domingo, 24 de abril de 2022

Dante Alighieri: A Divina Comédia:



“Morte ou dor força ao próximo confere. Com ruína,
com fogo os bens lhe invade. 36 Quando pela extorsão não se apodere.
“Homicidas, os que usam feridade, Ladrões, desvastadores, torturados
39 Stão no primeiro, em turmas, sem piedade.
“Homens há contra si cruéis, irados
Ou contra os próprios bens: pois no segundo
42 Recinto jazem sempre amargurados,
“Quem se privara do terreno mundo, Os que seus cabedais malbarataram,
45 Quem chora onde pudera estar jucundo.
“Contra Deus violências homens preparam, Se o negam, se o blasfemam, desdenhando 
48 Natura e os dons, que nela se deparam.
“No recinto menor sinal nefando Caors marca igualmente com Sodoma,
51 E os que pecaram contra Deus falando.
“A fraude em que o remorso tanto assoma, Ou trai a confiança ou premedita
54 Danos a quem desprevenido toma. “A fraude desta espécie se exercita
Contra os laços de amor, que faz natura:
57 Portanto no segundo círc'lo habita
“Adulação com simonia impura, Hipócritas, falsários, feiticeiros,
60 Rufiães e outros dessa laia escura.

Crônicas de Segunda na Usina: Aidan Dantas: VISITA DOMICILIAR – V :




A casa se localizava numa área bem carente e de extrema po- breza. Quando cheguei à sala, crianças menores de três anos dormiam em colchonetes, dividindo com cachorros vira-latas.
Comecei a investigar sobre higiene, alimentação, trata- mento da água e destinação do lixo doméstico. Aí começaram as situações à margem do que prega a educação sanitária.A bacia que lavava toda louça, de adultos e crianças, era a mesma que lavava toda roupa suja, inclusive estava de molho roupas íntimas “daqueles dias”. Quando eu questionei, ela disse: é a única que tenho.
A louça suja se acumulava com muito resto de comida, formigas e até baratas. Mas, o que mais me chamou atenção: uma mamadeira de leite com um bico muito aberto, lotada de moscas.
Saí dessa residência com a ideia fixa de fazer uma campanha na Unidade de Saúde de doações de vários utensílios, e a equipe um trabalho ostensivo de vigilância e orientações.
Praticamente, o agente de saúde ia nessa residência diariamente, o que reduziu a quantidade de vezes que as crian- ças apresentavam dermatites variadas e diarreias.
Pode???

Crônicas de Segunda na Usina: Erça de Queiroz: XIV Londres, 28 de Março [de 1878]:



Lord Derby, e com ele toda a Inglaterra, acaba de fazer uma descoberta imensa: Lord Derby descobriu a Grécia. Desde a renovação da questão do Oriente, há dois anos, a Grécia, por um

acordo tácito das potências, e com grande alegria da Rússia, tinha sido mantida numa imobilidade obrigatória, nos últimos planos, sem que ninguém parecesse reconhecer a justiça dos seus direitos, ou pensar na utilidade da sua intervenção. Todas as províncias sujeitas à Porta e todos os estados tributários tinham sido autorizados ou chamados a cooperar, pela insurreição ou pela guerra aberta, na destruição do poder otomano. A Rússia tinha ajudado a Sérvia, animado e lisonjeado o Montenegro, e especialmente apelado para a România: todos estes principados cristãos deviam naturalmente, em justificação do seu patriotismo e em demonstração da sua fé, ajudar a grande cruzada da libertação dos cristãos empreendida pelo czar. Acontece, porém, que a Grécia tinha províncias suas, pela religião e pela raça, sob o domínio turco, e ninguém parecia desejar que ela tentasse pelos seus correligionários o que estavam tentando os principados. E todavia o Epiro, a Tessália, a Macedónia, são províncias gregas e cristãs, que a Porta explora e tiraniza, como a Bulgária ou como a Bósnia. Para libertar as suas populações, em idênticas condições, a Sérvia, o Montenegro, a România, tinham tomado as armas com admiração da Europa, e apenas alguns vagos protestos platónicos rosnados em surdina pela Áustria. Mas apenas a Grécia mostrou um desejo de libertar as suas províncias os protestos vieram de todas as partes, muito precisos, muito impacientes: a Rússia ficou indignada, a Áustria descontente, a Inglaterra nervosa. Às primeiras veleidades belicosas do ministério de Atenas todos os representantes das potências, com uma rara uniformidade, correram a impor-lhe uma inacção forçada. Quando o Governo grego, arrastado pela pressão iniludível do sentimento popular, fez mobilizar o pequeno exército grego, as grandes potências ameaçaram-na claramente de a deixar exposta as vinganças da Porta, e de não impedir o bombardeamento do Pireu pela esquadra de Hobbart Paxá. Quando num momento de impulso patriótico o Governo grego, indiferente às advertências da Europa, ou não as julgando sinceras e apenas pró-forma, fez avançar tropas na Tessália, as potências obrigaram-na, quase sob pressão de um ultimato, a fazer retroceder o exército e dar explicações ao sultão. A Grécia roeu o seu freio e limitou-se a manter na Tessália e no Epiro uma pequena insurreição inflama-tória, para não deixar morrer o fogo patriótico e para dar ocupação aos temperamentos mais exaltados. Mal sabia a Grécia, tão descontente então, que estava nas vésperas de ser chamada pela Inglaterra a representar um grande papel na questão do Oriente; ou, se o sabia, com a sua finura habitual esperava, fazendo um rosto triste que iludiu os mais astutos, a ocorrência gloriosa. Ela não tardou a aparecer sob a forma da proposta de Lord Derby na sua grande campanha diplomática. Opor ao pan-eslavismo o helenismo é sem dúvida um belo pensamento, e a oposição impaciente e quase rancorosa que a Rússia fez à proposta inglesa mostra, só por si, como ela julgou a grande obra eslava profundamente ameaçada pela aparição em cena deste novo factor, a Grécia. Lord Derby jogou uma brilhante carta: fazer entrar a Grécia no congresso, mesmo sem voto, era ipso facto levantar no congresso a questão grega: a Rússia, mesmo a seu pesar, não poderia opor-se a que a sua obra de libertação fosse completada, restituindo-se à Grécia a Macedónia, a Tessália e o Epiro, Creta, etc. Quem se bateu para libertar os cristãos da Bulgária não pode opor-se a que se libertem os cristãos das outras províncias. Com estes novos territórios, tão férteis, a Grécia ganha uma força inesperada e torna-se uma potência forte. Os cristãos do ex-Império Turco vêem-se assim colocados entre a influência de dois países da sua religião: mas um, a Rússia, despótico e opressivo – outro, a Grécia, constitucional e liberal; um puramente militar, outro exclusivamente comercial; um pensando em conquistar, o outro em enriquecer. E naturalmente as simpatias dos cristãos irão para a Grécia; esta anexação moral de simpatias transformar-se-á mais tarde em anexação material de territórios. A Bulgária cristã do rito grego penderia fatalmente para a Grécia. Que daqui a anos reapareça a questão do Oriente sob a forma mais resumida e mais directa de saber a quem em definitivo deve pertencer Constantinopla – e apresenta-se uma solução natural, pacifica, que é não deixar Constantinopla nem aos Russos nem aos Ingleses, e dá-la simplesmente aos Gregos, seus donos por direito histórico. E aqui temos um forte império helénico, fazendo barreira as tendências invasoras do império eslavo. Esta solução não poderia levantar oposição no povo russo, porque o seu interesse na questão do Oriente é todo de religião. E que maior satisfação que ver os gregos em Constantinopla e

Santa Sofia catedral do rito grego? O povo na Rússia não é pan-eslavista; o pan-eslavismo é um fanatismo puramente militar do estado-maior e de alguns oficiais exaltados: o povo o que deseja é mais pão, menos tributo, uma constituição talvez (e isto os mais ilustrados), e que os seus correligionários não estejam sob o domínio odiado do Turco: que a cruz grega volte a dominar nas mesquitas de Constantinopla, e todas as aspirações do povo russo, em matéria de política externa, estão amplamente realizadas. Por seu lado, a Áustria não poderia senão felicitar-se de ver junto às suas fronteiras um reino helénico: as suas províncias eslavas não correm risco de tender então a unir-se .ao império eslavo, o que seria inevitável se em lugar dos Gregos fossem os Russos que se viessem estabelecer junto dela. A Hungria, para quem o ódio do pan-eslavismo é uma tradição sagrada, veria com prazer os Gregos em Constantinopla. A Alemanha não poderia opor-se a uma combinação que impede a Rússia, sua aliada presente e sua inimiga provável, de se estender até ao Mediterrâneo. As potências ocidentais regozijar-se-iam de ver dominar nos Dardanelos uma nação comercial, que não impediria, como a Rússia, o tráfico do mar Negro, antes o facilitaria. E a Inglaterra, tendo feito o império helénico, obtinha o resultado mais agradável e mais seguro; não podendo ela mesmo estabelecer-se nos Dardanelos, colocava lá uma potência amiga e aliada, sua própria obra, governada por uma imitação da sua constituição, reconhecida ao benfeitor, facilmente dominável no caso de ingratidão, sem ambições na Índia, nem interesses no canal de Suez, e que seria no Oriente uma espécie de seu mordomo. A oposição, portanto, só pode vir do czar, da corte e do partido militar na Rússia. Para esses, o estabelecimento de um império grego é a destruição das suas ambições, do seu ideal político e histórico, do que eles chamam a sua missão; seria além disso uma diminuição considerável na autoridade do czar; hoje o imperador é papa; mas que amanhã o patriarca do rito grego se estabeleça em Constantinopla, capital do império Grego, e o sacerdócio moscovita, em breve o povo mesmo, o reconhecerá como seu chefe espiritual. Portanto, o czar vai opor-se à entrada da Grécia no congresso com todas as obstinações, todas as manhas, todos os equívocos, todos os subterfúgios que constituem a perigosa ciência dos diplomatas russos; se assim não obtiver o seu fim, embrulhará a questão de modo que o congresso se não reúna; e em último caso apelará para as armas, porque prefere uma nova guerra, mesmo no estado de fraqueza e de pobreza das suas finanças, a consentir que se agite sequer a questão do império helénico. Por isso eu penso que a resposta de Lord Derby, hábil, racional, útil, é no fim o meio de apressar a crise e de trazer a Inglaterra e a Rússia a um conflito; e ainda que se dêem outras razões de rompimento, no fundo, se a Rússia tira de novo a espada um dos seus fins será impedir uma extensão de território da Grécia, núcleo e base de um império helénico. Mas reunir-se-á esse famoso congresso? As probabilidades diminuem todos os dias: o que o adia hoje, e que talvez o impeça mais tarde, é aparentemente uma simples questão de forma; a Inglaterra pretende que o congresso tenha direito a discutir todos os artigos do tratado de paz russo-turco. A Rússia recusa esta larga liberdade de discussão. Para facilitar uma conciliação, a Inglaterra pede ao menos que a Rússia declare que todos os artigos do tratado estarão sujeitos a discussão, ainda que praticamente estabeleça que alguns não serão discutidos; a Rússia recusa a fazer mesmo esta declaração. Em tais condições, a Inglaterra não vai ao congresso. As razões de Lord Derby são óbvias: se os três imperadores estão de acordo, se a Áustria e a Alemanha estão decididas a aprovar o tratado, se o voto da Itália pertence, como é provável, igualmente à Rússia, que iria a Inglaterra fazer ao congresso? Pôr a sua assinatura num documento que fere os seus interesses? Fazer um simples protesto platónico, que seria como a confirmação pública da sua fraqueza e do seu isolamento? Mais vale, portanto, não ir ao congresso e tomar medidas decisivas para que, sejam quais forem as circunstâncias do futuro, os dois grandes interesses britânicos na Turquia europeia, Constantinopla e Galípoli, sejam conservados intactos e inatacados. Nestas recusas sucessivas da Rússia a toda a conciliação, vê-se bem a intenção que a domina: é impedir a reunião do congresso, com receio de que, além das objecções ao tratado, apareça a terrível questão helénica, sob a protecção da Inglaterra. E da parte da Inglaterra todo o esforço é fazer introduzir esta questão no congresso. A Grécia é, penso, neste momento um pomo de discórdia. E a questão do Oriente toma enfim uma fase mais clara e mais definida: em substituição ao Império Turco a Inglaterra quero estabelecimento de um império grego, que seja uma barreira histórico-militar contra a Rússia; a Rússia opõe-se com todas as suas forças a esta solução ajudada pelos dois imperadores seus aliados, que são

movidos por simpatia de corte a corte, em desprezo dos seus verdadeiros interesses nacionais. Mas que fazem as duas outras grandes potências? A Itália hesita, a França cala-se. Se estas duas nações latinas se decidissem a ajudar a ideia inglesa, teríamos assim duas formidáveis coalizões em face uma da outra: de um lado, a Rússia, a Alemanha, a Áustria, espécie de Santa Aliança dos três imperadores autoritários; do outro, a Inglaterra, a França, a Itália, os três estados livres e democráticos: o Oriente contra o Ocidente: o Ocidente querendo o império helénico em substituição do Turco, e o Oriente querendo a partilha do Império Turco entre si, sendo a maior parte destinada a formar uma dependência moscovita. Não é improvável que a questão do Oriente, num certo tempo, tome estas formidáveis e dramáticas proporções. Mas serão os Gregos gente para constituir e formar um império? Até aqui os Gregos têm sido os mais absurdos políticos da Europa: o Governo de Atenas é uma farsa que About pintou, com muito espírito e muita verdade, como uma das grandes bambochatas constitucionais do século. As suas finanças são deploráveis. A sua administração uma balbúrdia. Mas a isto pode-se dizer que aos Gregos tem faltado uma oportunidade de revelar as suas qualidades industriosas, sagazes, activas, expansivas. O território que possuem é o mais árido e o mais estéril da Europa. Sem agricultura e sem indústria, as forças vitais emigram e vão levar a outras terras a sua perseverança e a sua habilidade. Os gregos mais ricos, mais prósperos, a alta burguesia grega que tem o capital e a iniciativa não está na Grécia; está em Londres, em Berlim, em Viena, em Frankfürt, em Constantinopla, em Sampetersburgo e em Paris. Dê-se-lhe um território fértil, uma cidade como Constantinopla que seja um grande entreposto de comercio, minas a explorar, uma frota de transporte, e não há dúvida que a habilidade comercial do grego, a mais fina raça do Levante, poderia constituir uma nação próspera. A política, a administração, as finanças, não seriam como agora governadas pelos intrigantes de Atenas, mas pelas verdadeiras capacidades gregas que neste momento estão espalhadas pela Europa à testa de grandes firmas comerciais e industriais. E lentamente a experiência da própria força, a responsabilidade de governar uma grande extensão de território, uma comunicação mais directa com a civilização ocidental, a necessidade de se organizarem para se fortalecerem, daria ao povo grego aquela seriedade política e aquela ciência social que fazem os países prósperos.

 

Estão lembrados talvez do desastre sucedido há anos no navio inglês Captain, que de repente, por um tempo quase sereno, na baía de Biscaia, se voltou, como um simples caíque do Tejo, destruindo mais de quatrocentas vidas. Um desastre quase igual acaba de suceder a uma admirável fragata de guerra, a Eurídice, que voltava das Antilhas Inglesas com mais de trezentas pessoas a bordo. Ao avistar a praia de Inglaterra, a distância de tiro da ilha de Wight, navegando com todo o pano, é de repente apanhada por um furacão de neve, embrulhada, e em cinco minutos desaparece no fundo do mar, arrastando todas as vidas num furioso turbilhão de água. Apenas duas pessoas se salvaram. Uma tal catástrofe aterra pela quantidade de existências perdidas e pela facilidade com que foi produzida. Uma fragata de primeira ordem, que em tempo quase sereno navega a todo o pano, parece um maquinismo indestrutível ou, pelo menos, oferecendo uma resistência eficaz; pois bem, levanta-se um sopro de vento, embrulhase a vela e mergulha-a no fundo do mar, com a rapidez com que uma criança afunda com a mão um barquinho de cortiça numa bacia de água! O furacão de neve foi instantâneo e fugitivo como um sopro que apaga uma vela. As pessoas que passeavam na esplanada de Ventuar tinham visto a fragata passando a todo o pano, juntamente com um brigue e uma pequena escuna. De repente abate-se o turbilhão de neve de vendaval. A gente tem apenas tempo de segurar os chapéus e de se abafar nos paletós. Quando, passado o furacão, tornam a olhar para o mar, vêem apenas o brigue e a escuna, seguindo tranquilamente: a fragata tinha desaparecido. Nem a ponta de um mastro era visível: o mar, um pouco grosso, balançava-se tranquilamente e trezentas pessoas estavam agonizando debaixo de água. Que trezentos homens sãos, fortes e alegres, voltando ao país, à família, estejam à vista das suas casas; que passe um sopro de neve e que em alguns segundos os arroje para o fundo do

mar, que o céu clareie e que o Sol imediatamente continue a brilhar, como se nada se tivesse passado – é lúgubre!

 

Tinha escrito estas linhas, e ia falar-lhes de algumas curiosas novidades literárias e artísticas, quando notícias inesperadas e surpreendentes me forçaram a voltar de novo à política. Em primeiro lugar, a Rússia deu ontem a sua resposta definitiva à Inglaterra: não admite a livre discussão da totalidade ao tratado de paz e declara que, neste ponto, o seu interesse e a sua honra não lhe permitem nenhuma concessão. Portanto, o congresso não se reúne. Em segundo lugar, Lord Derby deu hoje a sua demissão. Esta demissão, tantas vezes anunciada e contradita em ocasiões em que oferecia uma certa lógica, veio quando parecia quase absolutamente impossível. Ninguém o sabia até ao momento em que, entrando ontem na Câmara dos Lordes, Lord Derby não se sentou no banco dos ministros e foi ocupar um lugar nos bancos da oposição. As suas explicações foram breves e feitas com uma solenidade triste: disse que até àquele dia estivera na mais estreita concordância de ideias com os seus colegas, mas que, tendo eles tomado ultimamente resoluções que lhe pareciam contrárias aos interesses do país, ele vira-se forçado, com mágoa, a separar-se dos seus colegas. Estas palavras causaram na Câmara uma inquietação extrema: que resoluções eram essas? Se Lord Derby, que fora no gabinete o sustentáculo da paz, se retirava, é que essas resoluções que o tornavam incompatível com os seus amigos tinham o carácter de um principio da guerra. Que seria? Estaria a esquadra em Constantinopla? Ter-se-ia tomado Galípoli? Lord Beaconsfield, erguendo-se, pôs um termo às incertezas: começou por fazer o que se poderia chamar a oração fúnebre de Lord Derby: falou na amizade que durante trinta anos de vida pública o ligara a Lord Derby e que ele considerava uma das felicidades e honras da sua carreira; fez, com traços à romancista, como romancista que é, o retrato moral de Lord Derby; e as suas palavras demonstravam uma mágoa tão grave daquela separação e uma estima tão elevada pelo estadista que Lord Derby, sob uma emoção irreprimível, pôs as mãos sobre o rosto e soluçou. A Câmara, impressionada, assustada, não sabia se aquelas lágrimas eram pela perda dos seus amigos, se pelas desgraças que antevia ao seu país. Enfim, Lord Beaconsfield declarou que a resolução tomada e que tinha determinado a demissão de Lord Derby fora a chamada às armas dos corpos de reserva. Desapontamento geral! O quê? Por uma simples medida preventiva, Lord Derby, o chefe da mais ilustre casa tory, separava-se dos tories? E que falta de lógica! Não fora Lord Derby que pelas suas exigências, aliás justificadas, fizera abortar o congresso? Podia ele pois reprovar que o Governo tomasse as precauções que exigiam logicamente os interesses ingleses desde que o congresso falhara? Constituído de boa ou má fé, o congresso era o único meio de trazer uma solução pacífica às questões pendentes, que, tendo ela falhado, só podem ser decididas pelas armas. Como é que Lord Derby, depois de ter pela sua política desarranjado essa solução pacífica, se opõe a que se adoptem prevenções para o caso do conflito armado? A Inglaterra só podia defender os seus interesses ou com razões no congresso ou com canhões no campo de batalha: Lord Derby não quer ir ao congresso das razões e zanga-se porque o Governo, em consequência disso, se prepara a carregar as peças. Por que modo pretende ele então defender os interesses britânicos, de que ele há três anos é o porta-voz e o arauto? Nem pelo direito, nem pela força. Como então? Lord Derby é um homem muito prático para cair numa tal inconsequência. Nem é de supor que vendo diante de si a crise que ele provocou, com razão, pela sua política queira fugir, por timidez e excesso de temperamento pacifico, às responsabilidades que ela traz. Há portanto outra coisa: isto é, a simples chamada da reserva não é toda a razão da demissão de Lord Derby. Se ele se separa dos seus colegas, é porque os seus colegas decerto decidiram alguma outra coisa, bem mais definitiva que uma simples precaução. O quê? That is the question. É o que se saberá dentro de dias. En attendant, o esquema do congresso, do império helénico, etc., todas as belas concepções diplomáticas e geográficas de Lord Derby estão perdidas, ficam nos cartões do Foreign Office. E o que resta é Lord Beaconsfield, com o seu ardente desejo de guerra, livre dos embaraços

pacíficos que punha Lord Derby, apoiado pela corte, que também deseja a guerra, e sustentado à outrance pela parte dos tories que não têm repouso nem alegria enquanto se não trocarem entre Ingleses e Russos os primeiros tiros no Bósforo.

 

Esta carta já vai longa. Mas preciso contar-lhes um pequeno facto picante de que falam aqui os jornais da sociedade, e que, sendo para nós apenas engraçado, tem produzido nos Ingleses um furor sombrio. Trata-se, como quase sempre, do príncipe de Gales. Sua alteza, a semana passada estando em Paris, fez uma visita ao Figaro. Até aqui nada de extraordinário. Querendo dar uma tal honra a um jornal francês, escolheu um jornal das cocotes e dos apostadores de corridas, o órgão oficial da vida escandalosa. Até aqui nada de criminoso. A visita foi feita às duas horas da noite, e nas salas do Figaro estavam os artistas mais estroinas de Paris e algumas lindas actrizes que, além da arte dramática, professam acessoriamente o amor livre por preços conhecidos no Bulevar. Até aqui nada de violento. Houve uma ceia, nada mais natural. Mas foi ao fim da ceia que se deu o pequeno facto que causa nos Ingleses desespero soturno; o elegante redactor Francis Magnard ergueu-se e, de copo em punho, propôs uma saúde à rainha Vitória: é do estilo inglês que esta saúde seja seguida de aplausos e é da etiqueta que o sinal dos aplausos seja dado pela pessoa mais respeitável. A pessoa mais respeitável que nessa ocasião bateu as palmas de cerimónia foi Mademoiselle Theo, uma das actrizes dos Buffos, a quem não julgo fazer injúria chamando-lhe uma esbelta e ilustre prostituta. O príncipe de Gales, numa espirituosa resposta, agradeceu a Mademoiselle Theo e a outras cocotes e folhetinistas a honra que faziam em beber às duas horas da noite, na redacção do Figaro, à saúde de sua mãe, a rainha de Inglaterra. Como vêem é apenas picante – mas há ingleses severos a quem tem caído o cabelo de pensar neste toast singular. Um jornal de Londres observa que se têm feito toasts à rainha de Inglaterra nos lugares mais extraordinários, no alto das Pirâmides, nas ruínas de Tebas, nos sertões de África, nos templos de Pequim, no Pólo Norte, nos juncais do Ganges, no alto do Calvário, sobre o Niagara, nas cabanas dos cafres, nos mosteiros do Líbano; mas que é a primeira vez que se faz num lupanar! Lupanar, acho severo para o Figuro. Mas que é um lugar esquisito para uma saúde tão respeitável – é.

Crônicas de Segunda Na Usina: Machado de Assis: CAPÍTULO VII - O INESPERADO:


Chegados os dragões em frente aos Canjicas houve um instante de estupefação: os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados:

 —Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí. Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das casas ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de cólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões,—qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desânimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e, um a um, foram passando para eles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remédio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro. A revolução triunfante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos às casas próximas e guiou para a Câmara. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao "ilustre Porfírio". Este ia na frente, empunhando tão destramente a espada, como se ela fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitória cingia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. A dignidade de governo começava a eurijar-lhe os quadris Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturara a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse dar um mês de soldo aos dragões, "cujo denodo salvou Itaguaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes .” Esta frase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente, cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes notícia da triste realidade. O presidente não desanimou:— qualquer que seja a nossa sorte, disse ele, lembremo-nos de que estamos ao serviço de Sua Majestade e do povo.—Sebastião insinuou que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora, mas toda a Câmara rejeitou esse alvitre.        Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança, e intimava à Câmara a sua queda. A Câmara não resistiu, entregou-se, e foi dali para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assumisse o governo da vila, em nome de Sua Majestade. Porfírio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que eles prontamente anuíram. O barbeiro veio à janela e comunicou ao povo essas resoluções, que o povo ratificou, aclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de—"Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo".—Expediram-se logo várias ordens importantes, comunicações oficiais do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediência às ordens de Sua Majestade; finalmente uma proclamação ao povo, curta, mas enérgica: "Itaguaienses! Uma Câmara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Majestade e do povo. A opinião pública tinha-a condenado; um punhado de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Majestade, acaba de a dissolver ignominiosamente, e por unânime consenso da vila, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguaienses! não vos peço senão que me rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda publica, tão desbaratada pela Câmara que ora findou às vossas mãos. Contai com o meu sacrifício, e ficai certos de que a coroa será por nós.

 O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo

 PORFÍRIO CAETANO DAS NEVES".Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre elas duas senhoras, sendo um dos homens aparentado com o Protetor. Não era um repto, um ato intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira, e a vila respirou com a esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros e destruído o terrível cárcere. O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro faz expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.

—Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alistará entre os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro, dando à fisionomia um aspecto tenebroso. Ao que o Padre Lopes respondeu, sem responder:

 —Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos? O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e os principais da vila, toda a gente o aclamava. Os mesmos principais, se o não aclamavam, não tinham saído contra ele. Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as famílias abençoavam o nome daquele que ia enfim libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte.


Crônicas de Segunda Na Usina: Lima Barreto: Anúncios... anúncios...:


Quando bati à porta do gabinete de trabalho do meu amigo, ele estava estirado num divã improvisado com tábuas, caixões e um delgado colchão, lendo um jornal. Não levantou os olhos do quotidiano, e disse-me, naturalmente:
- Entra.
Entrei e sentei-me a uma cadeira de balanço, à espera de que ele acabasse a leitura, para darmos começo a um dedo de palestra. Ele, porém, não tirava os olhos do jornal que lia, com a atenção de quem está estudando coisas transcendentes. Impaciente, tirei um cigarro da algibeira, acendi-o e pus-me a fumá-lo sofregamente. Afinal, perdendo a paciência, fiz abruptamente:
- Que diabo tu lês aí, que não me dás nenhuma atenção?
- Anúncios, meu caro; anúncios...
- É o recurso dos humoristas à cata de assuntos, ler anúncios.
- Não sou humorista e, se leio os anúncios, é para estudar a vida e a sociedade. Os anúncios são uma manifestação delas: e às vezes, tão brutalmente as manifestam que a gente fica pasmo com a brutalidade deles. Vê tu os termos deste: "Aluga-se a gente branca, casal sem filhos, ou moço do comércio, um bom quarto de frente por 60$ mensais, adiantados, na Rua D., etc., etc." Penso que nenhum miliardário falaria tão rudemente aos pretendentes a uma qualquer de suas inúmeras casas; entretanto, o modesto proprietário de um cômodo de sessenta mil-réis não tem circunlóquios.
- Que concluis daí?
- O que todos concluem. Mais vale depender dos grandes e dos poderosos do que dos pequenos que tenham, porventura, uma acidental distinção pessoal. O doutor burro é mais pedante que o doutor inteligente e ilustrado.
- Estás a fazer uma filosofia de anúncios?
- Não. Verifico nos anúncios velhos conceitos e preconceitos. Queres um outro? Ouve: "Senhora distinta, residindo em casa confortável, aceita uma menina para criar e educar com carinhos de mãe. Preço razoável.Cartas para este escritório, a Mme., etc., etc."
Que te parece este anúncio, meu caro Jarbas?
- Não lhe enxergo nada de notável.
- Pois possui.
- Não vejo em quê.
- Nisto: essa senhora distinta quer criar e educar com carinhos de mãe, uma menina; mas pede paga, preço razoável - lá está. É como se ela cobrasse os carinhos que distribuísse aos filhos e filhas. Percebeste?
- Percebo.
- Outra coisa que me surpreende, na leitura da seção de anúncios dos jornais, é a quantidade de cartomantes, feiticeiros, adivinhos, charlatães de toda a sorte que proclamam, sem nenhuma cerimônia, sem incômodos com a polícia, as suas virtudes sobre-humanas, os seus poderes ocultos, a sua capacidade milagrosa. Neste jornal, hoje, há mais de dez neste sentido. Vou ler este, que é o maior e o mais pitoresco. Escuta: "Cartomante - Dona Maria Sabida, consagrada pelo povo como a mais perita e a última palavra da cartomancia, e a última palavra em ciências ocultas; às excelentíssimas famílias do interior e fora da cidade, consultas por carta, sem a presença das pessoas, única neste gênero - máxima seriedade e rigoroso sigilo: residência à rua Visconde de xxx, perto das barcas, em Niterói, e caixa postal número x, Rio de Janeiro. Nota: - Maria Sabida é a cartomante mais popular em todo o Brasil". Não há dúvida alguma que essa gente tem clientela; mas o que julgo inadmissível é que se permita que "cavadoras" e "cavadores" venham a público, pela imprensa, aumentar o número de papalvos que acreditam neles. É tolerância demais.
- Mas, Raimundo, donde te veio essa mania de ler anúncios e fazer considerações sobre
eles?
- Eu te conto, com algum vagar.
- Pois conta lá!
Eu me dava, há mais de um decênio, com um rapaz, cuja família paterna conheci. - Um belo dia, ele me apareceu casado. Não julguei a coisa acertada, porque, ainda muito moço, estouvado de natureza e desregrado de temperamento, um casamento prematuro desses seria fatalmente um desastre. Não me enganei. Ele era gastador e ela não lhe ficava atrás. Os vencimentos do seu pequeno emprego não davam para os caprichos de ambos, de forma que a desarmonia surgiu logo entre eles. Vieram filhos, moléstias, e as condições pecuniárias do ménage foram ficando atrozes e mais atrozes as relações entre os cônjuges. O marido, muito orgulhoso, não queria aceitar os socorros dos sogros. Não por estes, que eram bons e suasórios; mas pela fatuidade dos outros parentes da mulher, que não cessavam de lançar na cara desta os favores que recebia dos pais e decuplicar os defeitos do seu marido. Freqüentemente brigavam, e todos nós, amigos do marido, que éramos também envolvidos no desprezo liliputiano dos parentes da mulher, intervínhamos e conseguíamos apaziguar as coisas por algum tempo. Mas a tempestade voltava, e era um eterno recomeçar. Por vezes, desanimávamos; mas não nos era possível deixá-los entregues a eles mesmos, pois ambos pareciam ter pouco juízo e não saber afrontar dificuldades materiais com resignação.
Um belo dia, isto foi há bem quatro anos, depois de uma disputa infernal, a mulher deixa o lar conjugal e procura hospedagem na casa de uma pessoa amiga, nos subúrbios. Todos nós, os amigos do marido, sabíamos disso; mas fazíamos constar que ela estava fora com os filhos. Em determinada manhã, aqui mesmo, recebo uma carta com letra de mulher. Não estava habituado a semelhantes visitas e abri a carta com medo. Que seria? Fiz uma porção de conjecturas; e, embora com os olhos turvos, consegui ler o bilhete. Nele, a mulher do meu amigo pedia-me que a fosse ver, à rua tal, número tanto, estação xxx, para se aconselhar comigo. Fui de coração leve, porque a minha intenção era perfeitamente honesta. Em lá chegando, ela me contou toda a sua desdita, passou dez descomposturas no marido e disse-me que não queria saber mais dele, sendo a sua tenção ir para o interior trabalhar. Perguntei-lhe com o que contava. Na sua ingenuidade de menina pobre, criada com fumaças de riqueza, ela me mostrou um anúncio.
- Então, é daí?
- É daí, sim.
- Que dizia o anúncio?
- Que, em Rio Claro ou São Carlos, não sei, numa localidade do interior de São Paulo, precisavam-se moças para trabalhar em costuras, pagando-se bem. Ela me perguntou se devia responder, oferecendo-se. Disse-lhe que não e expliquei-lhe a razão. Tão ingênua era ela, que ainda não tinha atinado com a malandragem do anunciante... Despedi-me convencido de que seguiria o meu conselho leal; mas, estava tão fascinada e amargurada, que não me atendeu. Respondeu.
- Como soubeste?
- Por ela mesma. Ela me mandou chamar novamente e mostrou-me a resposta do meliante. Era uma cartinha melosa, com pretensões de amorosa, em que ele, o desconhecido correspondente, insinuava que coisa melhor do que costuras ela iria encontrar em Rio Claro ou São Carlos, junto dele. Pedia-lhe o retrato e, logo que fosse recebido, se agradasse, viria buscá-la. Era rico, podia fazer
- Que disseste?
- O que devia dizer e já tinha dito, pois já previa que o tal anúncio fosse uma cilada, e cilada das mais completas. Que dizes agora do meu pendor pelas leituras de anúncios?
- Tem o que se aprender.
- É isto, meu caro: há anúncios e... anúncios...
Feiras e mafuás, s.d.

sábado, 23 de abril de 2022

A Devina Comédia: Dante Aliguieri:



CANTO XI
Os Poetas chegam à beira do sétimo círculo. Sufocados pelo mau cheiro que se levanta daquele báratro, param atrás do sepulcro do papa Anastácio. Virgílio explica a Dante a configuração dos círculos infernais. O primeiro, que é o sétimo, é o círculo dos violentos. Como a violência pode dar-se contra o próximo, contra si próprio e contra Deus, o círculo é dividido em três compartimentos, cada um dos quais contém uma espécie de violentos. O segundo círculo, que é o oitavo, é o dos fraudulentos e se compõe de dez círculos concêntricos. O terceiro, que é o nono, se divide em quatro compartimentos concêntricos. Fala-lhe também acerca dos incontinentes e dos usurários. Movem-se depois para o lugar de onde se desce para o precipício.
À BORDA de alta riba assim chegamos, Que em círc'lo rotas penhas conformavam: 3 De lá mais crus tormentos divisamos.
Do fundo abismo exalações brotavam, Tão acres, que a fugir nos obrigaram 6 Para trás das muralhas elevadas
De um sepulcro, em que os olhos decifraram: “Sou do papa Anastácio a sepultura,
9 Que de Fotino os erros transviaram”. “Lentamente desçamos desta altura:
Assim, o olfato ao mau odor afeito,
12 Não hemos de sentir-lhe a ação impura”.
A Virgílio tornei: “Proceda a jeito,
Ó Mestre, por que o tempo consumido
15 Na demora, não corra sem proveito”. —
— “Já stava o meio, ó filho, apercebido. 
Nestas penhas três círc'los há menores,
18 Por degraus, como os outros, que hás descido.
“Plenos stão de malditos pecadores.
Por que, em vendo, os conheças logo, atende:
21 Direi seus crimes e da pena as dores.
“Todo mal, que no céu cólera acende, Injustiça há por fim, 
que o dano alheio, 24 Usando fraude ou violência, tende.
“Próprio do homem por ser da fraude o meio Mais descontenta a Deus; 
mores tormentos 27 Em lugar sofre de aflições mais cheio.
“Dos círc'los o primeiro é dos violentos; Mas, força a três pessoas se fazendo,
30 Foi construído em três repartimentos.
“A Deus, a si, ao próximo ofendendo, Nas pessoas, nos bens a força fere,
33 Como hás de convencer-te, me entendendo.

Domingo na Usina: Biografias: Maria da Conceição Evaristo de Brito:

Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizonte, 29 de novembro de 1946) é uma escritora brasileira.[1] Ela nasceu em uma família pobre e é a segunda de 9 irmãos, sendo a primeira de sua casa a conseguir um diploma universitário. Ajudava sua mãe e sua tia com lavagem de roupas e as entregas, enquanto estudava.[2] Nos anos 70, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso,começando a escrever apenas na década de 1990.[3] Ela concluiu o mestrado em meados da década de 1990 e o doutorado no inicio da década de 2010.[4][5]

Biografia

Conceição nasceu em uma comunidade da zona sul de Belo Horizonte, vem de uma família muito pobre, com nove irmãos e sua mãe, ela se mudou jovem para um lugar um pouco melhor e teve que conciliar os estudos trabalhando como empregada doméstica, até concluir o curso normal, em 1971, já aos 25 anos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ.[6][7]

Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombhoje. Estreou na literatura em 1990, com obras publicadas na série Cadernos Negros, publicada pela organização.

É mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, é doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. Seu primeiro romance, Ponciá Vicêncio foi foco de pesquisa acadêmica pela primeira vez, no Brasil, em 2007[8]. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.[9][10] Atualmente leciona na UFMG como professora visitante.

Em 2017, Conceição Evaristo foi tema da Ocupação do Itaú Cultural de São Paulo. Em 2019, Conceição Evaristo é a grande homenageada da Bienal do Livro de Contagem.

Conceição Evaristo é militante do movimento negro, com grande participação e atividade em eventos relacionados a militância política social.

No dia 18 de junho de 2018, Conceição Evaristo oficializou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, entregando a carta de autoapresentação para concorrer à cadeira de número 7, originalmente ocupada por Castro Alves. Segundo o Portal da Literatura Afro-Brasileira, a autora escreveu na carta: “Assinalo o meu desejo e minha disposição de diálogo e espero por essa oportunidade”.[11] A eleição ocorreu em 30 de agosto, Conceição recebeu um voto, acabou eleito o cineasta Cacá Diegues. [12]

 

Obras

Romance

Ponciá Vicêncio (2003)

Becos da Memória (2006)

Poema

Poemas da recordação e outros movimentos (2017)

Contos

Insubmissas lágrimas de mulheres (2011; 2ª edição pela Editora Malê, 2016 )

Olhos d`água (Editora Pallas, 2014) .

Histórias de leves enganos e parecenças (Editora Malê, 2016)

Participações em antologias

Cadernos Negros (Quilombhoje, 1990)

Contos Afros (Quilombhoje)

Contos do mar sem fim (Editora Pallas)

Questão de Pele (Língua Geral)

Schwarze prosa (Alemanha, 1993)

Moving beyond boundaries: international dimension of black women’s writing (1995)

Women righting – Afro-brazilian Women’s Short Fiction (Inglaterra, 2005)

Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995)

Callaloo, vols. 18 e 30 (1995, 2008)

Fourteen female voices from Brazil (EUA, 2002), Estados Unidos

Chimurenga People (África do Sul, 2007)

Brasil-África

Je suis Rio, éditions Anacaona, juin 2016.

Obras publicadas no exterior

Ponciá Vicencio. Trad. Paloma Martinez-Cruz, Austin: Host Publications, 2007. ISBN 0-978-0-924047-34-3

L'histoire de Poncia, traduzido por Paula Anacaona, collection Terra, éditions Anacaona. 2015. ISBN 978-2-918799-75-7

Banzo, mémoires de la favela, traduzido por Paula Anacaona, collection Terra, éditions Anacaona. 2016. ISBN 978-2-918799-80-1

fonte de origem:

Domingo na Usina: Biografias: August William Derleth:

 

August William Derleth (24 de Fevereiro de 1909 – 4 de Julho de 1971) foi um escritor e antologista americano. Embora lembrado como o primeiro a publicar as obras de H. P. Lovecraft,[1] e por suas contribuições ao gênero de horror Mito de Cthulhu, assim como por ter fundado a Editora Arkham House, Derleth era um escritor líder regional americana de sua época, bem como prolífico em vários outros gêneros, incluindo ficção histórica, poesia, romances policiais, ficção científica e biografias.[2]

Alguma Obras[nota 1]

The Cthulhu Mythos

Father Marquette and the Great Rivers

Saint Ignatius and the Company of Jesus

The Milwaukee Road: Its First Hundred Years

The Trail of Cthulhu

Village Year: A Sac Prairie Journal

The Casebook of Solar Pons

Algumas Obras com H. P. Lovecraft

The Watchers Out of Time

Essential Solitude: The Letters of H. P. Lovecraft and August Derleth - Volumes I e II

Dagon and Other Macabre Tales

Selected Letters II: 1925-1929

The Lurker at the Threshold

Watchers Out Of Time and Others

fonte de origem:

https://pt.wikipedia.org/wiki/August_Derleth

Domingo na Usina: Biografias: Jon Juaristi Linacero:

 Jon Juaristi

Jon Juaristi Linacero (nascido em Bilbao em 1951) é um espanhol poeta, ensaísta e tradutor espanhol e basco , bem como um ex-auto-confessou ETA militante. [1] No momento, ele reside em Madrid .

Biografia

Educação e emprego

Um Ph.D. em Romance filologia , ele estudou na Universidade de Deusto e em Sevilha .

 Ele ocupou a cadeira de Filologia Espanhola na Universidade do País Basco , o Centro Rei Juan Carlos I da Espanha na Universidade de Nova York , e foi professor titular da Cátedra de Pensamento Contemporâneo da Fundação Cañada Blanch da Universidade de Valencia . Juaristi também trabalhou como palestrante e pesquisador em Austin e no El Colegio de México . Dirigiu a Biblioteca Nacional da Espanha de 1999 a 2001, deixando esse cargo para dirigir o Instituto Cervantes até sua substituição após o triunfo socialista de 14 de março de 2004.

 Ativismo político início

Na idade de 16, estimulado pela leitura de Federico Krutwig de Vasconia , ele entrou em um incipiente ETA . [1] Sua ação mais notável foi colocar células armadas carlistas em contato com o ETA após a expulsão pelo regime de Franco de Carlos Hugo de Borbón Parma (um pretendente ao trono espanhol) [2]

 Mais tarde, na Universidade, ele entrou para um agrupamento operário minoritário do ETA, denominado ETA VI Asamblea , que em 1973 se fundiu com a Liga Comunista Revolucionaria (LCR) trotskista como seu ramo basco. Tendo chamado a atenção da polícia, ele abandonou sua cidade natal para estudar Filologia Românica em Sevilha, retornando eventualmente à Universidade de Deusto, onde fez seu doutorado. Em Deusto foi expulso em 1972 "por agitação", mas foi readmitido no ano seguinte. Nesse período, passou vários períodos na prisão por "delitos menores" e foi condenado pelo Tribunal de Ordem Pública. [3]

 Em 1974 deixou a LCR e a atividade política esquerdista quase por completo e se dedicou à carreira acadêmica. [4]

 Em 1980, ele se filiou ao Partido Comunista da Espanha durante seu processo de unificação com Euskadiko Ezkerra (EE), o que daria origem a um novo grupo social-democrata que rejeitou ativamente o uso da violência. Ele o deixou em 1986, desapontado quando EE não formou uma aliança com o Partido Socialista dos Trabalhadores Espanhóis (PSOE) após as eleições da Comunidade Autônoma Basca de 1986 . Em 1987, Juaristi ingressou no PSOE. Mais tarde, ele declarou em suas memórias que o fez impulsionado por "imperativos éticos" como resultado do ataque do grupo separatista radical "Mendeku" contra a "Casa del Pueblo" (capítulo local do PSOE) emPortugalete . Vários membros do PSOE morreram queimados no ataque. [5]

 Atividade política atual

Sua crítica ao nacionalismo étnico e sua invenção e manipulação de mitos, em particular por parte do nacionalismo basco , ganhou visibilidade na mídia por meio de vários artigos, ensaios e discursos. A posição de Juaristi contra o terrorismo e o seu apoio às vítimas da violência do ETA tornaram-se ainda mais visíveis com a formação do Foro Ermua (Fórum de Ermua, agora uma organização anti-terrorismo conservadora mas com raízes na esquerda basca) em 1997. Na na última década foi definido, em várias entrevistas aos meios de comunicação, como um "nacionalista espanhol". [6]"Desde o final da década de 1980, devido às suas duras críticas à violência separatista basca, sua vida foi ameaçada pela ETA. No final de 1999, ele deixou a universidade de Deusto e do País Basco após o anúncio da ETA de que ela acabaria seu cessar-fogo do ano anterior, e tendo sido avisado da gravidade das ameaças à sua vida por aquele grupo.

 Juaristi se converteu ao judaísmo [7] por razões mais pessoais do que religiosas:

 El judaísmo para mí no es exactamente una religión, sino más bien una visión ética del mundo [8] ("O judaísmo é para mim não exatamente uma religião, mas sim uma visão ética do mundo")

 Advertí que yo me consideraba un judío no religioso, si tal cosa es posible. [9] ("Eu avisei que me considerava um judeu não religioso, se isso for possível.")

 Juaristi dedica uma série de seus artigos à crítica do anti-semitismo (e do anti-sionismo , que ele considera ser inerentemente anti-semita) [ carece de fontes ] . Ele também escreveu em defesa do direito de Israel de ser seu próprio estado.

 Poesia

A voz poética de Juaristi é influenciada pelo poeta basco (e seu amigo íntimo) Gabriel Aresti , e pelos escritores espanhóis de origem basca Miguel de Unamuno e Blas de Otero  [ es ] - bem como pela ironia do poeta e O ensaísta anglo-americano WH Auden . A sua poesia evoca frequentemente o estado de espírito da Bilbao da sua infância e juventude, e o seu tom é desiludido, amargo, urbano e inteligente.

 Suas obras de poesia foram publicadas da seguinte forma:

 Diario de un poeta recién cansado (" Diário de um poeta recém-cansado ") (1986).

Suma de varia intención (" Quantidade de intenção variável ") (1987).

Arte de marear (" Arte para irritar ") (1988).

Los paisajes domésticos (" As paisagens domésticas ") (1992).

Mediodía (" Noon ") (1993).

Tiempo desapacible (" Tempo desagradável ") (1996).

Poesía reunida ( " poesia Reunited ") (1986-1999) (2001).

Prosas en verso (" Prosa em verso ") (2002).

Ensaios

Nos ensaios de Juaristi, a análise é um assunto habitual, de uma perspectiva psicológica e sociológica inspirada em Carl Jung e Leon Polyakov , e nas raízes históricas e míticas do nacionalismo europeu , particularmente do nacionalismo basco . Referências filológicas são encontradas com frequência nos textos, bem como referências e anedotas que tratam de autores, assuntos e obras do ocultismo. Geralmente são mencionados com distância e ironia.

 Euskararen Ideologiak (1976).

El linaje de Aitor. La invención de la tradición vasca (1984).

Literatura vasca (1987).

Arte no País Vasco (1987). Con Kosme M. de Barañano e Javier González de Durana.

Vicente de Arana (1990).

Vestigios de Babel. Para una arqueología de los nacionalismos españoles (1992).

Auto de Terminación: raza, nación y violencia en el País Vasco (1994). Artigos: em colaboração com Juan Aranzadi y Patxo Unzueta.

La Europa (cultural) de los pueblos: voz y forma (1994). En colaboración with otros autores.

El chimbo expiatorio (la invención de la tradición bilbaína, 1876-1939) (1994).

El bucle melancólico. Historias de nacionalistas vascos (1997).

Sacra nemesis. Nuevas historias de nacionalistas vascos (1999).

Sermo humilis: poesía y poética (1999).

El bosque originario (2000).

La tribu atribulada. El Nacionalismo Vasco explicado a mi padre (2002).

El reino del ocaso (2004).

Autobiografia

Cambio de destino (2006) ISBN  978-84-322-9668-0

Prêmios

1988: Ícaro de Literatura.

1997: Espasa de Ensayo por El bucle melancólico.

1998: XV Premio de Periodismo Francisco Cerecedo.

1998: Premio Nacional de Literatura por El bucle melancólico.

2000: Fastenrath.

Referências

 Jon Juaristi, artigo no El Mundo

 Cambio de destino , autobiografia, ISBN 978-84-322-9668-0 , página 146.

 Nacionalistas. La otra cara: Jon Juaristi , El Mundo , 5 de marzo de 2006.

 Artigo em "El Mundo"

 Ibídem , página 364

Un «nacionalista español» con imperativos éticos

 Cambio de destino , páginas 370-371

 Artigo em "El Mundo"

 A cuerpo de rey: Monarquía accidental y melancolía republicana , página 24, Jon Juaristi, Ariel, 2014. ISBN 978-84-344-1899-8 .

fonte de origem:

https://en.wikipedia.org/wiki/Jon_Juaristi

Domingo na Usina: Biografias: Florinda Meza:


Florinda Meza García Gómez Bolaños[2] (Juchipila, 8 de fevereiro de 1949) é uma atriz, cantora, roteirista, diretora, produtora, locutora e dançarina mexicana. Tornou-se mundialmente famosa por ter interpretado diversas personagens dos seriados de Chespirito, sendo Dona Florinda e Pópis as mais conhecidas. 
É viúva de Roberto Gómez Bolaños, com quem viveu por 44 anos (desde 1971 até sua morte em 2014), embora só tenha se casado oficialmente em 2004, quando adotou o sobrenome Gómez Bolaños. É filha de Emília García Valero e Hector Meza Solano, sendo a irmã mais velha de Hector Meza García e Esther Meza García. No Brasil, a voz de sua personagem Dona Florinda é dublada por Marta Volpiani. 
Biografia e carreira artística 
Nascida e criada na cidade de Juchipila, no estado de Zacatecas, México, teve uma infância difícil: Com a separação de seus pais, que, muito pobres, não puderam ficar com os filhos, e assim, Florinda, Hector e Esther tiveram de ser criados pelos avós, mas eles eram pouco cuidadosos e faziam ela e os irmãos sofrerem necessidades e humilhações. Isso desencadeou em Florinda uma personalidade forte e determinada a mudar sua situação de vida.[3] 
Guarda uma péssima recordação de infância: Antes da separação dos seus pais, Florinda morava com os irmãos, o pai e a mãe, como toda família, mas sua mãe passou a apresentar um comportamento diferente e foi constatado que ela sofria de esquizofrenia. Florinda contou essa triste história em um programa exibido pela rede mexicana Azteca - chamado "Histórias Engarzadas": Florinda Meza, que encarnou a personagem Dona Florinda, do humorístico Chaves, esclareceu algo que era um dilema para muitos dos seus fãs: A mudança no desenho do seu nariz. Segundo relatou, a sua mãe sofria de problemas neurológicos e, em uma crise violenta, jogou-lhe um ferro de passar, que quebrou o osso do seu nariz. Na época, ainda criança, Meza teve de ser submetida a uma cirurgia. Já adulta, a atriz teve problemas respiratórios, por sequelas daquela lesão, e passou por diversas cirurgias.[4] 
Na adolescência começou a perceber seu grande gosto e talento para artes cênicas. A sua vocação artística aflorou cedo e para concretizar seu sonho, foi à procura de emprego e trabalhou como modelo de comerciais para televisão por um período e depois como secretária em um escritório, para pagar os seus estudos, no caso o curso profissionalizante de artes dramáticas, na ANDA (Asociación Nacional de Actores).[3] 
Nessa época, sua avó já era viúva, e repentinamente faleceu. Florinda sofreu muito mais que já havia sofrido, pois sua mãe estava internada em um hospício, e para piorar a situação, não tinha mais notícias de seu pai, que após a internação de sua mãe, foi embora com outra mulher. Sozinha e ainda jovem, teve de sustentar e criar os dois irmãos ainda crianças. Ela exerceu um verdadeiro papel de mãe para eles, já que era bem mais velha que os dois. Isso a fez lutar ainda mais por melhorias em sua vida profissional, e estava empenhada, fazendo curso de teatro e para pagar sua formação teatral, trabalhava com vendas no comércio mexicano. Ela sustentava os irmãos, cuidava, brigava e orientava, e os criou como seus filhos. 
A sua evidente capacidade histriônica, ou seja, uma personalidade muito dramática, viva, forte e intensa, começou a ser percebida em seu curso de teatro. Além de uma capacidade incrível de decorar textos e atuar, ela passou a fazer aulas de dança e canto e conseguiu com muita facilidade dançar, cantar e interpretar ao mesmo tempo, para grande admiração dos professores. 
Ao perceber seu grande talento, os professores passaram a enviar o nome dela para grandes empresas no ramo artístico e eis que em 1968 ela conhece o empresário e ator Roberto Gómez Bolaños, que lhe fez um inesperado convite: integrar-se à sua equipe de atores. Chespirito, como é conhecido, a convidou para trabalhar com ele em programas humorísticos que estava escrevendo. Atuar na TV com atores famosos seria um grande avanço na carreira de Florinda. 
Florinda Meza caracterizada como Doña Florinda para o seriado El Chavo del Ocho. 
A partir de então, tornou-se a estrela feminina dos programas, realizando diversas caracterizações. O seu primeiro trabalho com Chespirito foi em um esquete de "Don Juan Tenorio". Depois, interpretou a imortal Dona Florinda e a famosa Chimoltrúfia, a vizinha do Pancada, a enfermeira do doutor Chapatin e várias "mocinhas" no quadro do Chaveco. Mais tarde, a sua sobrinha Pópis. Nos episódios de Chapolin Colorado, quase sempre fazia o papel da mocinha. 
Vida Pessoal 
Em 1977, Florinda e Bolanõs assumiram que estavam morando juntos. O anúncio foi feito numa viagem que fizeram ao Chile com o elenco de atores para participar de mais uma gravação na TV. Roberto e Florinda não tiveram filhos pois antes de conhecê-la, ainda casado com sua primeira esposa, Roberto havia realizado uma vasectomia irreversível, pois não desejava mais ser pai. Florinda sofreu muito ao saber disso, mas superou sua vontade de ser mãe participando da vida dos irmãos, que criou como filhos, e também dos sobrinhos, que ajudou seus irmãos a cuidar, e também conviveu de forma próxima com os filhos mais novos de Roberto, além de passar a se dedicar integralmente e intensamente a seu trabalho de atuar, cantar e dançar, sempre muito bem visto e apreciado. Como tinha tempo para se dedicar as atividades profissionais, se especializou, fazendo cursos e faculdades, e se tornou roteirista de cinema, produtora cultural e locutora em telenovelas e rádios.[5] No dia 19 de novembro de 2004, Florinda e Roberto oficializaram sua união em um cartório, e comemoraram com uma grande festa num restaurante da Cidade do México.[6] 
Boatos insinuaram que graças à paixão pela mesma mulher, Florinda, Roberto Gómez Bolaños e Carlos Villagrán, amigos de muitos anos, deixaram de se falar e não mantiveram nenhum contato por 20 anos, até se encontrarem novamente em uma homenagem feita pela emissora Televisa ao mestre Chespirito. Roberto sentia ciúmes de Carlos, visto que Florinda, antes de conhecer Roberto, foi namorada de Carlos, e o deixou para ficar com Roberto, o que abalou a relação de amizade entre eles. [7] Entretanto, fatos e entrevistas dão conta de que a saída de Villagrán do programa se deu pela noção do ator de que seu personagem, Quico, era o mais popular da série e que, em carreira solo, poderia fazer mais sucesso que a série original. Apesar disso, nenhuma das séries realizadas por Villagrán após sua saída do elenco original de Chaves teve sucesso e o ator somente é lembrado pelos curtos anos de trabalho com Chespirito graças às reprises de Chaves na América Latina. 
Florinda trabalhou em todos os cinco filmes de Chespirito, assim como na peça de teatro escrita por ele, "Títere" (1984), onde fazia o boneco Pinóquio. Participou também do programa Chespirito a partir de 1980 com personagens nos quadros de Los Caquitos (Chômpiras) onde interpretava a personagem Chimoltrúfia; em Los Chifladitos (Chaparron), onde era a Vizinha, além de "El Doctor Chapatín" (Dr. Chapatin), onde interpretava a Enfermeira. Chimoltrúfia obteve grande destaque devido às diferenças de características com Dona Florinda, e por tornar mais explícito seu talento como atriz. Dado o enorme sucesso dessa personagem, Florinda Meza lançou no mercado a revista semanal da Chimoltrúfia, que alcançou grande êxito editorial. 
Começou a estudar para ser escritora e diretora de produções artísticas e mais uma vez obteve sucesso com novelas como "María de Nadie" (1985), "Milagro y Magia" (1991, onde também atuou), "La Dueña" (1995) e "Alguna Vez Tendremos Alas" (1997). Também atuou por mais de oito anos consecutivos no sucesso de teatro "11 y 12" - mais uma vez ao lado do marido. Chimoltrúfia foi a personagem que mais lhe dava prazer de interpretar. 
Florinda havia parado suas atividades profissionais para cuidar de seu marido acamado, devido à idade avançada e à saúde fragilizada dele. Atualmente, viúva e morando sozinha, continua a se dedicar a uma enorme variedade de projetos culturais, viajando o mundo para direcionar eventos e dar entrevistas. Declarou em entrevistas que mesmo recebendo a visita de seus irmãos e sobrinhos, e até dos filhos e netos de seu falecido marido, sente-se muito sozinha, com enormes saudades de seu único e grande amor, Roberto. 
Produtora 

Alguna vez tendremos alas (1997) 

La dueña (1995) adaptada no Brasil como "Amor e Ódio" (SBT) 

Milagro y magia (1991) 

María de nadie (1985) 

Telenovelas e filmes 

Dulce Família (2019) - Verónica Trujillos[8] 

Mulheres Assassinas (2010) - Dona Laura 

Musica de Viento (1988) - Valentina 

Charrito (1985) - Filha do Xerife 

Don Ratón y Don Ratero (1983) - Atadolfa 

El Chanfle 2 (1982) - Tere 

El Chanfle (1979) - Tere 

Chaves (1973-1992) - Dona Florinda e Pópis 

Chapolin Colorado (1970-1992) - Várias personagens 

Representando Chimoltrúfia Florinda Meza interpretou também a personagem Chimoltrúfia em Chompiras, onde os personagens aparecem como ex-ladrões regenerados. Ela diz que esse foi um de seus papéis preferidos. 
O nome completo da Chimoltrúfia é Maria Expropriação Petronilha Laspurian Torquemada de Botijão ou em espanhol María Expropiación Petronilla Lascurain y Torquemada de Botija. Chimoltrúfia é uma mulher de mais ou menos trinta e cinco anos, de classe social baixa, trabalhadora, sustenta a família. É muito honesta, respeitável, exigente e convicta. É sonhadora, idealista e vive feliz sem esperar nada dos outros, só espera ter saúde, um bom emprego que lhe permita viver do seu trabalho e talvez, de repente, tenha a sorte de algum dia ser contratada como cantora, porém canta muito mal e acha que canta muito bem. Ela é otimista, pura, ingênua e com uma marcante ignorância, que às vezes parece criança. Tem também um imenso sentido de justiça e sempre defende as coisas nobres e ajuda os inválidos na medida possível. 
Roupas características: vestido simples; de manga curta e decote redondo, marrom de florzinhas azuis e também usa um avental amarelo.Usa meias velhas e coloridas.Os sapatos são brancos, rasteiros. 
Frases características: "Por que eu vou dizer que não se é sim?"; "O que está pretendendo tratar de querer insinuar?"; "Olha, você vai me desculpar, mas você sabe que quando eu falo uma coisa, eu falo outra, assim é tudo na vida, tem coisas que eu nem sei! Eu tenho ou não tenho razão?" 
No Brasil 
Em fevereiro de 2015, Florinda Meza veio ao Brasil pela primeira vez para dar uma entrevista no Programa do Ratinho sobre a morte de Chespirito. Foi a primeira entrevista dela após a morte do marido. A entrevista foi exibida ao vivo no dia 25 de fevereiro de 2015. [9] Florinda também deu uma entrevista para Celso Portiolli no Domingo Legal.fonte de origem: