Porque, meu caro senhor, não sabemos de que é feito esse desejo de viver, mas existe, existe! Todos a sentimos aqui, como uma angustia na garganta, o gosto da vida que nunca se satisfaz, que nunca se pode satisfazer, porque a vida, no próprio ato de a vivermos, é tão gulosa de si própria, que não se deixa saborear. O sabor está no passado, que permanece vivo dentro de nós. É daí que nos vem o desejo de viver, das recordações que nos mantém presos. Mas presos a que? A esta estupidez... a estas lamentações... a tantas ilusões absurdas... a tantas amarguras que nos ocupam... Sim! Esta, que foi uma estupidez!... Aquela, que foi uma lamentação... e posso até dizer: essa que agora parece ser uma desventura, uma verdadeira desventura... daquí a quatro, cinco, dez anos, quem sabe que gosto virão a ter...que gosto virão a ter as próprias lágrimas de hoje?... E a vida, por Deus, só a ideia de a perdermos... especialmente quando se sabe que é uma questão de dias...(NESTE MOMENTO APARECE O VULTO DA MULHER VESTIDA DE PRETO, ESPREITANDO A ESQUINA.) Pronto... está vendo? Ali, ali, naquela esquina...Então não vê um vulto de mulher? – Já se escondeu!
O FREGUÊS: Quem? Quem era?
O HOMEM: Não viu? Se escondeu.
O FREGUÊS: Uma mulher?
O HOMEM: Sim. Minha mulher.
O FREGUÊS: Ah! Sua esposa?
O HOMEM: (DEPOIS DE UMA PAUSA) Vigia-me de longe. E acredite, tenho vontade de ir até ela e mandá-la embora a pontapés! Mas seria inútil... É como uma dessas cadelas sem dono, teimosas, que quanto mais pontapés nós damos, mais grudam nos nossos calcanhares. (PAUSA) O que aquela mulher está sofrendo por mim, o senhor nem pode imaginar. Já não come, não dorme... Segue-me dia e noite, assim, à distancia. Se pelo menos tentasse escovar aquele cabelo... aqueles vestidos... – Já não parece uma mulher, mas um trapo velho. O cabelo empoeirado. E tem apenas trinta e quatro anos! (PAUSA) Sinto uma raiva tão grande que não imagina. Às vezes a pego nos ombros e grito na sua cara: – Estúpida, imbecil! – E sacudo-a. Aceita tudo. Fica parada, olhando pra mim, com uns olhos.. .com uns olhos que, juro pra você, fazem-me subir aos dedos um desejo selvagem de estrangulá-la. Mas nada. Espera que me afaste, para recomeçar a me seguir de longe. (DE NOVO A MULHER TORNA A ESPREITAR) Olha, olha, espreitou outra vez aquela esquina!
O FREGUÊS: Pobre senhora!
O HOMEM: Que pobre senhora! Percebe o que ela queria? Queria que eu ficasse em casa, muito calmo, muito quieto, descansando no meio dos seus carinhos; admirando a ordem perfeita de todos os cômodos, da beleza de todos os móveis, aquele silêncio de espelho que havia antes na minha casa, medido pelo tique- taque do relógio de pendulo da sala de jantar. – Era isso que ela queria! E eu pergunto a você, para lhe fazer compreender o absurdo... Não! Que estou dizendo? “O absurdo?” – a macabra ferocidade dessa pretensão! Eu pergunto se julga possível que as casas de Avezzano, as casas da Messina, se tivessem tido conhecimento do terremoto que em breve as iriam derrubar, teriam conseguido ficar muito sossegadas sob o luar, ordenadas em fileiras, ao longo das ruas e das praças, obedecendo ao plano regulador da Comissão Organizadora da Câmara Municipal. Casas, por Deus, de pedra e madeira, e também elas teriam fugido! Imagine então os habitantes de Avezzano, os habitantes da Messina, a despirem-se plácidos, para se deitarem, dobrando as roupas, pondo os sapatos diante da porta, e enfiando-se depois debaixo dos cobertores, gozando a brancura fresca dos lençóis bem lavados, com a consciência de que, dentro de algumas horas, morreriam. Parece-lhe possível?
O FREGUÊS: Mas por acaso, a sua esposa...
O HOMEM: Deixe-me falar! Se a morte, meu amigo, fosse como um daqueles insetos esquisitos, repugnantes, que pousam em cima de nós, sem percebermos... O senhor vai passando pela rua; outro pedestre, de repente o faz parar, e com toda cautela, com os dedos estendidos, lhe diz: “Perdão amigo, com licença. Vossa excelência tem a morte em cima de si!” E, com os tais dedos estendidos, pega-lhe e atira com ela para longe... Então seria magnifico! Mas a morte não é como um desses insetos repugnantes. Quantos daqueles que passeiam tranquilos e sem preocupações, talvez a tragam em cima em si; ninguém a vê; e eles vão tranquilamente planejando seu dia de amanhã e depois de amanhã. Ora, eu, meu caro senhor... (LEVANTA-SE) Vem!... vem mais pra cá... (CONDUZ O FREGUÊS PARA JUNTO DO CANDEEIRO ACESO)...Quero mostrar uma coisa...Olhe aqui, debaixo do bigode... Aqui, está vendo? Não vê que linda tuberosidade violácea? Sabe como se chama isso? Ah, um nome muito doce, mais doce que um rocambole: – Epitelioma, é assim que se chama. Pronuncie, verá que doçura: Epitelioma... A morte, percebe? Passou por mim. Pôs esta flor na boca, e disse: - “Fica com ela, querido: voltarei a passar por aqui dentro de oito ou dez meses!” (PAUSA). E agora me diz, se com essa flor na boca, eu podia ficar em casa tranquilo e sossegado, como desejava aquela infeliz. Eu grito com ela: - Ah, então, você quer que eu te beije? – Sim, me beija! – Mas sabe o que ela fez?: Com um alfinete, a semana passada, fez um arranhão aqui no lábio superior, e depois agarrou minha cabeça e queria me beijar... me beijar na boca... Porque diz que quer morrer comigo... (PAUSA) Está louca... (RAIVOSAMENTE) Em casa é que eu não fico! Preciso estar atrás das vitrines das lojas, admirando a habilidade dos vendedores. Porque, o senhor compreende, se por momentos sinto um vazio dentro de mim... compreende, posso até matar, como se nada fosse, uma pessoa que nem sequer conheço... sacar uma arma e matar um sujeito que, como o senhor, tenha apenas perdido o trem... (RINDO) Não, não se assuste, meu caro senhor, estou brincando! (PAUSA) Eu vou embora (PAUSA) Eu me mataria primeiro (PAUSA) Mas existem, nesta altura do ano, certos damascos tão bons... De que maneira costuma comê-los? Com a boca toda, não é? Abre-se pelo meio; depois apertamos com os dedos até escorrer o sumo... como dois lábios carnudos... Que delícia! (RI. PAUSA) Meus respeitos à sua distinguida esposa e às suas filhas que estão de férias. (PAUSA) Eu as imagino vestidas de branco ou de azul celeste, numa linda ladeira, sob a sombra. (PAUSA) E talvez possa me fazer um favor, amanhã de manhã, quando chegar. Imagino que a cidadezinha estará perto da estação. – Ao romper do dia, poderá fazer o caminho a pé. – O primeiro ramo de ervas que encontrar ao longo da estação, repare bem nele. Conte os fios de erva por mim. Quantos fios contar, tantos serão os dias que ainda terei que viver. Mas escolhe um bem grande, pelo amor de Deus! (RI.) Boa noite, meu caro senhor.
AFASTA-SE CANTAROLANDO, DE BOCA FECHADA. A ÁRIA QUE O BANDOLIM TOCA, AO LONGE. MAS ANTES DE CHEGAR À ESQUINA DA DIREITA, LEMBRA-SE DE QUE A MULHER ESTÁ LÁ À SUA ESPERA. ENTAO RECUA UNS PASSOS, ATRAVESSA A RUA E DOBRA A ESQUINA DO OUTRO LADO, SEGUIDO PELO O OLHAR DO PACÍFICO FREGUÊS, QUASE PETRIFICADO.)
FIM


Postado por Marcelo Antinori às 13:38 Nenhum comentário:
Enviar por e-mail
BlogThis!
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no Facebook
Compartilhar com o Pinterest

sábado, 18 de julho de 2015
56 – O ex-mágico da Taberna Minhota – M. Rubião
Murilo Rubião (1916-1991) escritor mineiro nascido em Carmo de Minas. Andou pelo jornalismo, pela politica e até pelo serviço diplomático. Seus contos são considerados como exemplos de literatura fantástica, mas para mim, o que mais impressiona é o bom humor com o qual ele conta suas historias... ainda que sejam tristes.


O ex-mágico da Taberna Minhota
Murilo Rubião

Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
 porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)
Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.
Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.


Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.


Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.


O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.


Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.


O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.


Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.


A plateia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.


O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.


Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.


Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.


Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.


Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.


Situação cruciante.


Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.



Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.


Também, à noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.


Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.



Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.


Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.


Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.


— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.


Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:
— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.


Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.


Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.


O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.


Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um paraquedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.


Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.


Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.


Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.



Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.


Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.



1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.


Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.


Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.


O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.


O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.


Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!


1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)


Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.


Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.


Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.


Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.


Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.


Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.


Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.


Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.


Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.




Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.

Projeto Contos do Sábado na Usina: Machado de Assis: O RELÓGIO DE OURO.


 Agora contarei a história do relógio de ouro. Era um grande cronômetro,
inteiramente novo, preso a uma elegante cadeia. Luís Negreiros tinha
muita razão em ficar boquiaberto quando viu o relógio em casa, um
relógio que não era dele, nem podia ser de sua mulher. Seria ilusão dos
seus olhos? Não era; o relógio ali estava sobre uma mesa da alcova, a
olhar para ele, talvez tão espantado, como ele, do lugar e da situação.
Clarinha não estava na alcova quando Luís Negreiros ali entrou. Deixou-se
ficar na sala, a folhear um romance, sem corresponder muito nem pouco
ao ósculo com que o marido a cumprimentou logo à entrada. Era uma
bonita moça esta Clarinha, ainda que um tanto pálida, ou por isso
mesmo. Era pequena e delgada; de longe parecia uma criança; de perto,
quem lhe examinasse os olhos, veria bem que era mulher como poucas.
Estava molemente reclinada no sofá, com o livro aberto, e os olhos no
livro, os olhos apenas, porque o pensamento, não tenho certeza se estava
no livro, se em outra parte. Em todo o caso parecia alheia ao marido e ao
relógio.
Luís Negreiros lançou mão do relógio com uma expressão que eu não me
atrevo a descrever. Nem o relógio, nem a corrente eram dele; também
não eram de pessoas suas conhecidas. Tratava-se de uma charada. Luís
Negreiros gostava de charadas, e passava por ser decifrador intrépido;
mas gostava de charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas
palpáveis ou cronométricas, e sobretudo sem conceito, não as apreciava
Luís Negreiros.
Por esse motivo, e outros que são óbvios, compreenderá o leitor que o
esposo de Clarinha se atirasse sobre uma cadeira, puxasse raivosamente
os cabelos, batesse com o pé no chão, e lançasse o relógio e a corrente
para cima da mesa. Terminada esta primeira manifestação de furor, Luís
Negreiros pegou de novo nos fatais objetos, e de novo os examinou. Ficou
na mesma. Cruzou os braços durante algum tempo e refletiu sobre o
caso, interrogou todas as suas recordações, e concluiu no fim de tudo
que, sem uma explicação de Clarinha qualquer procedimento fora baldado
ou precipitado.
Foi ter com ela.
Clarinha acabava justamente de ler uma página e voltava a folha com o
ar indiferente e tranqüilo de quem não pensa em decifrar charadas de
cronômetro. Luís Negreiros encarou-a; seus olhos pareciam dois
reluzentes punhais.
— Que tens? perguntou a moça com a voz doce e meiga que toda a gente
concordava em lhe achar.
Luís Negreiros não respondeu à interrogação da mulher; olhou algum
tempo para ela; depois deu duas voltas na sala, passando a mão pelos
cabelos, por modo que a moça de novo lhe perguntou:
 — Que tens?
Luís Negreiros parou defronte dela.
— Que é isto? disse ele tirando do bolso o fatal relógio e apresentando-lho
diante dos olhos. Que é isto? repetiu ele com voz de trovão.
Clarinha mordeu os beiços e não respondeu. Luís Negreiros esteve algum
tempo com o relógio na mão e os olhos na mulher, a qual tinha os seus
olhos no livro. O silêncio era profundo. Luís Negreiros foi o primeiro que o
rompeu, atirando estrepitosamente o relógio ao chão, e dizendo em
seguida à esposa:
— Vamos, de quem é aquele relógio?
Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os depois, e
murmurou:
— Não sei.
Luís Negreiros fez um gesto como de quem queria esganá-la; conteve-se.
A mulher levantou-se, apanhou o relógio e pô-lo sobre uma mesa
pequena. Não se pôde conter Luís Negreiros. Caminhou para ela, e,
segurando-lhe nos pulsos com força, lhe disse:
— Não me responderás, demônio? Não me explicarás esse enigma?
Clarinha fez um gesto de dor, e Luís Negreiros imediatamente lhe soltou
os pulsos que estavam arrochados. Noutras circunstâncias é provável que
Luís Negreiros lhe caísse aos pés e pedisse perdão de a haver machucado.
Naquela, nem se lembrou disso; deixou-a no meio da sala e entrou a
passear de novo, sempre agitado, parando de quando em quando, como
se meditasse algum desfecho trágico.
Clarinha saiu da sala.
Pouco depois veio um escravo dizer que o jantar estava na mesa.
— Onde está a senhora?
— Não sei, não, senhor.
Luís Negreiros foi procurar a mulher, achou-a numa saleta de costura,
sentada numa cadeira baixa, com a cabeça nas mãos a soluçar. Ao ruído
que ele fez na ocasião de fechar a porta atrás de si, Clarinha levantou a
cabeça, e Luís Negreiros pôde ver-lhe as faces úmidas de lágrimas. Esta
situação foi ainda pior para ele que a da sala. Luís Negreiros não podia
ver chorar uma mulher, sobretudo a dele. Ia enxugar-lhe as lágrimas com
um beijo, mas reprimiu o gesto, e caminhou frio para ela; puxou uma
cadeira e sentou-se em frente de Clarinha.
— Estou tranqüilo, como vês, disse ele, responde-me ao que te perguntei
com a franqueza que sempre usaste comigo. Eu não te acuso nem
suspeito nada de ti. Quisera simplesmente saber como foi parar ali aquele
relógio. Foi teu pai que o esqueceu cá?
— Não.
— Mas então...
— Oh! não me perguntes nada! exclamou Clarinha; ignoro como esse
relógio se acha ali... Não sei de quem é... deixa-me.
— É demais! urrou Luís Negreiros, levantando-se e atirando a cadeira ao
chão.
Clarinha estremeceu, e deixou-se ficar aonde estava. A situação tornava-
se cada vez mais grave; Luís Negreiros passeava cada vez mais agitado,
revolvendo os olhos nas órbitas, e parecendo prestes a atirar-se sobre a
infeliz esposa. Esta, com os cotovelos no regaço e a cabeça nas mãos,
tinha os olhos encravados na parede. Correu assim cerca de um quarto de
hora. Luís Negreiros ia de novo interrogar a esposa, quando ouviu a voz
do sogro, que subia as escadas gritando:
— Ó seu Luís! ó seu malandrim!
— Aí vem teu pai! disse Luís Negreiros; logo me pagarás.
Saiu da sala de costura e foi receber o sogro, que já estava no meio da
sala, fazendo viravoltas com o chapéu de sol, com grande risco das jarras
e do candelabro.
— Vocês estavam dormindo? perguntou o Sr. Meireles tirando o chapéu e
limpando a testa com um grande lenço encarnado.
— Não, senhor, estávamos conversando...
— Conversando?... repetiu Meireles.
E acrescentou consigo:
“Estavam de arrufos... é o que há de ser”.
— Vamos justamente jantar, disse Luís Negreiros. Janta conosco?
— Não vim cá para outra coisa, acudiu Meireles; janto hoje e amanhã
também. Não me convidaste, mas é o mesmo.
— Não o convidei?...
— Sim, não fazes anos amanhã?
— Ah! é verdade...
Não havia razão aparente para que, depois destas palavras ditas com um
tom lúgubre, Luís Negreiros repetisse, mas desta vez com um tom
descomunalmente alegre:
— Ah! é verdade!...
Meireles, que já ia pôr o chapéu num cabide do corredor, voltou-se
espantado para o genro, em cujo rosto leu a mais franca, súbita e
inexplicável alegria.
— Está maluco! disse baixinho Meireles.
— Vamos jantar, bradou o genro, indo logo para dentro, enquanto
Meireles seguindo pelo corredor ia ter à sala de jantar.
Luís Negreiros foi ter com a mulher na sala de costura, e achou-a de pé,
compondo os cabelos diante de um espelho:
— Obrigado, disse.
A moça olhou para ele admirada.
— Obrigado, repetiu Luís Negreiros; obrigado e perdoa-me.
Dizendo isto, procurou Luís Negreiros abraçá-la; mas a moça, com um
gesto nobre, repeliu o afago do marido e foi para a sala de jantar.
— Tem razão! murmurou Luís Negreiros.
Daí a pouco achavam-se todos três à mesa do jantar, e foi servida a sopa,
que Meireles achou, como era natural, de gelo. Ia já fazer um discurso a
respeito da incúria dos criados, quando Luís Negreiros confessou que toda
a culpa era dele, porque o jantar estava há muito na mesa. A declaração
apenas mudou o assunto do discurso, que versou então sobre a terrível
coisa que era um jantar requentado, — qui ne valut jamais rien.
Meireles era um homem alegre, pilhérico, talvez frívolo demais para a
idade, mas em todo o caso interessante pessoa. Luís Negreiros gostava
muito dele, e via correspondida essa afeição de parente e de amigo, tanto
mais sincera quanto que Meireles só tarde e de má vontade lhe dera a
filha. Durou o namoro cerca de quatro anos, gastando o pai de Clarinha
mais de dois em meditar e resolver o assunto do casamento. Afinal deu a
sua decisão, levado antes das lágrimas da filha que dos predicados do
genro, dizia ele.
A causa da longa hesitação eram os costumes pouco austeros de Luís
Negreiros, não os que ele tinha durante o namoro, mas os que tivera
antes e os que poderia vir a ter depois. Meireles confessava
ingenuamente que fora marido pouco exemplar, e achava que por isso
mesmo devia dar à filha melhor esposo do que ele. Luís Negreiros
desmentiu as apreensões do sogro; o leão impetuoso dos outros dias,
tornou-se um pacato cordeiro. A amizade nasceu franca entre o sogro e o
genro, e Clarinha passou a ser uma das mais invejadas moças da cidade.
E era tanto maior o mérito de Luís Negreiros quanto que não lhe faltavam
tentações. O diabo metia-se às vezes na pele de um amigo e ia convidá-lo
a uma recordação dos antigos tempos. Mas Luís Negreiros dizia que se
recolhera a bom porto e não queria arriscar-se outra vez às tormentas do
alto mar.
Clarinha amava ternamente o marido, e era a mais dócil e afável criatura
que por aqueles tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre ambos se
dera o menor arrufo; a limpidez do céu conjugal era sempre a mesma e
parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a primeira
nuvem?
Durante o jantar Clarinha não disse palavra — ou poucas dissera, ainda
assim as mais breves e em tom seco.
“Estão de arrufo, não há dúvida”, pensou Meireles ao ver a pertinaz
mudez da filha. “Ou a arrufada é só ela, porque ele parece-me lépido.”
Luís Negreiros efetivamente desfazia-se todo em agrados, mimos e
cortesias com a mulher, que nem sequer olhava em cheio para ele. O
marido já dava o sogro a todos os diabos, desejoso de ficar a sós com a
esposa, para a explicação última, que reconciliaria os ânimos. Clarinha
não parecia desejá-lo; comeu pouco e duas ou três vezes soltou-se-lhe do
peito um suspiro.
Já se vê que o jantar, por maiores que fossem os esforços, não podia ser
como nos outros dias. Meireles sobretudo achava-se acanhado. Não era
que receasse algum grande acontecimento em casa; sua idéia é que sem
arrufos não se aprecia a felicidade, como sem tempestade não se aprecia
o bom tempo. Contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha água na
fervura.
Quando veio o café, Meireles propôs que fossem todos três ao teatro; Luís
Negreiros aceitou a idéia com entusiasmo. Clarinha recusou secamente.
— Não te entendo hoje, Clarinha, disse o pai com um modo impaciente.
Teu marido está alegre e tu pareces-me abatida e preocupada. Que tens?
Clarinha não respondeu; Luís Negreiros, sem saber o que havia de dizer,
tomou a resolução de fazer bolinhas de miolo de pão. Meireles levantou
os ombros.
— Vocês lá se entendem, disse ele. Se amanhã, apesar de ser o dia que
é, vocês estiverem do mesmo modo, prometo-lhes que nem a sombra me
verão.
— Oh! há de vir, ia dizendo Luís Negreiros, mas foi interrompido pela
mulher que desatou a chorar.
O jantar acabou assim triste e aborrecido. Meireles pediu ao genro que
lhe explicasse o que aquilo era, e este prometeu que lhe diria tudo em
ocasião oportuna.
Pouco depois saía o pai de Clarinha protestando de novo que, se no dia
seguinte os achasse do mesmo modo, nunca mais voltaria à casa deles, e
que se havia coisa pior que um jantar frio ou requentado, era um jantar
mal digerido. Este axioma valia o de Boileau, mas ninguém lhe prestou
atenção.
Clarinha fora para o quarto; o marido, apenas se despediu do sogro, foi
ter com ela. Achou-a sentada na cama, com a cabeça sobre uma
almofada, e soluçando. Luís Negreiros ajoelhou-se diante dela e pegou-
lhe numa das mãos.
— Clarinha, disse ele, perdoa-me tudo. Já tenho a explicação do relógio;
se teu pai não me fala em vir jantar amanhã, eu não era capaz de
adivinhar que o relógio era um presente de anos que tu me fazias.
Não me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignação com que a
moça se pôs de pé quando ouviu estas palavras do marido. Luís Negreiros
olhou para ela sem compreender nada. A moça não disse uma nem duas;
saiu do quarto e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca.
“Mas que enigma é este?” perguntava a si mesmo Luís Negreiros. “Se não
era um mimo de anos, que explicação pode ter o tal relógio?”
A situação era a mesma que antes do jantar. Luís Negreiros assentou de
descobrir tudo naquela noite. Achou, entretanto, que era conveniente
refletir maduramente no caso e assentar numa resolução que fosse
decisiva. Com este propósito recolheu-se ao seu gabinete, e ali recordou
tudo o que se havia passado desde que chegara à casa. Pesou friamente
todas as razões, todos os incidentes, e buscou reproduzir na memória a
expressão do rosto da moça, em toda aquela tarde. O gesto de indignação
e a repulsa quando ele a foi abraçar na sala de costura, eram a favor
dela; mas o movimento com que mordera os lábios no momento em que
ele lhe apresentou o relógio, as lágrimas que lhe rebentaram à mesa, e
mais que tudo o silêncio que ela conservava a respeito da procedência do
fatal objeto, tudo isso falava contra a moça.
Luís Negreiros, depois de muito cogitar, inclinou-se à mais triste e
deplorável das hipóteses. Uma idéia má começou a enterrar-se-lhe no
espírito, à maneira de verruma, e tão fundo penetrou, que se apoderou
dele em poucos instantes. Luís Negreiros era homem assomado quando a
ocasião o pedia. Proferiu duas ou três ameaças, saiu do gabinete e foi ter
com a mulher.
Clarinha recolhera-se de novo ao quarto. A porta estava apenas cerrada.
Eram nove horas da noite. Uma pequena lamparina alumiava
escassamente o aposento. A moça estava outra vez assentada na cama,
mas já não chorava; tinha os olhos fitos no chão. Nem os levantou
quando sentiu entrar o marido.
 Houve um momento de silêncio.
Luís Negreiros foi o primeiro que falou.
— Clarinha, disse ele, este momento é solene. Responde-me ao que te
pergunto desde esta tarde?
A moça não respondeu.
 — Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes arriscar a tua vida.
A moça levantou os ombros.
 Uma nuvem passou pelos olhos de Luís Negreiros. O infeliz marido lançou
as mãos ao colo da esposa e rugiu:
 — Responde, demônio, ou morres!
Clarinha soltou um grito.
 — Espera! disse ela.
Luís Negreiros recuou.
 — Mata-me, disse ela, mas lê isto primeiro. Quando esta carta foi ao teu
escritório já te não achou lá: foi o que o portador me disse.
Luís Negreiros recebeu a carta, chegou-se à lamparina e leu estupefato
estas linhas:
 Meu nhonhô. Sei que amanhã fazes anos; mando-te esta lembrança.
 Tua Iaiá.
 Assim acabou a história do relógio de ouro.

 Histórias da Meia-Noite
Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente por Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1873