sábado, 5 de agosto de 2017

Pensamento do Dia:


“O ser não envelhece. O corpo é que não suporta o acúmulo de sabedoria.”



Esta e mas de 90 outras frases estão nesta edição comemorativa.
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Projeto Contos do Sábado Na Usina: O homem que sabia javanês:Lima Barreto


Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as
partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades para poder
viver.
Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que
fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança
obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho.
Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu
Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos,
observou a esmo:
- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!
- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!
- Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
- Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
- Bebo. Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos e continuei:
- Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Commercio o anúncio seguinte:
"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc.
Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos
concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café
e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres".
Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do
arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.
Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los. À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
- Senhor Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:
- Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...
Por aí o homem interrompeu-me:
- Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
- É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
- Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta.
Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes
continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder - "como está o senhor?" - e duas ou três regras de gramática,
lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas
mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza... Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava maltratada, mas não sei por que me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo
e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada.
As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou malcuidadas.
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati.
Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas
e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir
aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados
dos velhos desiludidos...
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento
alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
- Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.
- Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?
- Não, sou de Canavieiras.
- Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo.
- Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu.
- Onde fez os seus estudos?
- Em São Salvador.
- E onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
- E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.
- Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de mestiço de malaio... Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.
- Bem, fez o meu amigo, continua.
- O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:
- Então está disposto a ensinar-me javanês?
- A resposta saiu-me sem querer: - Pois não.
- O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...
- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...
- O que eu quero, meu caro senhor...?
- Castelo, adiantei eu.
- O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro 1, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu
não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado
que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida.
Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre minha velhice que me lembrei do talismã de família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para atendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.
Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um inquarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso.
Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio.
Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes
de um ano.
Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês
e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria:
aprendia e desaprendia.
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.
Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!"
O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão) era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um
trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo. Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus
umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do cronicon.
Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu
crescia aos seus olhos!
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao
Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas
as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo.
"Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou os chefes de secção: "Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!"
Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"
O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.
A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia
ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso
de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Múller, e outros!" Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.
Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésicas; mas não havia meio! Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros,
assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-
Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Commercio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...
- Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita.
Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente.
Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uf!
Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês,
para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
- É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?
- Quê?
- Bacteriologista eminente. Vamos?
- Vamos.

Contos do Sábado Na Usina: Se eu fosse um Pássaro...


"Se eu fosse um Pássaro... simplesmente um sonhador"

 Ah, por onde poderia eu começar meu sonho? Quem sabe pelo primeiro momento da minha fecundação, dias que se seguem, de quanta expectativa, poderia eu tão frágil romper aquela moldura que me protegia do perigo do mundo.
 Ah, mas que mundo, se eu o desconhecia e nunca tinha estado nele. Finalmente é chegado o tão sonhado dia que num esforço sobre-humano rompia a grande moldura.
 E lá estava eu, naquele lugar que dali em diante seria meu mundo. Qual não foi a minha surpresa em ver ao meu lado algo que me afagava com um cantar melodioso que agradava os meus ouvidos.
E pensar que tudo aquilo era para festejar a minha chegada.
 Ah, quanta surpresa a vida me guardava, a minha primeira refeição, um degustar estranho e eu nem se quer sabia bem o que era. Bem isso não importava, por que o que me comovia mesmo eram a paciência e a capacidade com a qual aquela criatura de olhar angelical que mais tarde fiquei sabendo, era a minha mãe. Tratava-me com orgulho como se eu fosse um troféu valioso.
 Ah, quantos mistérios me cercava, minha indagação era para com aquele ser imponente que ao longe me observava, com olhar autoritário, com seu porte e plumagem formosa, aquele ser que na ausência de minha mãe era todo ouvido, e que de repente atacava impiedosamente aqueles que ousavam se aproximar. Para mim era um gigante a me proteger.
 Ah, quantos sonhos, quanta admiração e dúvidas em ver aquele que me rodeava sumir em vôos rasantes a cortar o horizonte sem fim, assim como os meus sonhos.
 Ah, quanta angústia separava o sonho da realidade. Os dias pareciam cada vez mais lentos e sem muitas novidades, até que em um dia maravilhoso a minha plumagem florescia como grama em campo fértil.
 Ah, quanta felicidade, finalmente era chegada a hora que provaria do bem mais valioso do ser, a fantástica liberdade.
 Ah, quantas dúvidas e incertezas passavam em meus pensamentos, ainda, tão infantis e sob o olhar de orgulho e de dever cumprido dos meus pais. Finalmente, dei meus primeiros vôos para a tão sonhada liberdade.
 Ah, quantas coisas novas pude ver naquele horizonte sem fim, eu me sentia senhor de mim, era como se o mundo estivesse sido criado para mim e não eu para o mundo. Eu que era a caça tornei-me um feroz caçador, finalmente poderia escolher meu alimento, bem como o lugar que fosse ideal para meu repouso e cantar as melodias que mais gostasse.
 Ah, para liberdade de voar não existe parâmetro de comparação, ela é única e indescritível.
 Ah, quantos desafios teria eu nesta longa jornada que é a vida. Eu que era senhor de mim, o infinito era o meu limite. Ah, quanta ilusão, quantos sonhos desperdiçados com coisas fúteis que nunca me engrandeceram em nada... E como para os tolos meu tempo passou rápido demais. A minha juventude se perdeu na imensidão do amanhecer. Sem que eu percebesse.
 Ah, quantas coisas se passaram sem que eu pode se imaginar a sua verdadeira importância.
Finalmente despertei-me de que já se aproximava o meu fim e o mais triste, não liguei para o fato de que não tinha deixado sequer a continuidade da minha espécie. Ah! Eu sempre a fingir não ver o meu tempo passar.
 Ah quanto me arrependo de não ter dado a devida importância ao tempo que me foi outorgado e que eu não soube aproveitá-lo. Eu um pássaro sonhador que se perdeu em seu próprio sonho.

Ah, mas o que importa sonho vivido ou sonho perdido será sempre só um sonho.

D'Araujo.
Fonte: Conteúdo do Romance, "Enquanto Deus Dormia" Lançado em 2009 pela Editora, Bibloteca24x7.

Contos do Sábado na Usina: João do Rio: O bebê de tarlatana rosa:


Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O Carnaval só é
interessante porque nos dá essa sensação de angustioso
imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de Carnaval,deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um Carnaval semaventuras não é Carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando anossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante.
Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.
- É uma aventura alegre? indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
-Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está
adoecendo a Maria.
Heitor puxou um largo trago à cigarreta.
- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto
aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio
é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem
da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de
guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente
com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam
como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser
indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade,
saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da Primavera,
ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco
atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar
só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo
era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos de automóvel
a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de
jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo
e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma
visita ao baile público do Recreio. - "Nossa Senhora! disse a primeira estrela
de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à
paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz,
rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos juntos?
Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que
temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se
bem. Naturalmente fomos e era a desolação com pretas beiçudas e desdentadas
esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo
o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas
diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que têm as perdidas de certas
ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas
de pasta de mata-borrão e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas,
como o grupo parara diante dos dançarmos, eu senti que se roçava em mim,
gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia
curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio.
Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos
perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz,
um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo
falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu
mais e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei
imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis
damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos
alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma
freqüentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear
noclube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado
do chauffeur, no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e uma voz
rouca dizer: "para pagar o de ontem. Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com
o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: aonde
vais hoje?
- A toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a mão.
Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também. Na terça
desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma roupa
leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade
inteira estava assim. E o momento em que por trás das máscaras as meninas
confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas
transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a
honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é
possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso
que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida.
Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do
contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar,
acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal
no carnaval.
- A quem o dizes!..., suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos
defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois
de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo
S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa,
insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente, e
saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas
abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes
incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas dos fogos
de bengala, caíam em sombras - sombras cúmplices da madrugada urbana.
E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado
levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas
calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais
na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um
som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de
enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as
dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante
arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo lago do Rocio e ia caminhando
para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de
tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto
com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? Onde? indagou a sua voz
áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas
eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios
tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com
a sua voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço pela cintura
e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem
dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo
que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos
uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em
desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante
da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois
arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao
fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais.
Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís
de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório
de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente
ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes.
O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela
austeridade da noite. - Então, vamos? indaguei. - Para onde? - Para a
tua casa. - Ah! não, em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair,
despir-me. Não sou disso! - Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui
na rua. Daqui a minutos passa a guarda. - Que tem? - Não é possível que
nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro
tens que tirar a máscara. - Que máscara? - O nariz. - Ah! sim! E sem
mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo,
beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós
o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com
cheiro a resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou:
Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela
carne de chama.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia ummal-estar
curioso, um estado de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora
para casa com isso! Depois não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não!
procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me,
o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus
lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz
que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui
aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre
agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a
cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz,
com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante
- uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu
tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com
a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando
singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. - Perdoa! Perdoa!
Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar.
Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...
Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado.
Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o
imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes,
de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda
estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que
fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo mundo que a beijara?
Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo
inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos
batendo,ardendo em febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha mão
direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana
rosa...
Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria
de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia
mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor.
Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a
campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumiu:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem
do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.

E foi sentar-se ao piano.