terça-feira, 26 de março de 2013

Poema: Sabor dos Ventos




Meu amor por você cresce na velocidade do tempo ao sabor dos ventos que me levam até você.

O desejo de amanhecer com teu cheiro e teu calor aquece o meu ser que sofre a tua ausência.

Este inigualável sorriso que floresce como uma linda manhã de primavera faz minha alma sorrir.

Em uma bela janela de um tempo que não vai ter fim.
Ouço a canção dos ventos que me levam ao lago que reside à felicidade.
E me vem o sabor dos teus beijos como eterno desejo de contigo sempre estar.

Por D'Araujo.




sexta-feira, 22 de março de 2013

Poema :Amor eterno amor




Queria eu que este dia não tivesse fim com você a cuidar de mim, esta tua pele feita seda.

E esta chama eternamente
Acesa a me incendiar esta minha vida alheia este teu corpo que me queima esta voz que me faz ferver.

Em ver-te feito canção a flutuar no ar no mar em ventos que me levam a imaginar este olhar meigo e sereno que me toma feito veneno a percorrer minhas veias

Que chega a me deixar louco. Quem me dera provar dos teus beijos como eterno desejo de contigo sempre estar.

Lindo céu com tapete de estrelas então posso vê-la em meus braços brilhar e matar meu cansaço e no teu colo em um eterno solo esqueço o inferno que é viver sem você, meu amor eterno amor.

Por: D'Araujo.

domingo, 17 de março de 2013

Poema: Presença


Por entre nuvens e montanhas minha alma flutua em busca de tua presença.
A noite cai e você não vem me aquecer.

O frio da madrugada gela meu corpo.
O dia nasce e você é só um sonho que não Termina.

Como posso continuar sonhando se já não tenho
O entardecer com o sabor dos teus beijos.
E aonde esta você que não vem acalentar minha alma.

Chega à noite então durmo na esperança de sonhar
Com você.
Mais aonde esta você que não vem...

Por: D'Araujo.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Poema: Zona Morta.


Zona morta porta torta
Alma morta ou mesmo torta
Plantado feita horta.
Não importa a cor da porta.

Porta, do passado ou futuro.
Escuro, depois do murro
Que nos transporta para a zona morta
Que fica atrás da porta torta.

Corpo de gente mão sem luva
Dia sem chuva caminho sem curva
Água turva
Tempestade sem vento.
Apenas tento...

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Nelson Rodrigues: Biografia: "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."


II - Nasce Joffre, seu primeiro filho. O autor, por ordens médicas, não podia ficar perto do filho. Descobre que foi premiado com uma úlcera do duodeno. O médico lhe prescreve regime alimentar e manda que ele pare de tomar café e de fumar, coisa que nunca fez. Depois de muita luta, em 09 de dezembro de 1942, A mulher sem pecado foi levada à cena pela "Comédia Brasileira", com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastava ao autor.
Em janeiro de 1943 Nelson escreve sua segunda peça teatral: Vestido de Noiva. Elza, sua mulher, fez mais de vinte cópias datilografadas para serem entregues a jornalistas, críticos e amigos. O primeiro a receber foi Manuel Bandeira. Ele gostou. Como outros, escreveu sobre ela e elogiou. Os jornais e suplementos falavam sobre Vestido de Noiva mas o autor não conseguia encená-la. Todos diziam que era uma peça que exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Só Thomaz Santa Rosa, um pernambucano ex-funcionário do Banco do Brasil, cantor lírico, desenhista, músico e poeta, achou que era possível. Falou então com um polonês recém-chegado ao Brasil: Zbigniew Ziembinski.
O grande ator e diretor leu a peça e disse: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". O autor conhece o diretor e tem início a epopéia do grupo "Os Comediantes": oito meses de ensaios, oito horas por dia. Às 20h30 do dia 28 de dezembro de 1943, os portões foram abertos e 2.205 espectadores viram a peça. Duas horas depois a peça chegou ao fim. O silêncio foi total na platéia. Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões em polonês, manda subir o pano. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor. O diretor aparece e o teatro delira. Alguém grita na platéia: "O autor, o autor". Nelson estava escondido em um camarote, lutando contra a dor de sua úlcera, e não foi visto por ninguém. Disse, depois, que sofreu naquele momento, sentindo-se "um marginal da própria glória". Quando o autor, após as comemorações com a família na leiteria "Palmira", pegou o bonde de volta para casa já eram quase duas da manhã de 29 de dezembro de 1943. Naquele momento completavam-se catorze anos da morte de seu irmão Roberto.
Apesar da fama que a peça lhe deu — o ano de 1944 foi cheio de acontecimentos — ele continuava sendo mal pago pelo O Globo Juvenil. Em fevereiro de 1945 é convidado por David Nasser, de O Cruzeiro, para uma conversa com Freddy Chateaubriand. Foram almoçar, além do autor, Freddy Chateaubriand, Millôr Fernandes e David Nasser. A oferta era inacreditável: cinco contos de réis (já nessa época cinco mil cruzeiros) — mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho.
Para ele estava fechado, mas pediu para falar com o dr. Roberto, a quem devia favores. Esse não só não se opôs como desejou-lhe boa sorte e deu-lhe dez mil cruzeiros. Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas Detetive e de O Guri. Como a função lhe tomava pouco tempo, o autor ficava perambulando pela redação da revista O Cruzeiro, que era no mesmo andar. Sempre procurando fazer "bicos" que permitissem um ganho extra — continuava a ajudar sua mãe financeiramente — soube que Freddy Chateaubriand estava querendo comprar um folhetim francês ou americano para O Jornal, que estava com uma tiragem de apenas 3.000 exemplares por dia e sem anúncios. Nelson ofereceu-se para escrever o folhetim. Daí nasceu Suzana Flag e Meu destino é pecar.
Cada episódio tomava uma página inteira de O Jornal e tinha uma ilustração de Enrico Bianco. Foram 38 capítulos que elevaram a tiragem do jornal para quase trinta mil exemplares. Apesar de estar ganhando um extra por capítulo, o autor não gostava que soubessem que escrevia com pseudônimo feminino. Quando a história terminou, o sucesso foi tão grande que foi lançado um livro pelas Edições O Cruzeiro. Calcula-se que a venda tenha ultrapassado a trezentos mil livros. Isso provocou o começo de outro folhetim, Escravas do amor, cujo sucesso foi também retumbante.
Em março de 1945 é atacado, novamente, pela tuberculose. O ano anterior havia sido ótimo: além do lançamento em livro do Vestido de noiva, ele via seu filho crescer com saúde e Elza esperava um novo filho. Resolveram ir todos para Campos de Jordão, inclusive a sogra, d. Concetta. Depois de uma semana viram que aquilo não fazia sentido e a família retornou. Em junho teve alta e, face à proximidade do parto de sua mulher, voltou correndo para o Rio. Nasceu, então, Nelsinho. Vale dizer que os Associados arcaram com todas as despesas de seu empregado no Sanatórinho.
Nos dois últimos meses de 1945 e nos dois primeiros meses de 1946 o grupo "Os Comediantes" encenou Vestido de noiva e A mulher sem pecado no Teatro Phoenix, com lotação esgotada. Começa a escrever, então, Álbum de família. Em fevereiro de 1946 o texto é submetido à censura federal e os censores ficam de cabelos em pé. A peça foi proibida de ser encenada. As opiniões se dividiam entre os intelectuais, os críticos e os jornalistas da época, uns a favor da liberação outros contra. Venceram os contra, pois a peça só foi liberada em 1965 e levada pela primeira vez em julho de 1967.
Outro sucesso de 1946 foi a publicação de Minha Vida, uma "autobiografia" de Suzana Flag. Como das vezes anteriores, além de publicada em O Jornal, virou livro e vendeu horrores.
Anjo negro, estréia em abril de 1948. Como sempre, gerou comentários polêmicos. Os ganhos com a peça permitiram que o autor comprasse uma casa no Andaraí, que teve parte financiada no IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários). Nelson tinha 36 anos e ficara livre do aluguel. Senhora dos afogados é proibida em janeiro de 1948. Com duas peças interditadas, o autor luta como um mouro para tentar liberá-las. Não conseguindo, escreve Dorotéia, em 1949, que muitos consideram seu melhor trabalho teatral.
Ainda em 1948 é publicado mais um folhetim, Núpcias de fogo, ainda como Suzana Flag.
Uma mulher chama a atenção do autor nas coxias do Teatro Phoenix, quando da encenação de Anjo negro: era Eleonor Bruno, conhecida como Nonoca, linda "mingnonne", tímida, recatada e soprano lírico, que estava ali para tomar conta de sua filha de apenas 13 anos, Nicete, que estreava como atriz. Embora nunca reclamasse, seu casamento não ia bem, e ele foi aceito por Nonoca e por toda sua família. Alugou um apartamento pequeno em Copacabana, em sociedade com o amigo Pompeu de Souza, para servir-lhes de "garçonnière", até que num dia de 1950 sua esposa Elza bateu na porta, fez um escândalo e ele voltou com o rabo entre as pernas para casa. Seu romance com Nonoca terminou ali.
Em 1949 Freddy Chateaubriand vai comandar o jornal "Diário da Noite" e leva Nelson consigo. Para trás fica Suzana Flag, que o autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu Myrna, a nova máscara feminina do biografado. A diferença é que Myrna respondia a cartas de leitoras.
Nelson escreveu a comédia Dorotéia para Nonoca. Foram duas as estréias como atrizes: de Nonoca e da irmã do autor, Dulcinha, aos 21 anos, no papel de Das Dores. Com medo de que a censura o atingisse novamente, o autor submeteu-lhe o texto como sendo um "original de Walter Paíno" — cunhado de Nonoca. A peça foi aprovada e estreou no dia 07 de março de 1950. Ao fim da apresentação, metade da platéia (onde estavam os convidados) aplaudiu e a outra saiu calada. Ficou 13 dias em  cartaz.
Em 1950 o autor dá adeus a Freddy Chateaubriand e aos "Diários Associados" e fica esperando convites de outros jornais. Ficou um ano esperando... Nesse período, salvam a família as economias de Elza e um "bico" no Jornal dos Sportes de seu irmão Mário Filho. No ano seguinte sai do buraco e vai para a Última Hora e "A vida como ela é...".  Começou com um salário de dez mil cruzeiros, considerado não tão ruim, tendo em vista seu baixíssimo prestígio naquela época.
Em junho Nelson estréia uma nova peça, "Valsa nº. 6", um monólogo estrelado por sua irmã Dulcinha. Ficou quatro meses em cartaz e foi outra desilusão para seu autor.
Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora tinha algo em comum com o biografado: a tuberculose. Propõe ao autor que escreva, com pagamento extra, uma coluna diária sobre um fato real. Poderia se chamar "Atire a primeira pedra". Nelson sugeriu "A vida como ela é..." e, sugestão aceita, foi para a máquina escrever a primeira coluna. O sucesso foi estrondoso. Em 1951 relançou Suzana Flag em "O homem proibido".
Um dia, na rua Agostinho Menezes, onde então Nelson morava, um marido banana que era chutado como um cão pela esposa e ainda a bajulava, cansou-se do tratamento que vinha recebendo e, no meio da rua, deu uma sova de cinto na cara-metade. É claro que a vizinhança correu para ver o fato, sendo que as mulheres gritavam: "Bate mais, bate mais". O marido bateu até se cansar, parou, e então o inesperado aconteceu: a mulher atirou-se aos seus pés, aos beijos. E, desde aquele dia, passou a desfilar com o ex-banana, de braço dado e nariz empinado, toda orgulhosa. Ao ouvir os comentários das vizinhas que tinham apoiado maciçamente a surra, Nelson concluiu: "Toda mulher gosta de apanhar".
Em 08 de junho de 1953 estréia no Teatro Municipal do Rio a peça "A falecida". Chamada de "tragédia carioca" era, na verdade, uma comédia. Foi escrita em 26 dias. Nessa época Nelson mantinha um romance com Yolanda, secretária de um radialista da rádio Mayrink Veiga. Esse caso durou cinco anos e rendeu três filhos: Maria Lúcia, Sônia e Paulo César, que ele não reconheceu como seus. Com tudo isso acontecendo, o autor produziu o último folhetim de "Suzana Flag", que chamou-se "A mentira" e foi publicado no semanário "Flan", lançado por S. Wainer.
Carlos Lacerda queria derrubar o presidente Getúlio e, para tanto, batia firme em Samuel Wainer e no jornal Última Hora. Nelson não escapava da pancadaria e era chamado de "tarado" por ele. Outro que também o atacava era o católico Gustavo Corção, da Tribuna da Imprensa.
"Senhora dos Afogados" é encenada no Rio, em 1954, com direção de Bibi Ferreira. A platéia, ao final, dividiu-se e uma parte gritava "GÊNIO" e a outra "TARADO". O autor não agüentou e reagiu à platéia, gritando do palco: "BURROS! BURROS!".
Em março de 1955 a família Rodrigues ganha uma ação contra o governo de indenização pela destruição do jornal "Crítica". Em 1956 recebem o equivalente a US$1.800.000,00. A parte que coube ao autor foi utilizada na compra de um apartamento em Teresópolis em nome dos filhos e de um carro para Elza. O que sobrou, investiu no teatro.
"Perdoa-me por me traíres" teve, também, problemas de liberação com a censura, em 1957 — sofreu cortes. Outra surpresa ocorreu na estréia: Nelson interpretava o personagem Raul. Mais uma vez as vaias e os que aplaudiam pediam para o autor falar. Ele não se fez de rogado: "BURROS! ZEBUS!". Ninguém esperava, mas aconteceu: um tiro! Na discussão entre prós e contras, o vereador Wilson Leite Passos sacou de seu revolver e deu um tiro para amedrontar alguém que o havia chamado de "palhaço". Tumulto geral. No dia seguinte a censura proibiria a peça.
"Viúva, porém honesta" estreou em 13 de setembro do mesmo ano. Dizem que nela o autor procurava atingir aos críticos que atacaram "Perdoa-me por me traíres". Um dos atores era Jece Valadão, cunhado do autor.
Dercy Gonçalves estréia "Dorotéia" em São Paulo. Ficou um mês em cartaz. Nelson não gostava dos "cacos" que a atriz introduzia no texto.
Em 1958 estréia "Os sete gatinhos", também com Jece Valadão no elenco. Apesar de malhar o presidente da República da época, Juscelino Kubitschek, Nelson vai até ele pedir um emprego. Consegue um cargo de tesoureiro em um instituto de aposentadoria e pensões (IAPETEC), mas é reprovado no exame de vista. Pede, então, a vaga para Elza. Juscelino queria agradar Mário Filho e a nomeia.
O autor teve sério problema de vesícula e, após a operação de alto risco, ficou três meses sem publicar sua coluna no jornal de Wainer. Sua coluna em "A Manchete Esportiva" deixa de ser publicada de novembro de 1958 a março de 1959.
De agosto de 1959 a fevereiro de 1960, centenas de milhares de leitores acompanharam a história de Engraçadinha e sua família em "Asfalto Selvagem". Foram publicados dois livros, intitulados "Engraçadinha — seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito" e "Engraçadinha — depois dos trinta".
O autor almoçava com sua mãe quase todo dia. Tomava o ônibus na Central do Brasil e ia até o Parque Guinle. Um dos motoristas gostava de exibir-se: tinha vinte e sete dentes na boca, mas eram todos de ouro. Nelson juntou esse fato ao bicheiro do submundo carioca, Arlindo Pimenta, e dai surgiu o "Boca de Ouro"
A peça, como todas as demais, teve problemas com a censura. Foi levada para estrear em São Paulo e foi um retumbante fracasso. Ziembinski insistiu em viver o papel principal e não deu certo. Em janeiro de 1961, com Milton Morais no papel do "Boca de Ouro", estréia no Rio com grande sucesso.
Ainda no final de 1960 o autor entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido Fernando Tôrres a peça "Beijo no asfalto". O espetáculo estava a um mês e meio em cartaz quando Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Ficou sete meses em cartaz, pelo Brasil. Ela provocou a saída de Nelson da "Ultima Hora", pois nela fazia referências pouco positivas à imagem do jornal. Voltou ao "Diário da Noite" com "A vida como ela é" e, após dez meses, em julho de 1962, foi para "O Globo", com a coluna de futebol, "À sombra das chuteiras imortais".
Apresentado por sua irmã Helena, Nelson conhece Lúcia Cruz Lima, que logo passa a ser sua namorada. Só que desta vez a coisa era séria. Casada e bem casada, mãe de três filhos, ela logo se apaixona, deixa o marido e volta a viver com os pais. Ele demora dois anos para se separar de Elza. Seus amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Cláudio Mello e Souza ficam chocados. Nos primeiros meses de 1963 nada impedia a separação do autor. Já havia alugado um pequeno apartamento e Lúcia estava grávida. Após um almoço de despedida, após o qual Elza tentou suicidar-se, ele partiu de malas e bagagens para o apartamento de sua mãe. Ia ficar lá uns tempos até acertar tudo.
Na marquise do Teatro Maison de France, no Rio, piscava o título da nova peça de Nelson: "Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária". Otto quase morreu de susto e ficou profundamente irritado. Ela ficou por cinco meses em cartaz. O autor só não se conformou de Otto não ter ido assistir ao espetáculo. Ele adorava essas brincadeiras e fez o mesmo com Fernando Sabino e com Cláudio Mello e Souza.
Lúcia deu um trato na aparência do escritor, já que ele participava desde 1960 do programa esportivo "Grande resenha Facit" na TV Rio, por obra e graça de Walter Clark, e era, portanto, um artista! Ela teve uma gravidez nada normal e um parto difícil. Daniela, a filha, nasceu com 1,5 quilo, e não conseguia respirar. Perdeu minutos de oxigenação no cérebro até que conseguissem fazer seus pulmões funcionarem.  Daniela passaria o primeiro ano de sua vida numa tenda de oxigênio, tinha má circulação nas pernas, chorava sem parar em virtude das dores que sentia. Devido à paralisia cerebral nunca conseguiu andar ou articular um movimento e era irreversivelmente cega.
Nelson escreveu para Walter Clark a primeira novela brasileira de todos os tempos: "A morte sem espelho". Apesar do grande elenco — Fernanda Montenegro, Fernando Tôrres, Sérgio Brito (que também respondida pela direção), Ítalo Rossi, Paulo Gracindo (que estreava na TV), música de Vinícius de Moraes — não foi autorizada a sua apresentação às oito e meia da noite. Foi empurrada para o horário das vinte e três e trinta. Walter Clark apelou, sem sucesso, até para D. Helder Câmara. Conseguiu, finalmente, autorização para o horário das dez horas, que não compensava financeiramente. Nelson foi convidado a encerrá-la rapidamente.
Ficou claro nesse episódio que o problema era o nome do autor. Na sua novela seguinte, "Sonho de Amor", em 1964, seu nome apareceu mas ela foi anunciada como 'uma adaptação de "O Tronco do Ipê"', de José de Alencar". Sua última novela para a TV foi "O Desconhecido", com direção de Fernando Tôrres e Jece Valadão, Nathalia Timberg, Carlos Alberto, Joana Fomm e outros mais, que só foi liberada graças ao poder de convencimento de Walter Clark.
Depois de ser renegada por muitas atrizes, "Toda nudez será castigada" estréia no dia 21 de junho de 1965 e é um sucesso. Os artistas são aplaudidos em cena aberta, os ingressos são avidamente disputados e  fica em cartaz por seis meses no Teatro Serrador e em excursão pelo Brasil. Após três anos de apresentações no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador, a peça é proibida em Natal - RN.
Em 1966 o autor muda-se, a convite de Walter Clark, para a TV Globo. Em situação financeira apertada — como sempre — aceitou até aparecer como "tradutor" dos romances de Harold Robins, publicados pela Editora Guanabara. Foi uma forma de receber mais algum dinheiro. A TV Globo era a "lanterna" na preferência dos telespectadores naquela época. No programa "Noite de gala" o autor apresentava o quadro "A cabra vadia", onde entrevistava pessoas. O primeiro foi João Havelange, presidente da CBD - Confederação Brasileira de Desportos.
Nessa época é chamado por Carlos Lacerda, ocasião em que é informado da criação da Editora Nova Fronteira. Lacerda, que o malhou por tanto tempo, pediu-lhe um romance e deu-lhe um cheque de dois milhões de cruzeiros. Era algo em torno de novecentos dólares, mas para quem estava pendurado, foi ótimo. Ele escreveu "O Casamento".  Quando Lacerda leu o livro, ficou assustadíssimo  Era um carnaval de incestos e perversões às vésperas de um casamento. Vendeu-o para Alfredo Machado, da Editora Eldorado. O livro vendeu 8.000 exemplares nas primeiras duas semanas de setembro de 1966, empatando com as vendas do novo romance de Jorge Amado, "Dona Flor e seus dois maridos". A morte de seu irmão, Mário Filho, impediu por algum tempo que ele fizesse a divulgação da obra. Quando reanimou, o livro teve sua venda proibida pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros Silva. Sua venda foi liberada novamente em fevereiro de 1967.
Indignado com o apoio dado pelo jornal "O Globo" à proibição da venda de seu romance, Nelson começa a estudar sua mudança para o "Correio da Manhã". Avisa que não pode deixar a TV Globo e, para sua alegria, é informado que não precisaria deixar nem o jornal "O Globo". O que o "Correio" queria dele eram as suas "Memórias". A estréia ocorreu em 18 de fevereiro de 1967 em grande estilo. Fez um sucesso enorme.
Paulinho Rodrigues, irmão do autor, morava com a família num prédio em Laranjeiras. Chovia a cântaros, dias antes,  e Nelson disse a Cláudio Mello e Souza no Maracanã, assistindo o time do Santos ganhar do Milan: "Esse é um mau tempo de quinto ato do "Rigoletto'". Cláudio sabia que o "Rigoletto" não tinha quinto ato e que acabava no terceiro ato, como a maioria das óperas. Mas entendeu o que o autor queria dizer. No dia 21 de fevereiro de 1967 o prédio onde seu irmão morava desabou devido às chuvas. Morreram Paulinho, a esposa, filhos e mais alguns parentes que lá se encontravam para festejar o aniversário da cunhada do escritor. Em dezembro desse mesmo ano a viúva de seu irmão Mário se suicida.
Raphael de Almeida Magalhães, que já atuara como advogado de Nelson, é eleito governador do Estado da Guanabara. A pedido de Otto, e por insistência do biografado, finalmente libera "Álbum de Família", que estava interditada desde 1946. Só em julho de 1967 foi levada à cena e, apesar do carrossel de incestos, foi aplaudida no final. Já não tinha o impacto de tempos atrás.
Ele volta ao jornal "O Globo" passa a publicar "À sombra das chuteiras imortais" e "As confissões" (já que não podia usar "Memórias"), cada uma patrocinada por um banco. Como recebia uma comissão por esses patrocínios (mais que o dobro de seu salário), estabilizou sua situação financeira. A primeira "Confissão" foi publicada em 04 de dezembro de 1967.
Uma de suas manias era implicar com os pessoas conhecidas e com amigos. Era do seu estilo alimentar-se periodicamente de certas obsessões. Como dizia Cláudio Mello e Souza, Nelson era a "flor de obsessão". Ora Otto, ora Alceu de Amoroso Lima, ora D. Helder, ora Hélio Pellegrino, ora Cláudio Mello e Souza e quem mais estivesse por perto.
1970 marca o início dos anos duros da ditadura militar no Brasil. Nelson, conhecido e admirado pelos militares, luta para tirar da prisão Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Com mais de 57 anos, ele se sentia desgastado, sem espaço — seu apartamento vivia lotado de enfermeiras por causa de sua filha, enfim, era chegada a hora de se separar de Lúcia, o que ocorreu sem traumas.
Logo em seguida vai morar com Helena Maria, que era 35 anos mais nova que ele, e que trabalhava com ele no jornal. Em 1972 começa nova luta: seu filho, Nelsinho é um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. "Prancha" (seu codinome) foi apanhado em 30 de março de 1972. Dois anos antes, quando seu filho já vivia na clandestinidade, Nelson consegue com o presidente da República, Gal. Medici, que ele saísse do país. Nelsinho não aceita o privilégio. O drama de Nelsinho se desenrolava longe dos olhos do autor. Apesar disso, face a seu prestígio e contatos com os militares, era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização, libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos. Após a prisão de Nelsinho, começa a luta para localizá-lo e procurar mantê-lo vivo, pois a tortura corria solta.
Nelson escreve "Anti-Nelson Rodrigues" no final de 1973. Em 1974, a peça fazia bela carreira no teatro do Serviço Nacional do Teatro. O autor faz alguns exames e é levado de imediato para São Paulo para ser operado de um aneurisma da aorta. Passou por duas operações, quase morreu, retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 é internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza volta para casa e voltam a viver juntos. Na verdade, já se encontravam há tempos quase todas as noites no restaurante "O bigode do meu tio", em Vila Isabel, de propriedade de Joffre.
O autor escreveu sua grande e última peça — "A Serpente" — em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar greve de fome com treze companheiros, os últimos presos políticos cariocas, com a finalidade de transformar a anistia ampla em anistia total e irrestrita. Finalmente, no dia 23 de agosto, dia do aniversário do autor, Nelsinho é autorizado a deixar a prisão e assistir ao nascimento da filha Cristiana. No dia 16 de outubro Nelsinho recebeu a liberdade condicional mas não pode ver seu pai: estava inconsciente no hospital Pró-Cardiaco.
Nelson Rodrigues faleceu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo. No fim da tarde daquele dia ele faria treze pontos na loteria esportiva, num "bolo" com seu irmão Augusto e alguns amigos de "O Globo". Dois meses depois, Elza cumpriu o seu pedido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. É só".
Livros:
Romances:
- Meu destino é pecar,"O Jornal" - 1944 / "Edições O Cruzeiro" - 1944 (como "Suzana Flag")

- Escravas do amor, "O Jornal" - 1944 / "Edições O Cruzeiro" - 1946 (como "Suzana Flag")

- Minha vida, "O Jornal" - 1946 / "Edições O Cruzeiro" - 1946 (como "Suzana Flag")

- Núpcias de fogo, "O Jornal" - 1948. Inédito em livro. (como "Suzana Flag")

- A mulher que amou demais, "Diário da Noite" - 1949. Inédito em livro. (Como Myrna)

- O homem proibido, "Última Hora" - 1951.  "Editora Nova Fronteira", Rio, 1981 (como Suzana Flag).

- A mentira, "Flan" - 1953. Inédito em livro. (Como Suzana Flag).

- Asfalto selvagem, "Ultima Hora" - 1959-60. J.Ozon Editor, Rio, 1960. Dois volumes. (Como Nelson Rodrigues)

- O casamento, Editora Guanabara, Rio, 1966 (como Nelson Rodrigues).

- Asfalto selvagem - Engraçadinha: seus amores e pecados, "Companhia das Letras", São Paulo.

- Núpcias de fogo, "Companhia das Letras", São Paulo. (como Suzana Flag).
Contos:
- Cem contos escolhidos - A vida como ela é..., J. Ozon Editor, Rio, 1961. Dois volumes.

- Elas gostam de apanhar, "Bloch Editores", Rio, 1974.

- A vida como ela é — O homem fiel e outros contos, "Companhia das Letras", São Paulo, 1992. Seleção: Ruy Castro.

- A dama do lotação e outros contos e crônicas, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A coroa de orquídeas, "Companhia das Letras", São Paulo.
Crônicas:
- Memórias de Nelson Rodrigues, "Correio da Manhã" / "Edições Correio da Manhã", Rio, 1967.

- O óbvio ululante, "O Globo" / "Editora Eldorado", Rio, 1968.

- A cabra vadia, "O Globo" / "Editora Eldorado", Rio, 1970.

- O reacionário, "Correio da Manhã" e "O Globo" / "Editora Record", Rio, 1977.

- O óbvio ululante — Primeiras confissões, "Companhia das Letras", São Paulo, 1993. Seleção: Ruy Castro. 

- O remador de Ben-Hur - Confissões culturais, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A cabra vadia - Novas confissões, "Companhia das Letras", São Paulo.

- O reacionário - Memórias e Confissões, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A pátria sem chuteiras - Novas crônicas de futebol, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A menina sem estrela - Memórias, "Companhia das Letras", São Paulo.

- À sombra das chuteiras imortais - Crônicas de Futebol, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A mulher do próximo, "Companhia das Letras", São Paulo.
FRASES:
- Flor de obsessão: as 1000 melhores frases de Nelson Rodrigues, "Companhia das Letras", São Paulo, 1997, seleção e organização: Ruy Castro.
Teatro:
- Teatro completo, "Editora Nova Fronteira", Rio, 1981-89. Quatro volumes. Organização e prefácios de Sábato Magaldi.
Peças:
- A mulher sem pecado, 1941 - Direção Rodolfo Mayer

- Vestido de noiva, 1943 - Direção: Ziembinski

- Álbum de família, 1946 - Direção: Kleber Santos

- Anjo negro, 1947 - Direção: Ziembinski 

- Senhora dos afogados, 1947 - Direção: Bibi Ferreira

- Dorotéia, 1949 - Direção: Ziembinski

- Valsa nº.6, 1951 - Direção: Henriette Morineau

- A falecida, 1953 - Direção: José Maria Monteiro

- Perdoa-me por me traíres, 1957 - Direção: Léo Júsi.

- Viúva, porém honesta, 1957 - Direção: Willy Keller

- Os sete gatinhos, 1958 - Direção: Willy Keller

- Boca de Ouro, 1959 - Direção: José Renato.

- Beijo no asfalto, 1960 - Direção: Fernando Tôrres.

- Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, 1962 - Direção Martim Gonçalves.

- Toda nudez será castigada, 1965 - Direção: Ziembinski

- Anti-Nelson Rodrigues, 1973 - Direção: Paulo César Pereio

- A serpente, 1978 - Direção: Marcos Flaksman
Obs.- as peças de Nelson Rodrigues vêm sendo encenadas por diversas companhias teatrais em todo o Brasil até esta data. 
Novelas de TV:
- A morta no espelho, TV Rio, 1963
- Sonho de amor, TV Rio, 1964
- O desconhecido, TV Rio, 1964
FILMES:
- Somos dois, 1950
- Meu destino é pecar, 1952
- Mulheres e milhões, 1961
- Boca de Ouro, 1962
- Meu nome é Pelé, 1963
- Bonitinha, mas ordinária, 1963
- Asfalto selvagem, 1964
- A falecida, 1965
- O beijo, 1966
- Engraçadinha depois dos trinta, 1966
- Toda nudez será castigada, 1973
- O casamento, 1975
- A dama do lotação, 1978
- Os sete gatinhos, 1980
- O beijo no asfalto, 1980
- Bonitinha, mas ordinária, 1980
- Álbum de família, 1981
- Engraçadinha, 1981
- Perdoa-me por me traíres, 1983
- Boca de Ouro, 1990.
Sobre o Autor:
- O teatro de Nelson Rodrigues: uma realidade em agonia, Ronaldo Lima Lins, Editora Francisco Alves/MEC, Rio, 1979.

- O teatro brasileiro moderno, Décio de Almeida Prado, Editora Perspectiva/USP, São Paulo, 1988.

- Nelson Rodrigues - Dramaturgia e Encenações, Sabato Magaldi, Editora Perspectiva/USP, São Paulo, 1987.

- Nelson Rodrigues - Expressionista, Eudinir Fraga, Ed. Atelier, S.Paulo.

- Nelson Rodrigues, meu irmão, Stella Rodrigues, José Olympio Editora, Rio, 1986.

- Nelson Rodrigues: Flor de Obsessão, Carlos Vogt e Berta Waldman, Editora Brasiliense, São Paulo, 1985.

- Amor em segredo - As histórias infiéis que vivi com meu pai, Nelson Rodrigues, Sônia Rodrigues, Editora Agir, Rio de Janeiro, 2005.

Os dados acima foram extraídos de sites na internet, livros do autor e, em especial, do livro "Anjo Pornográfico", escrito por Ruy Castro para a Companhia das Letras, São Paulo, 1992, cuja leitura recomendamos.


domingo, 11 de novembro de 2012

Poema: Ultima Folha: Fernando Pessoa.



Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.
Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.
Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.
Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.
Então coroarás a ingênua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!
Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;
Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;
E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;
Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza
A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

sábado, 3 de novembro de 2012

Poema: Fui, sou ou serei.


Sendo o que sou
Diante do que me poderia ser
Mas não sendo.

E ao mesmo tempo sendo o que fui
Mas que talvez não pudesse ter sido.

Traz-me o desejo de saber
O que seria se eu não fosse.

Assim sendo, serei sempre o que fui o Que sou e o que poderei ser.
Com a certeza do ontem, o viver do hoje e a possibilidade do amanhã.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Machado de Assis, poema: Erro.

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Não foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que, — como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro... Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...

Fonte: www.dominiopublico.com.br


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Poema:Navegar no mar de verdades.



Navegar no mar de pensamentos
Fluir nos ventos,
No mar que não se vê
Que não se perde
Que não se morre
Que não se move
Um mar de alegria e de felicidade.

Um dia para a saudade
Um mar de ventos leves
Um mar de tristezas de ventos
Que roça nas mesas
De um mar revolto de ventos cortantes
Amores errantes.

Que tristeza é estar num mar de maldade sem felicidade
Num mar de saudade, mas com vontade
De estar de verdade num mar de solidão.
Mas poder pegar tua mão e rolar no chão

Num mar de paixão.
Flutuar no mar de verdades
E sem maldade ou razão de finalmente voltar ao chão.
Chão que demora ou mesmo devora uma paixão de outrora.

Navegar de verdade, mas com saudade
De um mar de amizade
Navegar talvez num mar de saudade
Ou mesmo a verdade seria

Navegar todo dia
Nas ondas deste corpo quente

Neste mar de serpente
Que nem mesmo a gente sente.
Navegar num mar de outrora
Que nem mesmo agora seria
Igual navegar no céu
Neste leito de mel.

Navegar neste corpo suado
Até ficar cansado de te ver
Murmurar, ou talvez navegar novamente
Mesmo somente para te saciar de ternura nesta margem Escura de paixão.

Navegar sem morrer
Pra viver intensamente
Esta grande loucura.
Navegar nos teus seios
Ou talvez em outros meios
Sem nenhum pudor.

Saciar nos teus beijos
Um grande desejo de te navegar
Todo dia, como uma poesia
Que não vai terminar.
Ou talvez navegar outra vez
Nos teus pensamentos intensos,
Ou lentos.

Seria cruel provar do fel
Da solidão que devora
Mesmo sem demora e
Quem sabe navegar
Nos teus sonhos com desejos estranhos
E finalmente navegar a gente.

Este amor ardente ou quem sabe talvez
Navegar nos desejos de outrora.
Que assim nos devora
Mesmo sem demora
E nos faz transpirar de paixão.

Rolar na lama
Como se fosse a mais bela cama,
E assim esperar em poder navegar
Neste mar de verdades
Seria maldade não te navegar.

Fonte: "O Grito da Alma" Poesias e pensamentos" D'Araujo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Traduções; Fernando Pessoa: Annabel Lee.

Annabel Lee:

(de Edgar Allan Poe).

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor -
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Fonte: www.dominiopublico.com.br

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Machado de Assis: Conto:O CASO DA VARA.

O CASO DA VARA:


Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto.
Não sei bem o ano; foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado;
não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele
seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e
desandava; finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não; lá estava o pai que
o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de
refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância
fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o
padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele
que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
— Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
— Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também
humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos
agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu
de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De
repente, exclamou:
— Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que
quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas idéias
vagas dessa situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão
atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do
Capim.
— Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na
marquesa, onde estava reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar
um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a
chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não
deu por ele e ia andando.
— Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o
conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia
explicar tudo.
— Descanse; e explique-se.
— Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro; mas espere.
Sinhá Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de casa, e de fora, que
estavam sentadas em volta da sala, diante das suas almofadas de renda, todas
fizeram parar os bilros e as mãos. Sinhá Rita vivia principalmente de ensinar a
fazer renda, crivo e bordado. Enquanto o rapaz tomava fôlego, ordenou às
pequenas que trabalhassem, e esperou. Afinal, Damião contou tudo, o desgosto
que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou
com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
— Como assim? Não posso nada.
— Pode, querendo.
— Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em negócios de sua família,
que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é zangado!
Damião viu-se perdido. Ajoelhou-se-lhe aos pés, beijou-lhe as mãos, desesperado.
— Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver
de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu matome,
se voltar para aquela casa.
Sinhá Rita, lisonjeada com as súplicas do moço, tentou chamá-lo a outros
sentimentos. A vida de padre era santa e bonita, disse-lhe ela; o tempo lhe
mostraria que era melhor vencer as repugnâncias e um dia... Não, nada, nunca!
redargüia Damião, abanando a cabeça e beijando-lhe as mãos; e repetia que era a
sua morte. Sinhá Rita hesitou ainda muito tempo; afinal perguntou-lhe por que
não ia ter com o padrinho.
— Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me atende, duvido que atenda
a ninguém...
— Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se
atende ou não...
Chamou um moleque e bradou-lhe que fosse à casa do Sr. João Carneiro chamálo,
já e já; e se não estivesse em casa, perguntasse onde podia ser encontrado, e
corresse a dizer-lhe que precisava muito de lhe falar imediatamente.
— Anda, moleque.
Damião suspirou alto e triste. Ela, para mascarar a autoridade com que dera
aquelas ordens, explicou ao moço que o Sr. João Carneiro fora amigo do marido e
arranjara-lhe algumas crias para ensinar. Depois, como ele continuasse triste,
encostado a um portal, puxou-lhe o nariz, rindo:
— Ande lá, seu padreco, descanse que tudo se há de arranjar.
Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos.
Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como
diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situação, não lhe custou muito. Dentro
de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas, e pedia-lhe outras, que ele
referia com singular graça. Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez rir a
uma das crias de Sinhá Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o
moço. Sinhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçoua:
— Lucrécia, olha a vara!
A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma
advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o
castigo do costume. Damião olhou para a pequena; era uma negrinha, magricela,
um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão
esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas para dentro,
surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da negrinha, e
resolveu apadrinhá-la, se não acabasse a tarefa. Sinhá Rita não lhe negaria o
perdão... Demais, ela rira por achar-lhe graça; a culpa era sua, se há culpa em ter
chiste.
Nisto, chegou João Carneiro. Empalideceu quando viu ali o afilhado, e olhou para
Sinhá Rita, que não gastou tempo com preâmbulos. Disse-lhe que era preciso tirar
o moço do seminário, que ele não tinha vocação para a vida eclesiástica, e antes
um padre de menos que um padre ruim. Cá fora também se podia amar e servir a
Nosso Senhor. João Carneiro, assombrado, não achou que replicar durante os
primeiros minutos; afinal, abriu a boca e repreendeu o afilhado por ter vindo
incomodar "pessoas estranhas", e em seguida afirmou que o castigaria.
— Qual castigar, qual nada! interrompeu Sinhá Rita. Castigar por quê? Vá, vá falar
a seu compadre.
— Não afianço nada, não creio que seja possível...
— Há de ser possível, afianço eu. Se o senhor quiser, continuou ela com certo tom
insinuativo, tudo se há de arranjar. Peça-lhe muito, que ele cede. Ande, Senhor
João Carneiro, seu afilhado não volta para o seminário; digo-lhe que não volta...
— Mas, minha senhora...
— Vá, vá.
João Carneiro não se animava a sair, nem podia ficar. Estava entre um puxar de
forças opostas. Não lhe importava, em suma, que o rapaz acabasse clérigo,
advogado ou médico, ou outra qualquer coisa, vadio que fosse; mas o pior é que
lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais íntimos do compadre,
sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra luta com Sinhá Rita,
cuja última palavra era ameaçadora: "digo-lhe que ele não volta". Tinha de haver
por força um escândalo. João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra
trêmula, o peito ofegante. Os olhares que deitava a Sinhá Rita eram de súplica,
mesclados de um tênue raio de censura. Por que lhe não pedia outra coisa? Por
que lhe não ordenava que fosse a pé, debaixo de chuva, à Tijuca, ou Jacarepaguá?
Mas logo persuadir ao compadre que mudasse a carreira do filho... Conhecia o
velho; era capaz de lhe quebrar uma jarra na cara. Ah! se o rapaz caísse ali, de
repente, apoplético, morto! Era uma solução — cruel, é certo, mas definitiva.
— Então? insistiu Sinhá Rita.
Ele fez-lhe um gesto de mão que esperasse. Coçava a barba, procurando um
recurso. Deus do céu! um decreto do papa dissolvendo a Igreja, ou, pelo menos,
extinguindo os seminários, faria acabar tudo em bem. João Carneiro voltaria para
casa e ia jogar os três-setes. Imaginai que o barbeiro de Napoleão era
encarregado de comandar a batalha de Austerlitz... Mas a Igreja continuava, os
seminários continuavam, o afilhado continuava cosido à parede, olhos baixos,
esperando, sem solução apoplética.
— Vá, vá, disse Sinhá Rita dando-lhe o chapéu e a bengala.
Não teve remédio. O barbeiro meteu a navalha no estojo, travou da espada e saiu
à campanha. Damião respirou; exteriormente deixou-se estar na mesma, olhos
fincados no chão, acabrunhado. Sinhá Rita puxou-lhe desta vez o queixo.
— Ande jantar, deixe-se de melancolias.
— A senhora crê que ele alcance alguma coisa?
— Há de alcançar tudo, redargüiu Sinhá Rita cheia de si. Ande, que a sopa está
esfriando.
Apesar do gênio galhofeiro de Sinhá Rita e do seu próprio espírito leve, Damião
esteve menos alegre ao jantar que na primeira parte do dia. Não fiava do caráter
mole do padrinho. Contudo, jantou bem; e, para o fim, voltou às pilhérias da
manhã. À sobremesa, ouviu um rumor de gente na sala, e perguntou se o vinham
prender.
— Hão de ser as moças.
Levantaram-se e passaram à sala. As moças eram cinco vizinhas que iam todas as
tardes tomar café com Sinhá Rita, e ali ficavam até o cair da noite.
As discípulas, findo o jantar delas, tornaram às almofadas do trabalho. Sinhá Rita
presidia a todo esse mulherio de casa e de fora. O sussurro dos bilros e o
palavrear das moças eram ecos tão mundanos, tão alheios à teologia e ao latim,
que o rapaz deixou-se ir por eles e esqueceu o resto. Durante os primeiros
minutos, ainda houve da parte das vizinhas certo acanhamento, mas passou
depressa. Uma delas cantou uma modinha, ao som da guitarra, tangida por Sinhá
Rita, e a tarde foi passando depressa. Antes do fim, Sinhá Rita pediu a Damião
que contasse certa anedota que lhe agradara muito. Era a tal que fizera rir
Lucrécia.
— Ande, senhor Damião, não se faça de rogado, que as moças querem ir embora.
Vocês vão gostar muito.
Damião não teve remédio senão obedecer. Malgrado o anúncio e a expectação,
que serviam a diminuir o chiste e o efeito, a anedota acabou entre risadas das
moças. Damião, contente de si, não esqueceu Lucrécia e olhou para ela, a ver se
rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada para acabar a tarefa. Não
ria; ou teria rido para dentro, como tossia.
Saíram as vizinhas, e a tarde caiu de todo. A alma de Damião foi-se fazendo
tenebrosa, antes da noite. Que estaria acontecendo? De instante a instante, ia
espiar pela rótula, e voltava cada vez mais desanimado. Nem sombra do padrinho.
Com certeza, o pai fê-lo calar, mandou chamar dois negros, foi à polícia pedir um
pedestre, e aí vinha pegá-lo à força e levá-lo ao seminário. Damião perguntou a
Sinhá Rita se a casa não teria saída pelos fundos; correu ao quintal, e calculou que
podia saltar o muro. Quis ainda saber se haveria modo de fugir para a Rua da
Vala, ou se era melhor falar a algum vizinho que fizesse o favor de o receber. O
pior era a batina; se Sinhá Rita lhe pudesse arranjar um rodaque, uma
sobrecasaca velha... Sinhá Rita dispunha justamente de um rodaque, lembrança
ou esquecimento de João Carneiro.
— Tenho um rodaque do meu defunto, disse ela, rindo; mas para que está com
esses sustos? Tudo se há de arranjar, descanse.
Afinal, à boca da noite, apareceu um escravo do padrinho, com uma carta para
Sinhá Rita. O negócio ainda não estava composto; o pai ficou furioso e quis
quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o peralta havia de ir para o seminário,
ou então metia-o no Aljube ou na presiganga. João Carneiro lutou muito para
conseguir que o compadre não resolvesse logo, que dormisse a noite, e meditasse
bem se era conveniente dar à religião um sujeito tão rebelde e vicioso. Explicava
na carta que falou assim para melhor ganhar a causa. Não a tinha por ganha; mas
no dia seguinte lá iria ver o homem, e teimar de novo. Concluía dizendo que o
moço fosse para a casa dele.
Damião acabou de ler a carta e olhou para Sinhá Rita. Não tenho outra tábua de
salvação, pensou ele. Sinhá Rita mandou vir um tinteiro de chifre, e na meia folha
da própria carta escreveu esta resposta: "Joãozinho, ou você salva o moço, ou
nunca mais nos vemos". Fechou a carta com obreia, e deu-a ao escravo, para que
a levasse depressa. Voltou a reanimar o seminarista, que estava outra vez no
capuz da humildade e da consternação. Disse-lhe que sossegasse, que aquele
negócio era agora dela.
— Hão de ver para quanto presto! Não, que eu não sou de brincadeiras!
Era a hora de recolher os trabalhos. Sinhá Rita examinou-os; todas as discípulas
tinham concluído a tarefa. Só Lucrécia estava ainda à almofada, meneando os
bilros, já sem ver; Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava
acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.
— Ah! malandra!
— Nhanhã, nhanhã! pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que está no céu.
— Malandra! Nossa Senhora não protege vadias!
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a
senhora foi atrás e agarrou-a.
— Anda cá!
— Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha.
— Não perdôo, não. Onde está a vara?
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, chorando e
pedindo; a outra dizendo que não, que a havia de castigar.
— Onde está a vara?
A vara estava à cabeceira da marquesa, do outro lado da sala. Sinhá Rita, não
querendo soltar a pequena, bradou ao seminarista.
— Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio... Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe pelos olhos. Sim, tinha
jurado apadrinhar a pequena, que por causa dele, atrasara o trabalho...
— Dê-me a vara, Sr. Damião!
Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A negrinha pediu-lhe então
por tudo o que houvesse mais sagrado, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor...
— Me acuda, meu sinhô moço!
Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem
largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se
compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa,
pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Poema: Luta.

Luta:


Da ilusão nasce à possibilidade
Da possibilidade nasce o sonho
Do sonho nasce à esperança
Da esperança nasce à luta
Da luta nasce o fato.

sábado, 15 de setembro de 2012

Navegar é Preciso: Fernando Pessoa.



Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,ainda que para isso tenha de
ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

sábado, 25 de agosto de 2012

Poema:Inverso.



Alma clara, alma nua,
Nua e crua feita à alma tua.
Com um tempo que construa
O inverso da rua que continua a levar
As magoas tuas.



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Poema: Perfume.




Com mãos atadas
Em cordas de sentimentos e dores que não cessam
Perco toda minha pressa.
Visto a minha capa de virtudes duvidosas.

E o frescor do perfume nobre que exala
Destas divinas almas
Em tardes que embalam
Meus sonhos e desejos mais profundos.