sábado, 29 de julho de 2017

Contos Do Sábado: Carlos Drummond de Andrade : O Presépio:


Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida
entre a Missa do Galo e o presépio. Se fosse à igreja, o presépio não
ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, não veria
namorado.
Ë difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo
para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi
inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma
fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa.
E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.
Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos
doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas
de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas
porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e
noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe
de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são
confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem. A total ocupação
varre o espírito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre à
força de repetido, ressoa pela casa toda. "Dasdores, as dálias já foram regadas
hoje?" "Você viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?"
"Ah, Dasdores, meu bem, prega esse botão para sua mãezinha." Dasdores
multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano
supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração
ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo
com brilhantina, está Abelardo.
Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e eis a que
ocorre na espécie. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas, e até mesmo
extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o
trabalho... Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa.)
Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior
- É uma conspiradora - e sempre acha folga para pensar em Abelardo.
Esta véspera de Natal, porém, veio encontrá-la completamente desprevenida.
O presépio está por armar, a noite caminha, lenta como costuma fazê-lo no
interior, mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar, que não
perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino,
desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais, salvo esta moça,
pode dispor o presépio, arte comunicada por uma tia já morta. E só Dasdores
conhece o lugar de cada peça, determinado há quase dois mil anos, porque
cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do
presépio que cede a novidades.
As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa, e desembrulhá-las
é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação
do presépio. Todos os irmãos querem colaborar, mas antes atrapalham, e
Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da
direção. Jamais lhes será dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na
Virgem e em São José. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidiárias. O melhor
seria que não amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha
a paisagem de água e pedras, relva, cães e pinheiros, que há de circundar a
manjedoura. Nem todos os animais estão perfeitos; este carneirinho tem uma
perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim
mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante
miúdos, não guardam proporção com os cameleiros que os tangem; mas são
presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domésticos, a
qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. Através de
um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só, e não há
limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos;
sente neles a macieza da mão de Abelardo.
Alguém bate palmas na escada; ô de casa! amigas que vêm combinar a
hora de ir para a igreja. Entram e acham o presépio desarranjado, na sala em
desordem. Esta visita come mais tempo, matéria preciosa ("Agarra-me!
Agarra-me!"). Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para
fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de
tempo mas também uma calma dominadora - algo de muito importante
e que não pode absolutamente ser adiado - se esse alguém é nervoso, sua
vontade se concentra, numa excitação aguda, e o trabalho começa a surgir,
perfeito, de circunstâncias adversas. Dasdores não pertence a essa raça
torturada e criadora; figura no ramo também delicado, mas impotente, dos
fantasistas. Vão-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores,
interrogando o relógio, nele vê apenas o rosto de Abelardo, como também
percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos,
dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte.
A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio,
dispondo-as onde convém. Nada fará com que erre; do passado a tia repete
sua lição profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar
estrela, de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide, está alterado,
ou subtrai-se. Dasdores não o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o
prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a
impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao
profano, dando, talvez, preferência a este último, pois no fundo da caminha
de palha suas mãos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir -
sentia, Deus me perdoe - era um calor humano, já sabeis de quem.
Aqui desejaria, porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sê-lo,
acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos
braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação, vestir-se
violentamente, sair com as amigas - depressa, depressa-, ir correndo ladeira
acima, encontrar a igreja vazia, o adro já quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas
seria preciso atribuir-lhe, não braços e pernas suplementares, e sim outra
natureza, diferente da que lhe coube, e é pura placidez. Correi, sôfregos,
correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas
continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliação. Não
assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta
noite, depois do Menino, é o relógio, e este vai mastigando seus minutos,
seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos esquecermos dele, talvez
pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos
a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou
rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores,
que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada,
levantar os muros de Belém. Começa a fazê-lo, e o tempo dispara de novo.
"Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta, no
estouvamento dos irmãos, que querem se debruçar sobre o caminho de areia
antes que essa esteja espalhada, na muda interrogação da mãe, no sentimento
de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos, no calor
que começa a fazer apesar das janelas escancaradas - há uma previsão de
malogro iminente. Pronto, este ano não haverá Natal. Nem namorado. E a
noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.
Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida,
juntando na imaginação os dois deuses, colocando os pastores na posição
devida e peculiar à adoração, decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de
Abelardo, o mistério prestigioso do ser de Abelardo, a auréola que os
caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele
morena de Jesus, e aquele cigarro - quem botou! - ardendo na areia do
presépio, e que Abelardo fumava na outra rua.

***

Contos do Sábado na Usina: Machado de Assis: Memórias de ferro, desejos de tarlatana:


Rio, fevereiro de 2000
De 1900 aos anos 30.

Entre o passado triste e rural que persiste e o futuro vertiginoso que
não chegou, o presente das primeiras décadas do século 20 explora
linguagens diversas. Estamos rompendo os ferros da escravidão, alimentamos
sonhos de carnaval e tarlatana, velocidade e multidão. São
décadas em que ainda não existe uma linguagem brasileira padrão. Por
isso, os contistas experimentam os mais variados estilos - desde os
estrangeirismos à La mode de João do Rio aos regionalismos gaúcho e
paulista de Simões Lopes Neto e Alcântara Machado, passando pelo
insuperável, o eterno e moderno Machado de Assis. Por sorte, o maior
escritor brasileiro do século 19 ainda estava vivo nos primeiros anos do
século 20 (morreu em 1908). Tempo suficiente para escrever a obra-prima com
que abrimos este volume.
Pai contra mãe:
Machado de Assis:
A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras
instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a
certo oficio. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia
também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da
embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois
para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado.
Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era
dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam
dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca
tal
máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco,
e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta
das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma
coleira grossa, com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao
altoda cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos
castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava
um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e
nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem
pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas
repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono
não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação,
porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve,
ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no
Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam
para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcassem
aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho
levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome,
a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia
degratificação. Quando não vinha a quantia, vinha a promessa: "gratificar-se-a
generosamente", -ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio
trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo,
vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei
contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um oficio do tempo. Não seria nobre,
mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade,
trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se
metia em tal oficio por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma
achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de
servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se
sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, - em família, Candinho, - é a pessoa a quem se liga
a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o. ofício de pegar
escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava
emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo.
Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum
a tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi
o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira
boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação,
porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de
cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade, fiel de cartório, contínuo
de uma repartição anexa ao ministério do império, carteiro e outros empregos
foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas,
ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de oficio.
Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do
primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras,
mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem
complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria
ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta anos, Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma
tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco,
mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro
empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que
a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles
lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome
de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar
de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que
parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir
aoutras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu
que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro
deu-se em um baile; tal foi - para lembrar o primeiro oficio do namorado,
- tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e
pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa
das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja,
tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo,
nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado
em demasia a patuscadas.
- Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
- Não, defunto não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre
onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles
queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.
- Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
- Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.
Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele
lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o
casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os
mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam
que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora
mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo.
Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele
desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém,
deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria
trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido
e Clara riram dos seus sustos.
- Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a
aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim
era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com
retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela,
media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos
longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
- Vocês verão a triste vida, suspirava ela.
- Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.
- Nascem, e acham sempre alguma coisa certa que comer, ainda que
pouco...
- Certa como?
- Certa, um emprego, um oficio, uma ocupação, mas em que é que
o pai dessa infeliz criatura que aí vem, gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia,
não áspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já
algum dia deixara de comer.
- A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo
quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau...
- Bem sei, mas somos três.
- Seremos quatro.
- Não é a mesma coisa.
- Que quer então que eu faça, além do que faço?
- Alguma coisa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem
do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo...
Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que
escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintém.
- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus
não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum
resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a
pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma
patuscadano batizado.
Cândido Neves perdera já o oficio de entalhador, como abrira mão de
outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um
encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho
vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios,
copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória.
Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo
em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade
também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas remotas, via
passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era,
nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás
do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha
a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes
do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham
já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e
hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si
e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No
próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de
Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou
quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se
fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta
era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha,
naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia
vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda
que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de
seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre;
desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram
os parentes do homem.
- É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois
de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho;
procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra coisa, não pela razão do conselho,
mas por simples gosto de trocar de oficio; seria um modo de mudar de pele ou
de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes
de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos
ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente
os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
- Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que
me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal
o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade,
não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam
a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular...
Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou
dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada,
esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio:
- Titia não fala por mal, Candinho.
- Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for,
digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o
feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família
há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a
vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado
que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a
Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre
à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas
e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a
primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, - crueldade, se preferes.
Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido
Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos
dois foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
- Quem é? perguntou o marido.
- Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa
ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.
- Não é preciso...
- Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos à mobília para ver
se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos,
não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na
rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria
que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre
Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa
e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
- Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta
e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao
desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas
a contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas
em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou
para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de
empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a
ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa
que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia
Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora
velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo
da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer
nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise, começasse
por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de
obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as
repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a
deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir
melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois
dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também.
Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe
isso comigo; eu vou à rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que
esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os
pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como
chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela
maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma,
porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de
gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna,
abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse
recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram
Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e
indagar pela rua e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia
andar, segundo o anúncio. Não achou; apenas um farmacêutico da rua da Ajuda
se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa
que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da
escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de
gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de
si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser
levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor
do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha
fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum
prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a
mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino;
seria a maior miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem
recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher
que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o
pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não
menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto
para preservá-lo do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha, Cândido
Neves começou a afrouxar o passo.
- Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então
que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à rua da Ajuda.
Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do largo da
Ajuda, viu do lado oposto, um vulto de mulher: era a mulata fugida. Não
dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a
intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher,
a desceu eie também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a
informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a
fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
-Mas...
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua,
até o ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No
extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves
aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.
- Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado
o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela
compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos
robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar,
parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo
que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo
amor de Deus.
- Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum
filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei sua escrava, vou servi-lo
pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!
- Siga! repetiu Cândido Neves.
- Me solte!
- Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho.
Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e
naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau,
e provavelmente a castigaria com açoites, - coisa que, no estado em que ela
estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites.
- Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?
perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia,
à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes coisas. Foi
arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde
residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede,
recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser
a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou,
enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em
vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
- Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.
- É ela mesma.
- Meu senhor!
- Anda, entra...
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a
carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as
duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à
escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após
algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os
gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo
esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia
correr à rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências
do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe
entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a
tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai
recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há
pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal,
e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de
empréstimo, com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica,
ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem
mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa
do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas
verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.

- Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.

Contos Do Sábado Na Usina: Machado de Assis:Um Erradio.



A porta abriu-se... Deixa-me contar a história à laia de novela, disse Tosta à
mulher, um mês depois de casados, quando ela lhe perguntou quem era o homem
representado numa velha fotografia, achada na secretária do marido. A porta
abriu-se, e apareceu este homem, alto e sério, moreno, metido numa infinita
sobrecasaca cor de rapé, que os rapazes chamavam opa.
— Aí vem a opa do Elisiário.
— Entre a opa só.
— Não, a opa não pode; entre só o Elisiário, mas, primeiro há de glosar um mote.
Quem dá o mote?
Ninguém dava o mote. A casa era uma simples sala, sublocada por um alfaiate,
que morava nos fundos com a família; Rua do Lavradio, 1866. Era a segunda vez
que ia ali, a convite de um dos rapazes. Não podes ter idéia da sala e da vida.
Imagina um município do país da Boêmia, tudo desordenado e confuso; além dos
poucos móveis pobres, que eram do alfaiate, havia duas redes, uma canastra, um
cabide, um baú de folha-de-flandres, livros, chapéus, sapatos. Moravam cinco
rapazes, mas apareciam outros, e todos eram tudo, estudantes, tradutores,
revisores, namoradores, e ainda lhes sobrava tempo para redigir uma folha
política e literária, publicada aos sábados. Que longas palestras que tínhamos!
Solapávamos as bases da sociedade, descobríamos mundos novos, constelações
novas, liberdades novas. Tudo era o novíssimo.
— Lá vai mote, disse afinal um dos rapazes, e recitou:
Podia embrulhar o mundo
A opa do Elisiário.
Parado à porta, o homem cerrou os olhos por alguns instantes, abriu-os, passou
pela testa o lenço que trazia fechado na mão, em forma de bolo, e recitou uma
glosa de improviso. Rimo-nos muito; eu, que não tinha idéia do que era improviso,
cuidei a princípio que a composição era velha e a cena um logro para mim.
Elisiário despiu a sobrecasaca, levantou-a na ponta da bengala, deu duas voltas
pela sala, com ar triunfal, e foi pendurá-la a um prego, porque o cabide estava
cheio. Em seguida, atirou o chapéu ao teto, apanhou-o entre as mãos, e foi pô-lo
em cima do aparador.
— Lugar para um! disse finalmente.
Dei-me pressa em ceder-lhe o sofá; ele deitou-se, fincou os joelhos no ar, e
perguntou que novidades havia.
— Que o jantar é duvidoso, respondeu o redator principal do Cenáculo; o Chico foi
ver se cobrava alguma assinatura. Se arranjar dinheiro, traz logo o jantar da casa
de pasto. Você já jantou?
— Já e bem, respondeu Elisiário, jantei numa casa de comércio. Mas vocês por que
é que não vendem o Chico? é um bonito crioulo. É livre, não há dúvida, mas por
isso mesmo compreenderá que, deixando-se vender como escravo, terão vocês
com que pagar-lhe os ordenados... Dois mil-réis chegam? Romeu, vê ali no bolso
da sobrecasaca. Há de haver uns dois mil-réis.
Havia só mil e quinhentos, mas não foram precisos. Cinco minutos depois voltava
o Chico, trazendo um tabuleiro com o jantar e o resto da assinatura de um
semestre.
— Não é possível! bradou Elisiário. Uma assinatura! Vem cá, Chico. Quem foi que
pagou? Que figura tinha o homem? Baixo? Não é possível que fosse baixo; a ação
é tão sublime que nenhum homem baixo podia praticá-la. Confessa que era alto.
Confessa ao menos que era de meia altura. Confessas? Ainda bem! Como se
chama? Guimarães? Rapazes, vamos perpetuar este nome em uma placa de
bronze. Acredito que não lhe deste recibo, Chico.
— Dei, sim, senhor.
— Recibo! Mas a um assinante que paga não se dá recibo, para que ele pague
outra vez; não se matam esperanças, Chico.
Tudo isto, dito por ele, tinha muito mais graça que contado. Não te posso pintar os
gestos, os olhos e um riso que não ria, um riso único, sem alterar a face, nem
mostrar os dentes. Essa feição era a menos simpática; mas tudo o mais, a fala, as
idéias, e principalmente a imaginação fecunda e moça, que se desfazia em ditos,
anedotas, epigramas, versos, descrições, ora sério, quase sublime, ora familiar,
quase rasteiro, mas sempre original, tudo atraía e prendia. Trazia a barba por
fazer, o cabelo à escovinha; a testa, que era alta, tinha grossas rugas verticais.
Calado, parecia estar pensando. Voltava-se a miúdo no sofá, erguia-se, sentavase,
tornava a deitar-se. Lá o deixei, quando saí, às nove horas da noite.
Comecei a freqüentar a casa da Rua do Lavradio, mas durante os primeiros dias
não apareceu o Elisiário. Disseram-me que era muito incerto. Tinha temporadas.
Às vezes, ia todos os dias; repentinamente, falhava uma, duas, três semanas
seguidas, e mais. Era professor de latim e explicador de matemáticas. Não era
formado em coisa nenhuma, posto estudasse engenharia, medicina e direito
deixando em todas as faculdades fama de grande talento sem aplicação. Seria
bom prosador, se fosse capaz de escrever vinte minutos seguidos; era poeta de
improviso, não escrevia os versos, os outros é que os ouviam e transladavam ao
papel, dando-lhe cópias, muitas das quais perdia. Não tinha família; tinha um
protetor, o Dr. Lousada, operador de algum nome, que devera obséquios ao pai de
Elisiário, e quis pagá-los ao filho. Era atrevido por causa de uma sombrinha de
amor-próprio que não tolerava a menor picada. Naquela casa era bonachão. Trinta
e cinco anos; o mais velho dos rapazes contava apenas vinte e um. A familiaridade
entre ele e os outros era como a de um tio com sobrinhos, um pouco menos de
autoridade, um pouco mais de liberdade.
No fim de uma semana, apareceu Elisiário na Rua do Lavradio. Vinha com a idéia
de escrever um drama, e queria ditá-lo. Escolheram-me a mim, por escrever
depressa. Esta colaboração mental e manual durou duas noites e meia. Escreveuse
um ato e as primeiras cenas de outro; Elisiário não quis absolutamente acabar
a peça. A princípio disse que depois, mais tarde, estava indisposto, e falava de
outras coisas; afinal, declarou-nos que a peça não prestava para nada. Espanto
geral, porque a obra parecia-nos excelente, e ainda agora creio que o era. Mas o
autor pegou da palavra e demonstrou que nem o escrito prestava, nem o resto do
plano valia coisa nenhuma. Falou como se tratasse de outrem. Nós
contestávamos; eu principalmente achava um crime, e repetia esta palavra com
alma, com fogo — achava um crime não acabar o drama, que era de primeira
ordem.
— Não vale nada, dizia ele sorrindo para mim com simpatia. Menino, você quantos
anos tem?
— Dezoito.
— Tudo é sublime aos dezoito anos. Cresça e apareça. O drama não presta; mas,
deixe estar que havemos de escrever outro daqui a dias. Ando com uma idéia.
— Sim?
— Uma boa idéia, continuou ele com os olhos vagos; essa, sim, creio que dará um
drama. Cinco atos; talvez faça em verso. O assunto presta-se...
Nunca mais falou em tal idéia; mas o drama começado fez com que nos
ligássemos um pouco mais intimamente. Ou simpatia, ou amor-próprio satisfeito,
por ver que o mais consternado com a interrupção e condenação do trabalho fui
eu, — ou qualquer outra causa que não achei nem vale a pena buscar, Elisiário
entrou a distinguir-me entre os outros. Quis saber quem eram meus pais e o que
fazia. Disse-lhe que não tinha mãe; meu pai era lavrador em Baturité, eu estudava
preparatórios, intercalando-os com versos, e andava com idéias de compor um
poema, um drama e um romance. Tinha já uma lista de subscritores para os
versos. Parece que, de envolta com as notícias literárias, alguma coisa lhe disse ou
ele percebeu acerca dos meus sentimentos de moço. Propôs-se a ajudar-me nos
estudos com o seu próprio ensino, latim, francês, inglês, história... Cheio de
orgulho, não menos que de sensibilidade, proferi algumas palavras que ele gostou
de ouvir, e a que respondeu gravemente:
— Quero fazer de você um homem.
Estávamos sós; eu nada contei aos outros, para os não molestar, nem sei se eles
perceberam daí em diante alguma diferença no trato do Elisiário, em relação a
mim. É certo, porém, que a diferença não era grande, nem o plano de "fazer-me
um homem" foi além da simpatia e da benevolência. Ensinava-me algumas
matérias, quando eu lhe pedia lições, e eu raramente as pedia. Queria só ouvi-lo,
ouvi-lo, ouvi-lo até não acabar. Não imaginas a eloqüência desse homem, cálida e
forte, mansa e doce, as imagens que lhe brotavam no discurso, as idéias
arrojadas, as formas novas e graciosas. Muita vez ficávamos os dois sós na Rua do
Lavradio, ele falando, eu ouvindo. Onde morava? Disseram-me vagamente que
para os lados da Gamboa, mas nunca me convidou a lá ir, nem ninguém sabia
positivamente onde era.
Na rua era lento, direito, circunspecto. Nada faria então suspeitar o desengonçado
da casa do Lavradio, e, se falava, eram poucas e meias palavras. Nos primeiros
dias, encontrava-me sem alvoroço quase sem prazer, ouvia-me atento, respondia
pouco, estendia os dedos e continuava a andar. Ia a toda parte; era comum achálo
nos lugares mais distantes uns dos outros, Botafogo, S. Cristóvão, Andaraí.
Quando lhe dava na veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si
mesmo erradio.
— Eu sou um erradio. No dia em que parar de vez, jurem que estou morto.
Um dia encontrei-o na Rua de S. José. Disse-lhe que ia ao Castelo ver a igreja dos
Jesuítas, que nunca vira.
— Pois vamos, disse ele.
Subimos a ladeira, achamos a igreja aberta e entramos. Enquanto eu mirava os
altares, ele ia falando, mas em poucos minutos o espetáculo era ele só, um
espetáculo vivo, como se tudo renascera tal qual era. Vi os primeiros templos da
cidade, os padres da Companhia, a vida monástica e leiga, os nomes principais e
os fatos culminantes. Quando saímos, e fomos até à muralha, descobrindo o mar e
parte da cidade, Elisiário fez-me viver dois séculos atrás. Vi a expedição dos
franceses, como se a houvesse comandado ou combatido. Respirei o ar da colônia,
contemplei as figuras velhas e mortas. A imaginação evocativa era a grande
prenda desse homem, que sabia dar vida às coisas extintas e realidade às
inventadas.
Mas não era só do passado local que ele sabia, nem unicamente dos seus sonhos.
Vês aquela estatuazinha que ali tenho na parede? Sabes que é uma redução da
Vênus de Milo. Uma vez, abrindo-se a exposição das belas-artes, fui visitá-la;
achei lá o meu Elisiário, passeando grave, com a sua imensa sobrecasaca.
Acompanhou-me; ao passar pela sala de escultura, dei com os olhos na cópia
desta Vênus. Era a primeira vez que a via. Soube que era ela pela falta dos
braços.
— Oh! admirável! exclamei.
Elisiário entrou a comentar a bela obra anônima, com tal abundância e agudeza
que me deixou ainda mais pasmado. Que de coisas me disse a propósito da Vênus
de Milo, e da Vênus em si mesma! Falou da posição dos braços, que gesto fariam,
que atitude dariam à figura, formulando uma porção de hipóteses graciosas e
naturais. Falou da estética, dos grandes artistas, da vida grega, do mármore
grego, da alma grega. Era um grego, um puro grego, que ali me aparecia e
transportava de uma rua estreita para diante do Pártenon. A opa do Elisiário
transformou-se em clâmide, a língua devia ser a da Hélade, conquanto eu nada
soubesse a tal respeito, nem então, nem agora. Mas era feiticeiro o diabo do
homem.
Saímos; fomos até o Campo da Aclamação, que ainda não possuía o parque de
hoje, nem tinha outra polícia além da natureza, que fazia brotar o capim, e das
lavadeiras, que batiam e ensaboavam a roupa defronte do quartel. Eu ia cheio do
discurso do Elisiário, ao lado dele, que levava a cabeça baixa e os olhos
pensativos. De repente, ouvi dizer baixinho:
— Adeus, Ioiô!
Era uma quitandeira de doces, uma crioula baiana, segundo me pareceu pelos
bordados e crivos da saia e da camisa. Vinha da Cidade Nova e atravessava o
campo. Elisiário respondeu à saudação:
— Adeus, Zeferina.
Estacou e olhou para mim, rindo sem riso, e, depois de alguns segundos:
— Não se espante, menino. Há muitas espécies de Vênus. O que ninguém dirá é
que a esta lhe faltem braços, continuou olhando para os braços da quitandeira,
mais negros ainda pelo contraste da manga curta e alva da camisa.
Eu, de vexado, não achei resposta.
Não contei esse episódio na Rua do Lavradio; podiam meter à bulha o Elisiário, e
não queria parecer indiscreto. Tinha-lhe não sei que veneração particular que a
familiaridade não enfraquecia. Chegamos a jantar juntos algumas vezes, e uma
noite fomos ao teatro. O que mais lhe custava no teatro era estar muito tempo na
mesma cadeira, apertado entre duas pessoas, com gente adiante e atrás de si.
Nas noites de enchente, em que eram precisas travessas na platéia, ficava aflito
com a idéia de não poder sair no meio de um ato, se quisesse. Naquela, acabado o
terceiro ato (a peça tinha cinco), disse-me que não podia mais e que ia embora.
Fomos tomar chá ao botequim próximo, e deixei-me estar, esquecido do
espetáculo. Ficamos até o fechar das portas. Tínhamos falado de viagens; eu
contei-lhe a vida do sertão cearense, ele ouviu e projetou mil jornadas ao sertão
do Brasil inteiro, por serras, campos e rios, de mula e de canoa. Colheria tudo,
plantas, lendas, cantigas, locuções. Narrou a vida do caipira, falou de Enéias, citou
Virgílio e Camões, com grande espanto dos criados, que paravam boquiabertos.
— Você era capaz de ir daqui a pé, até S. Cristóvão, agora? perguntou-me na rua.
— Pode ser.
— Não, você está cansado.
— Não estou, vamos.
— Está cansado, adeus; até depois, concluiu.
Realmente, estava fatigado, precisava dormir. Quando ia a voltar para casa,
perguntei a mim mesmo se ele iria sozinho, àquela hora, e deu-me vontade de
acompanhá-lo de longe, até certo ponto. Ainda o apanhei na Rua dos Ciganos. Ia
devagar, com a bengala debaixo do braço, e as mãos ora atrás, ora nas algibeiras
das calças. Atravessou o Campo da Aclamação, enfiou pela Rua de S. Pedro e
meteu-se pelo Aterrado acima. Eu, no Campo, quis voltar, mas a curiosidade fezme
ir andando também. Quem sabe se esse erradio não teria pouso certo de
amores escondidos? Não gostei desta reflexão, e quis punir-me desandando; mas
a curiosidade levara-me o sono e dava-me vigor às pernas. Fui andando atrás do
Elisiário. Chegamos assim à ponte do Aterrado, enfiamos por ela, desembocamos
na Rua de S. Cristóvão. Ele algumas vezes parava, ou para acender um charuto,
ou para nada. Tudo deserto, uma ou outra patrulha, algum tílburi, raro, a passo
cochilado, tudo deserto e longo. Assim chegamos ao cais da Igrejinha. Junto ao
cais dormiam os botes que, durante o dia, conduziam gente para o Saco do
Alferes. Maré frouxa, apenas o ressonar manso da água. Após alguns minutos,
quando me pareceu que ia voltar pelo mesmo caminho, acordou os remadores de
um bote, que de acaso ali dormiam, e propôs-lhes levá-lo à cidade. Não sei quanto
ofereceu; vi que, depois de alguma relutância, aceitaram a proposta.
Elisiário entrou no bote, que se afastou logo, os remos feriram a água, e lá se
perdeu na noite e no mar o meu professor de latim e explicador de matemáticas.
Também eu me achei perdido, longe da cidade e exausto. Valeu-me um tílburi,
que atravessava o Campo de S. Cristóvão, tão cansado como eu, mas piedoso e
necessitado.
— Você não quis ir comigo anteontem a São Cristóvão? Não sabe o que perdeu; a
noite estava linda, o passeio foi muito agradável. Chegando ao cais da Igrejinha,
meti-me num bote e vim desembarcar no Saco do Alferes. Era um bom pedaço até
a casa; fiquei numa hospedaria do Campo de Sant'Ana. Fui atacado por um
cachorro, no caminho do Saco, e por dois na Rua de S. Diogo, mas não senti as
pulgas da hospedaria, porque dormi como um justo. E você que fez?
— Eu?
Não querendo mentir, se ele me tivesse pressentido, nem confessar que o
acompanhara de longe, respondi sumariamente:
— Eu? Eu também dormi como um justo.
Justus, justa, justum.
Estávamos na casa da Rua do Lavradio. Elisiário trazia no peito da camisa um
botão de coral, objeto de grande espanto e aclamação da parte dos rapazes, que
nunca jamais o viram com jóias. Maior, porém, foi o meu espanto, depois que os
rapazes saíram. Tendo ouvido que me faltava dinheiro para comprar sapatos,
Elisiário sacou o botão de coral e disse que me fosse calçar com ele. Recusei
energicamente, mas tive de aceitá-lo à força. Não o vendi nem empenhei; no dia
seguinte pedi algum dinheiro adiantado ao correspondente de meu pai, calcei-me
de novo, e esperei que chegasse o paquete do Norte, para restituir o botão ao
Elisiário. Se visses a cara de desconsolo com que o recebeu!
— Mas o senhor não disse outro dia que lhe tinham dado este botão de presente?
repliquei à proposta que me fez de ficar com a jóia.
— Sim, disse e é verdade; mas para que me servem jóias? Acho que ficam melhor
nos outros. Bem pensado, como é presente, posso guardar o botão. Deveras, não
o quer para si?
— Não, senhor; um presente...
— Presente de anos, continuou mirando a pedra com o olhar vago. Fiz trinta e
cinco. Estou velho, meu menino; não tardo em pedir reforma e ir morrer em
algum buraco.
Tinha acabado de repor o botão na camisa.
— Fez anos, e não me disse.
— Para quê? Para visitar-me? Não recebo nesse dia; de costume janto com o meu
velho amigo Dr. Lousada, que também faz o seu versinho, às vezes, e outro dia
brindou-me com um soneto impresso em papel azul... Lá o tenho em casa; não é
mau.
— Foi ele que lhe deu o botão...
— Não, foi a filha... O soneto tem um verso muito parecido, com outro de
Camões; o meu velho Lousada possui as suas letras clássicas, além de ser
excelente médico... Mas o melhor dele é a alma ...
Quiseram fazê-lo deputado. Ouvi que dois amigos dele, homens políticos,
entenderam que o Elisiário daria um bom orador parlamentar. Não se opôs, pediu
apenas aos inventores do projeto que lhe emprestassem algumas idéias políticas;
riram-se, e o projeto não foi adiante.
Quero crer que lhe não faltassem idéias, talvez as tivesse de sobra, mas tão
contrárias umas às outras que não chegariam a formar uma opinião. Pensava
segundo a disposição do dia, liberal exaltado ou conservador corcunda. O principal
motivo da recusa era a impossibilidade de obedecer a um partido, a um chefe, a
um regimento de câmara. Se houvesse liberdade de alterar as horas da sessão,
uma de manhã, outra de noite, outra de madrugada, ao acaso da freqüência, sem
ordem do dia, com direito de discutir o anel de Saturno ou os sonetos de Petrarca,
o meu erradio Elisiário aceitaria o cargo, contanto que não fosse obrigado a estar
calado, nem a falar, quando lhe chegasse a vez.
Aí tens o que era esse homem fotografado em 1862. Em suma, boa criatura,
muito talento, excelente conversador, alma inquieta e doce, desconfiada e
irritadiça, sem futuro nem passado, sem saudades nem ambições, um erradio.
Senão quando... Mas é muito falar sem fumar um charuto... Consentes? Enquanto
acendo o charuto, olha para esse retrato, descontando-lhe os olhos, que não
saíram bem; parecem olhos de gato e inquisidor, espetados na gente, como
querendo furar a consciência. Não eram isso; olhavam mais para dentro que para
fora, e quando olhavam para fora derramavam-se por toda a parte.
Senão quando, uma tarde, já escuro, por volta das sete horas, apareceu-me na
casa de pensão o meu amigo Elisiário. Havia três semanas que o não via, e, como
tratava de fazer exames, e passava mais tempo metido em casa, não me admirei
da ausência nem cuidei dela. Demais, já me acostumara aos seus eclipses. O
quarto estava escuro, eu ia sair e acabava de apagar a vela, quando a figura alta e
magra do Elisiário apareceu à porta. Entrou, foi direito a uma cadeira, sentei-me
ao pé dele, perguntei-lhe por onde andara. Elisiário abraçou-me chorando. Fiquei
tão assombrado que não pude dizer nada; abracei-o também, ele enxugou os
olhos com o lenço, que de costume trazia fechado na mão, e suspirou largo. Creio
que ainda chorou silenciosamente, porque enxugava os olhos de quando em
quando. Eu, cada vez mais assombrado, esperava que ele me dissesse o que
tinha; afinal murmurei:
— Que é? que foi?
— Tosta, casei-me sábado...
Cada vez mais espantado, não tive tempo de lhe pedir outra explicação, porque o
Elisiário continuou logo, dizendo que era um casamento de gratidão, não de amor,
uma desgraça. Não sabia que respondesse à confidência, não acabava de crer na
notícia, e principalmente, não entendia o abatimento nem a dor do homem. A
figura do Elisiário, qual a recompus depois, não me aparecia por esse tempo com a
significação verdadeira. Cheguei a supor alguma coisa mais que o simples
casamento; talvez a mulher fosse idiota ou tísica; mas quem o obrigaria a
desposar uma doente?
"Uma desgraça! repetia baixinho, falando para si, uma desgraça!"
Como eu me levantasse dizendo que ia acender uma vela, Elisiário reteve-me pela
aba do fraque.
— Não acenda, não me vexe, o escuro é melhor, para lhe expor esta minha
desgraça. Ouça-me. Uma desgraça. Casado! Não é que ela me não ame; ao
contrário, morria por mim há sete anos. Tem vinte e cinco... Boa criatura! Uma
desgraça!
A palavra desgraça era a que mais vezes lhe tornava ao discurso. Eu, para saber o
resto, quase não respirava; mas não ouvi grande coisa, pois o homem, depois de
algumas palavras descosidas, suspendeu a conferência. Fiquei sabendo só que a
mulher era filha do Dr. Lousada, seu protetor e amigo, a mesma que lhe dera o
botão de coral. Elisiário calou-se de repente, e depois de alguns instantes como
arrependido ou vexado, pediu-me que não referisse a pessoa alguma aquela cena
dele comigo.
— O senhor deve conhecer-me...
— Conheço, e porque o conheço é que vim aqui. Não sei que outra pessoa me
merecesse agora igual confiança. Adeus, não lhe digo mais nada, não vale a pena.
Você é moço, Tosta; se não tiver vocação para o casamento, não se case nunca,
nem por gratidão, nem por interesse. Há de ser um suplício. Adeus. Não lhe digo
onde moro, moro com meu sogro, mas não me procure.
Abraçou-me e saiu. Fiquei à porta do quarto. Quando me lembrei de acompanhá-lo
até escada, era tarde; ia descendo os últimos degraus. O lampião de azeite
alumiava mal a escada, e a figura descia vagarosa, apoiada ao corrimão, cabeça
baixa e a vasta sobrecasaca alegre, agora triste.
Só dez meses depois tornei a ver o Elisiário. A primeira ausência foi minha; tinha
ido ao Ceará, ver meu pai, durante as férias. Quando voltei, soube que ele fora ao
Rio Grande do Sul. Um dia, almoçando, li nos jornais que chegara na véspera, e
corri a buscá-lo. Achei-o em Santa Teresa, uma casinha pequena, com um jardim,
pouco maior que ela. Elisiário abraçou-me com alvoroço; falamos de coisas
passadas; perguntei-lhe pelos versos.
— Publiquei um volume em Porto Alegre. Não foi por minha vontade, mas minha
mulher teimou tanto que afinal cedi; ela mesma os copiou. Tem alguns erros; hei
de fazer aqui uma segunda edição.
Elisiário deu-me um exemplar do livro, mas não consentiu que lesse ali nada.
Queria só falar dos tempos idos. Perdera o sogro, que lhe deixara alguma coisa, e
ia continuar a lecionar, para ver se achava as impressões de outrora. Onde
estavam os rapazes da Rua do Lavradio? Recordava cenas antigas, noitadas,
algazarra, grandes risotas, que me iam lembrando coisas análogas, e assim
gastamos duas boas horas compridas. Quando me despedi, pegou-me para jantar.
— Você ainda não viu minha mulher, disse ele. E indo à porta que dava para
dentro: — Cintinha!
— Lá vou! respondeu uma voz doce.
D. Jacinta chegou logo depois, com os seus vinte e seis anos, mais baixa que alta,
mais feia que bonita, expressão boa e séria, grande quietação de maneiras.
Quando ele lhe disse o meu nome, olhou para mim espantada.
— Não é um bonito rapaz?
Ela confirmou a opinião inclinando modestamente a cabeça. Elisiário disse-lhe que
eu jantava com eles; a moça retirou-se da sala.
— Boa criatura, disse-me ele; dedicada, serviçal. Parece que me adora. Já me não
faltam botões nos paletós que trago... Pena! melhor que eles eram os botões que
faltavam. A sobrecasaca de outrora, lembra-se?
Podia embrulhar o mundo
A opa do Elisiário.
— Lembra-me.
— Creio que me durou cinco anos. Onde vai ela! Hei de fazer-lhe um epicédio, com
uma epígrafe de Horácio...
Jantamos alegremente. D. Jacinta falou pouco; deixou que eu e o marido
gastássemos o tempo em relembrar o passado. Naturalmente, o marido tinha
surtos de eloqüência, como outrora; a mulher era pouca para ouvi-lo. Elisiário
esquecia-se de nós, ela de si, e eu achava a mesma nota antiga, tão viva e tão
forte. Era costume dele concluir um discurso desses e ficar algum tempo calado.
Resumia dentro de si o que acabava de dizer? Continuava a mesma ordem de
idéias? Deixava-se ir ainda pela música da palavra? Não sei; achei-lhe o velho
costume de ficar calado sem dar pelos outros. Nessas ocasiões a mulher calava-se
também, a olhar para ele, não cheia de pensamento, mas de admiração. Sucedeu
isso duas vezes. Em ambas chegou a ser bonita.
Elisiário disse-me, ao café, que viria comigo abaixo.
— Você deixa, Cintinha?
D. Jacinta sorriu para mim, como se dissesse que o pedido era desnecessário.
Também ela falou no livro de versos do marido.
— Elisiário é preguiçoso; o senhor há de ajudar-me a fazer com que ele trabalhe.
Meia hora depois descíamos a ladeira. Elisiário confessou-me que, desde que
casara, não tivera ocasião de relembrar a vida de solteiro, e ao chegarmos abaixo
declarou-me que iríamos ao teatro.
— Mas você não avisou em casa...
— Que tem? Aviso depois. Cintinha é boa, não se zanga por isso. Que teatro há de
ser?
Não foi nenhum; falamos de outras coisas, e às nove horas tornou para casa.
Voltei a Santa Teresa poucos dias depois, não o achei, mas a mulher disse-me que
o esperasse, não tardaria.
— Foi a uma visita aqui mesmo no morro, disse ela; há de gostar muito de o ver.
Enquanto falava, ia fechando dissimuladamente um livro, e foi pô-lo em uma
mesa, a um canto. Tratamos do marido; ela pediu-me que lhe dissesse o que
pensava dele, se era um grande espírito, um grande poeta, um grande orador, um
grande homem, em suma. As palavras não seriam propriamente essas, mas
vinham a dar nelas. Eu, que o admirava, confirmei-lhe o sentimento, e o gosto
com que me ouviu foi paga bastante ao tal ou qual esforço que empreguei para
dar à minha opinião a mesma ênfase.
— Faz bem em ser amigo dele, concluiu; ele sempre me falou bem do senhor;
dizia que era um menino muito sério.
O gabinete tinha flores frescas e uma gaiola com passarinho. Tudo em ordem,
cada coisa em seu lugar, obra visível da mulher. Daí a pouco entrou Elisiário, com
a gravata no pescoço, o laço na frente, a barba rapada, correto e em flor. Só
então notei a diferença entre este Elisiário e o outro. A incoerência dos gestos era
já menor, ou estava prestes a acabar inteiramente. A inquietação desaparecera.
Logo que ele entrou, a mulher deixou-nos para ir mandar fazer café, e voltou
pouco depois, com um trabalho de agulha.
— Não, senhora, vamos primeiro ao latim, bradou o marido.
D. Jacinta corou extraordinariamente, mas obedeceu ao marido e foi buscar o livro
que estava lendo quando eu cheguei.
— Tosta é de confiança, continuou Elisário, não vai dizer nada a ninguém.
E voltando-se para mim:
— Não pense que sou eu que lhe imponho isto; ela mesma é que quis aprender.
Não crendo o que ele me dizia, quis poupar à moça a lição de latim, mas foi ela
própria que me dispensou o auxílio, indo buscar alegremente a gramática do Padre
Pereira. Vencida a vergonha, deu a lição, como um simples aluno. Ouvia com
atenção, articulava com prazer, e mostrava aprender com vontade. Acabado o
latim, o marido quis passar à lição de história; mas foi ela, dessa vez, que recusou
obedecer, para me não roubá-lo a mim. Eu, pasmado, desfiz-me em louvores;
realmente achava tão fora de propósito aquela escola de latim conjugal, que não
alcançava explicação, nem ousava pedi-la.
Amiudei as visitas. Jantava com eles algumas vezes. Ao domingo ia só almoçar. D.
Jacinta era um primor. Não imaginas a graça que tinha em falar e andar, tudo sem
perder a compostura dos modos nem a gravidade dos pensamentos. Sabia muitos
trabalhos de mãos, apesar do latim e da história que o marido lhe ensinava. Vestia
com simplicidade, usava os cabelos lisos e não trazia jóia alguma; podia ser
afetação, mas tal era a sinceridade que punha em tudo, que parecia natural nisso
como no resto.
Ao domingo, o almoço era no jardim. Já achava o Elisiário à minha espera, à
porta, ansioso que eu chegasse. A mulher estava acabando de arranjar as flores e
folhagens que tinham de adornar a mesa. Além disso e do mais, adornava cartões
contendo a lista dos pratos, com emblemas poéticos e nomes de musas para as
comidas. Nem todas as musas podiam entrar, eles não eram ricos, nem nós tão
comilões; entravam as que podiam. Era ao almoço que Elisiário, nos primeiros
tempos, mais geralmente improvisava alguma coisa. Improvisava décimas, — ele
preferia essa estrofe a qualquer outra; mais tarde, foi diminuindo o número delas,
e para diante não passava de duas ou de uma. D. Jacinta pedia-lhe então sonetos;
sempre eram quatorze versos. Ela e eu copiávamos logo, a lápis, com retificações
que ele fazia, rindo: — "Para que querem vocês isso?" Afinal perdeu o costume,
com grande mágoa da mulher, e minha também. Os versos eram bons, a
inspiração fácil; faltava-lhes só o calor antigo.
Um dia perguntei a Elisiário por que não reimprimia o livro de versos, que ele dizia
ter saído com incorreções; eu ajudaria a ler as provas. D. Jacinta apoiou com
entusiasmo a proposta.
— Pois, sim, disse ele, um dia destes; começaremos domingo.
No domingo, D. Jacinta, estando a sós comigo, um instante, pediu-me que não
esquecesse a revisão do livro.
— Não, senhora, deixe estar.
— Não enfraqueça, se ele quiser adiar o trabalho, continuou a moça; é provável
que ele fale em guardar para outra vez, mas teime sempre, diga que não, que se
zanga, que não volta cá...
Apertou-me a mão com tanta força, que me deixou abalado. Os dedos tremiamlhe;
parecia um aperto de namorada. Cumpri o que disse, ela ajudou-me, e ainda
assim gastamos meia hora antes que ele se dispusesse ao trabalho. Afinal pediunos
que esperássemos, ia buscar o livro.
— Desta vez, vencemos, disse eu.
D. Jacinta fez com a boca um gesto de desconfiança, e passou da alegria ao
abatimento.
— Elisiário está preguiçoso. Há de ver que não acabamos nada. Pois não vê que
não faz versos senão à força de muito pedido, e poucos? Podia escrever também,
quando mais não fosse alguns daqueles discursos que costuma improvisar, mas os
próprios discursos são raros e curtos. Tenho-me oferecido tantas vezes para
escrever o que ele mandar... Chego a preparar o papel, pego na pena e espero;
ele ri, disfarça, diz um gracejo, e responde que não está disposto.
— Nem sempre estará.
— Pois sim; mas então declaro que estou pronta para quando vier a inspiração, e
peço-lhe que me chame. Não chama nunca. Uma ou outra vez tem planos; eu vou
animando, mas os planos ficam no mesmo. Entretanto, o livro que ele imprimiu
em Porto Alegre foi bem recebido, podia animá-lo.
— Animá-lo? Mas ele não precisa de animações; basta-lhe o grande talento que
tem.
— Não é verdade? disse ela chegando-se a mim, com os olhos cheios de fogo. Mas
é pena! tanto talento perdido!
— Nós o acharemos; hei de tratá-lo como se ele fosse mais moço que eu. O mau
foi deixá-lo cair na ociosidade...
Elisiário tornou com um exemplar do livro. Não trazia tinta nem pena; ela foi
buscá-las. Começamos o trabalho da revisão; o plano era emendar, não só os
erros de imprensa, mas o próprio texto. A novidade do caso interessou
grandemente o nosso poeta, durante perto de duas horas. Verdade é que a maior
parte do tempo era interrompido com a história das poesias, a notícia das
pessoas, se as havia, e havia muitas; uma boa porção das composições era
dedicada a amigos ou homens públicos. Naturalmente fizemos pouco: não
passamos de vinte páginas. Elisiário confessou que estava com sono, adiamos o
trabalho, e nunca mais pegamos nele.
D. Jacinta chegou a pedir ao marido que nos deixasse a nós a tarefa de emendar o
livro; ele veria depois o texto emendado e pronto. Elisiário respondeu que não,
que ele mesmo faria tudo, que esperássemos, não havia pressa. Mas, como disse,
nunca mais pegamos no livro. Já raro improvisava, e, como não tinha paciência
para compor escrevendo, os versos iam escasseando mais. Já lhe saíam frouxos; o
poeta repetia-se. Quisemos ainda assim propor-lhe outro livro, recolhendo o que
havia, e antes de o propor, tratamos de compilá-lo. O todo precisava de revisão;
Elisiário consentiu em fazê-la, mas a tentativa teve o mesmo resultado que a
outra. Os próprios discursos iam acabando. O gosto da palavra morria. Falava
como todos nós falamos; não era já nem sombra daquela catadupa de idéias, de
imagens, de frases, que mostravam no orador um poeta. Para o fim, nem falava;
já me recebia sem entusiasmo, ainda que cordialmente. Afinal vivia aborrecido.
Com poucos anos de casada, D. Jacinta tinha no marido um homem de ordem, de
sossego, mas sem inspiração nem calor. Ela própria foi mudando também. Não
instava já pela composição de versos novos, nem pela correção dos velhos. Ficou
tão desinteressada como ele. Os jantares e os almoços eram como os de qualquer
pessoa que não cuide de letras. D. Jacinta buscava não tocar em tal assunto que
era penoso ao marido e a ela; eu imitava-os. Quando me formei, Elisiário compôs
um soneto em honra minha; mas já lhe custou muito, e, a falar verdade, não era
do mesmo homem de outro tempo.
D. Jacinta vivia então, não direi triste, mas desencantada. A razão não se
compreenderá bem, senão sabendo as origens da afeição que a levara ao
casamento.
Pelo que pude colher e observar, nunca essa moça amou verdadeiramente o
homem com quem casou. Elisiário acreditou que sim, e o disse, porque o pai dela
pensava que era deveras um amor como os outros. A verdade, porém, é que o
sentimento de D. Jacinta era pura admiração. Tinha uma paixão intelectual por
esse homem, nada mais, e nos primeiros anos não pensou em casar com ele.
Quando Elisiário ia à casa do Dr. Lousada, D. Jacinta vivia as melhores horas da
vida, escutando-lhe os versos, novos ou velhos, — os que trazia de cor e os que
improvisava ali mesmo. Possuía boa cópia deles. Mas, ainda que não fossem
versos, contentava-se em ouvi-lo para admirá-lo. Elisiário, que a conhecia desde
pequena, falava-lhe como a uma irmã mais moça. Depois viu que era inteligente,
mais do que o comum das mulheres, e que havia nela um sentimento de poesia e
de arte que a faziam superior. O apreço em que a tinha era grande, mas não
passava disso.
Assim se passaram anos. D. Jacinta começou a pensar em um ato de pura
dedicação. Conhecia a vida de Elisiário, os dias perdidos, as noitadas, a
incoerência e o desarranjo de uma existência que ameaçava acabar na inutilidade.
Nenhum estímulo, nenhuma ambição de futuro. D. Jacinta acreditava no gênio de
Elisiário. Muitos eram os admiradores; nenhum tinha a fé viva, a devoção calada e
profunda daquela moça. O projeto era desposá-lo. Uma vez casados, ela lhe daria
a ambição que não tinha, o estímulo, o hábito do trabalho regular, metódico, e
naturalmente abundante. Em vez de perder o tempo e a inspiração em coisas
fúteis ou conversas ociosas, comporia obras de fôlego, nas boas horas e para ele
quase todas as horas eram excelentes. O grande poeta afirmar-se-ia perante o
mundo. Assim disposta, não lhe foi difícil obter a colaboração do pai, sem todavia
confessar-lhe o motivo secreto da ação; seria dizer que se casava sem amor. O
que ela disse foi que o amava deveras.
Que haja nisso uma nota romanesca, é verdade; mas o romanesco era aqui obra
de piedade, vinha de um sentimento de admiração, e podia ser um sacrifício.
Talvez mais de um tentasse casar com ela. D. Jacinta não pensou em ninguém,
até que lhe surdiu a idéia generosa de seduzir o poeta. Já sabes que este casou
por obediência.
O resultado foi inteiramente oposto às esperanças da moça. O poeta, em vez dos
louros, enfiou uma carapuça na cabeça, e mandou bugiar a poesia. Acabou em
nada. Para o fim dos tempos nem lia já obras de arte. D. Jacinta padeceu
grandemente; viu esvair-se-lhe o sonho, e, se não perdeu, antes ganhou o latim,
perdeu aquela língua sublime em que cuidou falar às ambições de um grande
espírito. A conclusão a que chegou foi ainda um desconsolo para si. Concluiu que o
casamento esterilizara uma inspiração que só tinha ambiente na liberdade do
celibato. Sentiu remorsos. Assim, além de não achar as doçuras do casamento na
união com Elisiário, perdeu a única vantagem a que se propusera no sacrifício.
Errava naturalmente. Para mim Elisiário era o mesmo erradio, ainda que
parecesse agora pousado; mas era também um talento de pouca dura; tinha de
acabar, ainda que não casasse. Não foi a ordem que lhe tirou a inspiração.
Certamente, a desordem ia mais com ele que tanto tinha de agitado, como de
solitário; mas a quietação e o método não dariam cabo do poeta, se a poesia nele
não fosse uma grande febre da mocidade... Em mim é que não passou de ligeira
constipação da adolescência. Pede-me tu amor, que o terás; não me peças versos,
que desaprendi há muito, concluiu Tosta, beijando a mulher.