domingo, 27 de novembro de 2022

Crônicas de Segunda na Usina: lima Barreto: Queixa de defunto:



Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, na Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tomar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la: 
"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que sé chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não. 
"Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem coisa alguma de reivindicações e revoltas, mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia. 
"Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte no sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensamento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais. 
"Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos 'bíblias', nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns. 
"Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda a eloqüência em galego ou vasconço. 
"Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. É bom meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa. 
"Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda. 
"Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanhamento tiveram que atravessar em toda a extensão a rua José Bonifácio, em Todos os Santos. 
"Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e largura, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola, sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto. 
"Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche, machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo: 
"- Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem comportado - como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto? 
"Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno. 
"Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc." 
Posso garantir a fidelidade da cópia e aguardar com paciência as providências da municipalidade. 
Careta, 20-3-1920


Crônicas de Segunda na Usina: Erça de Queiroz: XV Londres, 21 de Maio [de 1878]:




XV Londres, 21 de Maio [de 1878] Há entre os provérbios diplomáticos um que diz: «Quando a França está descontente, a Europa está em perigo.» Pode-se dizer que quando a França está feliz, a Europa está tranquila: desde que a Exposição se abriu, e que a França celebra em Paris a sua grande festa de ressurreição, toda a Europa tem um tom mais calmo; corre uma aragem consoladora de paz e de conciliação, a mesma actividade de armamentos afrouxou e os homens de guerra e de rapina, os Bismarcks e os Gortschakoffs, aproveitam este intervalo sereno para curarem os seus reumatismos. Exala-se da Exposição, parece, uma emanação de concórdia, de trabalho, de civilização, que enche os espíritos de um salutar desejo de fraternidade e de paz. As espadas meio saídas recaem na bainha, as vozes irritadas de desafio adoçam-se em explicações plácidas, o czar humaniza-se, a Inglaterra desfranze a carranca e todo o mundo respira um vago aroma de folhas de oliveira, símbolos de paz. E a Exposição de Paris, é essa colossal acumulação de ciência, de arte, de indústria, que espalha em redor, na Europa, um influxo santo de serenidade. Paris, no fundo, é a grande capital da civilização; o seu messianismo é incontestável; o que ela pensa é-nos dogma, o que ela quer é-nos lei: o mundo instintivamente obedece-lhe: há nela não sei que graça magnetizadora, que forte ascendência espiritual a que se não resiste: a humanidade civilizada tem por ela um vago amor e deixa-se docemente tiranizar: se ela nos impõe a idiota canção C'est l'amant d’Amanda, protestamos primeiro, rimos depois. Terminamos todos por a cantar; se ela nos impõe uma ideia social, podemos um momento hesitar, acabamos todos por a servir: o que ela cria tem a nossa admiração certa, ou seja Offenbach ou seja Gambetta; ela exerce a fascinação de certos olhos de mulheres, cuja luz convence; hoje Paris quer a paz, e a Europa já não se atreve a fazer a guerra. Aqui, pelo menos, não se fala senão da Exposição: a ordem do dia é ir a Paris; os indivíduos que ainda murmuram algumas frases sobre a Bulgária, o Tratado de San Stefano, Constantinopla, etc., parecem obsoletos e caturras. Quem se ocupa do eslavo? Que significam essas antigualhas lúgubres? O que importa é chegar a Paris, saltar a um fiacre e abalar para o Trocadero! E o que atrai a Paris não é tanto admirar as maravilhas que o mundo lá reuniu, como ver a valente cidade outra vez feliz e triunfante; ver a formosa cabeça da França de novo levantada ao alto, depois de ter estado durante oito anos voluntariamente curvada para o chão. Há oito anos! Neste mesmo mês de Maio, franceses bateram-se contra franceses numa guerra feroz e fanática, sob os frios olhares dos Prussianos, que de redor, de braços cruzados, esperando sossegadamente os seus cinco milliards, viam, cofiando as barbas doutorais, Paris a arder! E sete anos depois, pagas todas as dívidas, libertado todo o território e reedificadas todas as ruínas, replantados todos os campos, a França está bastante de posse de si mesma, bastante rica, com vagares bastantes para dar ao mundo, na sua capital embelezada, a maior festa de civilização deste século. Valente nação! Diz-se que toda esta forte ressurreição é devida à república. Bom Deus, sejamos justos, é devida à França! É o seu imenso poder recuperativo, o seu génio, a sua laboriosidade, a sua ordem, a sua economia, a sua sábia previdência, que a habilitaram, depois de um curto espaço de recolhimento e de trabalho, a reaparecer à frente da civilização, mais forte, mais rica, mais inteligente, outra vez la belle France. E aparece-nos com uma feição que lhe não conhecíamos – nós os que fomos educados quando já o império estava feito – aparece-nos grave e alegre. Não perdeu nada de verve, e ganhou muito de reflexão: abandonou sobretudo um dos seus defeitos irritantes, a jactância – aquele alarde fanfarrão, retorcendo as guias e de mão na cinta, que fazia propor aos mais práticos, aos mais moderados, como Emile de Girardon, que não se batessem os Prussianos a tiro, mas a coronhadas, por desprezo! As felicitações da imprensa inglesa à França pela sua aleluia têm sido nobres, fraternais, profundas. A França tem-se enternecido. Mas o que a lisonjeou, o que a electrizou, foram as belas palavras do príncipe de Gales no banquete que lhe ofereceram em Paris os expositores ingleses. Respondendo à saúde que lhe fizera Lord Granville, dirigiu-se ao ministro das Obras Públicas de França, e disse-lhe: «Diga à França que a amo de todo o coração, que ninguém segue mais comovido a sua prodigiosa prosperidade e que a Inglaterra se regozija em concorrer para o esplendor da Exposição, feita no país que sobre todos estima, e a quem tanto deve. Estas frases foram cobertas por um hurra prodigioso dos trezentos expositores ingleses que se sentavam no banquete, que eram todos celebridades da aristocracia, da ciência, da arte, da indústria – e no outro dia ecoavam por toda a França. A alegria dos jornais republicanos foi imensa: em artigos comovidos, todos agradeceram as palavras mais amigas, e as primeiras que um príncipe estrangeiro dirige à França depois dos seus desastres. O Paris Journal, como um homem que a emoção sufoca e que põe todo o seu reconhecimento numa exclamação curta e balbuciada, imprimiu apenas em caracteres grossos: Merci, monseigneur! O facto é que o príncipe de Gales é hoje um dos homens mais populares da França. Paris adora-o; sem lhe fazerem as ovações, que a gravidade republicana não comporta, cercam-no, onde quer que vá, de uma simpatia comovida. Em Inglaterra mesmo, a satisfação pelo discurso do príncipe é grande. No fundo, se a Inglaterra tem uma simpatia, digamos um fraco, é a França. E ama-a desinteressadamente: a Inglaterra é um pais de raciocínio muito prático para sonhar quimeras, e supor que a França, porque um príncipe inglês ergue o seu copo de champanhe e lhe dirige em francês muito parisiense algumas palavras de simpatia pessoal no calor de um bom jantar – que a França vai, toda reconhecida, apoiar a Inglaterra nas suas pretensões ou nos seus interesses políticos. A Inglaterra, por exemplo, na questão do Oriente, não conta com a França; não espera nada dela, em circunstância alguma, a não ser naturalmente aquele alto apoio moral, a simpatia de espírito que se devem duas grandes nações que são no mundo responsáveis pelo progresso humano. O amor da Inglaterra à França (que se tem sempre desenvolvido desde 1830, mas que tomou uma feição mais íntima desde a queda do infecto império) tem bases seguras, com raízes no mesmo temperamento das duas nações, e é a garantia, creio, de uma longa paz entre elas. Em primeiro lugar estimam-se como dois velhos combatentes leais, que foram um para outro causa de grande glória: se a Inglaterra expulsou a França da Índia, a França promoveu e realizou a expulsão dos Ingleses da América; se Napoleão, durante dez anos, teve, através do continente, a Inglaterra em perpétuo échec, o leão britânico tomou a sua desforra em Waterloo; depois foram aliados na Crimeia e aliados na China. Mesmo combatendo-a, ou recusando-lhe o seu auxílio, a Inglaterra i5ez à França impagáveis serviços: em Waterloo desembaraçou-a de um tirano insensato; em 1870, deixando consumar o grande desastre, desembaraçou-a para sempre dos Bonapartes. Terminado o período da guerra, as relações comerciais das duas nações vizinhas cresceram a ponto que, sem uma, a outra faria bancarrota. O Inglês, que não sabe língua nenhuma, só condescende em aprender o francês; é por isso talvez que é a nação que mais visita; é raro o inglês que não tenha percorrido a França; socialmente, Paris é quase tanto a sua capital como Londres; se em Paris encontra a vivacidade, o brilho, a verve da vida que o seduz, na província encontra as sólidas qualidades que admira e sem as quais não concede a sua estima – as qualidades de trabalho, de virtude doméstica, de perseverança e de probidade. A França é o jardim de Inglaterra: e lá que o negociante vai descansar do tráfico da City, o fidalgo da monotonia da vida do campo, o professor dos trabalhos da escola, o clérigo da secura das missões. É a única nação que o baixo povo estima; french, frenchman, são as palavras com que a população designa o estrangeiro amável; quando as ruas, nalguma gala nacional, se empavezam e se adornam, a única bandeira europeia que se vê é a heróica tricolor; nos livreiros das mais pequenas vilas se vendem livros franceses. O inglês tem um reconhecimento profundo ao pais que produz o vinho de Borgonha; a inglesa é grata à terra que lhe manda as sedas de Lião. A gente menos educada, que não sabe qual é a forma de governo que rege a Espanha ou a Itália, está ao facto inteiramente da moderna história da França. Nas classes ilustradas, a história e a literatura francesas são tão familiares como a inglesa. Em todos os grandes jornais há diariamente um artigo de fundo sobre os negócios interiores da França; a campanha contra o ministério Broglie, o ano passado, era dirigida pelo Times. E a amizade da Inglaterra pela França é tão forte que lhe faz sacrifícios; há um ano que a Inglaterra é aconselhada, instada, persuadida, tentada a que ocupe o Egipto: e porque tem resistido? Para não ferir susceptibilidades francesas. O Daily Telegraph disse num artigo memorável: «Percamos todos os interesses, mas não desagrademos aos Parisienses.» E foi para agradar aos Parisienses que a Inglaterra mandou à Exposição o que em arte e indústria tinha de melhor, do passado e do presente. E a Inglaterra certamente que mais concorre para o esplendor da Exposição, e a Inglaterra inteira, como dizem os grandes jornais, falou pela boca do príncipe de Gales. Têm sido singularmente lamentáveis os sucessos do Lancashire, onde milhares e milhares de operários tecelões estão em greve. Os motivos desta greve são complicados e prendem-se com uma difícil questão de economia política. Em presença da grande depressão no comércio dos algodões e dos tecidos, os operários entendem que é necessário produzir menos para que os grandes depósitos existentes se esvaziem e o equilíbrio do mercado se restabeleça: os patrões entendem que é necessário produzir na mesma proporção anterior, mas que é indispensável baixar o preço da mão-de-obra. Esta desinteligência produziu uma greve, a maior que se tem dado em Inglaterra há cinquenta anos. Greve cuja especialidade bem triste foi a de que esteve próxima a tomar o aspecto de uma revolta. Os operários de Lancashire passaram sempre por serem os mais inteligentes, os mais sérios, os mais honestos, da grande população obreira da Inglaterra: numa semana, num momento de irritação, de vingança ou de desesperança, perderam esta nobre reputação. Hoje os jornais sérios consideram-nos «como a mais infecta populaça». Que se passou? Que os operários, em lugar de discutirem tranquilamente (como pediam jornais sérios) o meio de conciliar as suas divergências com os patrões, preferiram fazer uma pequena insurreição local com todos os incidentes típicos – janelas quebradas, polícia apedrejada, etc. Ao princípio, isto pareceu apenas um desabafo de temperamento exaltado: esperou-se que a razão voltaria, com ela a tranquilidade. Mas ou que a impassibilidade dos patrões diante desta manifestação de força os irritava; ou que pequenas desordens locais lhes dessem o apetite de uma verdadeira insurreição provincial; ou que uma multidão imensa de populaça vadia e ociosa se viesse reunir, na esperança dos proveitos que traz a anarquia, à massa mais séria dos operários, o facto é que o que começara por uma algazarra ia terminando numa revolução. As janelas quebradas levaram às portas arrombadas; depois de algumas pedradas atiradas à polícia vieram os tiros dados contra as tropas – e por todo o distrito que cerca Manchéster, durante três dias, reinou uma anarquia que lembra as clássicas guerras civis de Navarra. Manufacturas incendiadas, casas destruídas, lojas de bebidas saqueadas, patrões perseguidos a tiros, reclamações forçadas de dinheiro e de provisões, nada faltou para dar ao distrito de Manchéster o aspecto atroz de uma província em poder das hordas de Saballs ou de Dorregaray. No entanto, a feição típica deste sucesso é que os jornais radicais e liberais não só não se indignaram, mas nem sequer lamentaram: limitaram-se a contar secamente os ultrajes cometidos. Das associações operárias não saiu um único protesto contra estas desordens. E não se pode negar que a insurreição tenha nas classes radicais uma vaga, uma imponderável simpatia. Tropas rapidamente concentradas puseram, naturalmente, fim a este estado tumultuoso, e os patrões sentiram logo a necessidade de entrar em conciliação com os operários, que montam a mais de cem mil. Se esta conciliação se não fizer, creio que veremos graves acontecimentos. E muito bonito realmente falar na ordem, no respeito à propriedade, no sentimento de obediência à lei, etc., mas quando milhares de homens vêem a sua família sem lume na lareira, sem um pedaço de pão, os filhos a morrer de miséria, e ao mesmo tempo os patrões, prósperos e fartos, comprando propriedades, quadros, apostando nas corridas e dando bailes que custam centos de libras, bom Deus, é difícil ir falar aos desgraçados de regras de economia política e convencê-los que, em virtude dos melhores autores da ciência económica, eles devem continuar por alguns meses mais a comer vento e aquecer-se à cal das paredes!

Crônicas de Segunda na Usina: Lima Barreto: Tenho esperança que...:


Certas manhãs quando desço de bonde para o centro da cidade, naquelas manhãs em que, no dizer do poeta, um arcanjo se levanta de dentro de nós; quando desço do subúrbio em que resido há quinze anos, vou vendo pelo longo caminho de mais de dez quilômetros, as escolas públicas povoadas. 
Em algumas, ainda surpreendo as crianças entrando e se espalhando pelos jardins à espera do começo das aulas, em outras, porém, elas já estão abancadas e debruçadas sobre aqueles livros que meus olhos não mais folhearão, nem mesmo para seguir as lições de meus filhos. Brás Cubas não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria; eu, porém, a transmitiria de bom grado. 
Vendo todo o dia, ou quase, esse espetáculo curioso e sugestivo da vida da cidade, sempre me hei de lembrar da quantidade das meninas que, anualmente, disputam a entrada na Escola Normal desta idade; e eu, que estou sempre disposto a troçar as pretensões feministas, fico interessado em achar no meu espírito uma solução que satisfizesse o afã do milheiro dessas candidatas a tal matricula, procurando com isso aprender para ensinar, o quê? O curso primário, as primeiras letras a meninas e meninos pobres, no que vão gastar a sua mocidade, a sua saúde e fanar a sua beleza. Dolorosa coisa para uma moça... 
A obscuridade da missão e a abnegação que ela exige, cercam essas moças de um halo de heroísmo, de grandeza, de virtudes que me faz naquelas manhãs em que sinto o arcanjo dentro da minha alma, cobrir todas elas da mais viva e extremada simpatia. Eu me lembro também da minha primeira década de vida, de meu primeiro colégio público municipal na rua do Resende, das suas duas salas de aula, daquelas grandes e pesadas carteiras do tempo e, sobretudo, da minha professora - Dona Teresa Pimentel do Amaral - de quem, talvez se a desgraça, um dia, enfraquecer-me a memória não me esqueça de todo. 
De todos os professores que eu tive, houve cinco que me impressionaram muito; mas é, dela que guardo mais forte impressão. 
O doutor (assim o tratávamos) Frutuoso da Costa, um deles, era um preto mineiro, que estudara para padre e não chegara a ordenar-se. Tudo nele era desgosto, amargor; e, as vezes, deixávamos de analisar a Seleção, para ouvirmos de sua feia boca histórias polvilhadas dos mais atrozes sarcasmos. Os seus olhos inteligentes luziam debaixo do pince-nez e o seu sorriso de remoque mostrava os seus dentes de marfim de um modo que não me atrevo a. qualificar. O seu enterro saiu de uma quase estalagem. 
Um outro foi o Senhor Francisco Varela, homem de muito mérito e inteligente, que me ensinou História Geral e do Brasil. Tenho uma notícia de polícia que cortei de um velho Jornal do Comércio de 1878. Desenvolvida com a habilidade e o savoirfaire daqueles tempos, contava como foi preso um sujeito por trazer consigo quatro canivetes. "Explorava-a", como diz hoje nos jornais, criteriosamente o redator dizendo que “ordinariamente basta que um homem traga consigo uma única arma qualquer para que a polícia ache logo que deve chamá-lo a contas". Isto era naquele tempo e na Corte, pois o professor Chico Varela usava impunemente não sei quantos canivetes, quantos punhais, revólveres; e, um dia, apareceu-nos com uma carabina. Era no tempo da Revolta. Gabava-se, no que tinha muita razão, de ser parente de Fagundes Varela; mas sempre citava a famosa metáfora de Castro Alves, como sendo das mais belas que conhecia: “Qual Prometeu tu me amarraste um dia"... 
Era um belo homem e, se ele ler isto, não me leve a mal. Recordações de menino... 
Foi ele quem me narrou a lenda dos começos da guerra de Tróia, que, como sei hoje, é da autoria de um tal Estásinos de Chipre. Parece que é fragmento de um poema deste, conservado não sei em que outro livro antigo. O filho do rei de Tróia, Páris, foi chamado a julgar uma contenda entre deusas, Vênus, Minerva e Juno. 
Houvera um banquete no céu e a Discórdia, que não havia sido convidada, para vingar-se, atirou um pomo de ouro, com a inscrição – “À mais bela". Páris, chamado a julgar quem merecia o prêmio, entre as três, hesitou. Minerva prometia-lhe a sabedoria e a coragem; Juno, o poder real e Vênus... a mulher mais bela do mundo. 
Aí, ele não teve dúvidas: deu o “pomo" à Vênus. Encontrou-se com Helena, que era mulher do rei Menelau, fugiu com ela; e a promessa de Afrodite foi cumprida. Menelau não quis aceitar esse rapto e declarou guerra com uma porção de outros reis à Tróia. Essa história é da mitologia; pois hoje me parece do catecismo. Naqueles dias, ela me encantou e fui da opinião do troiano; atualmente, porém, não sei como julgaria, mas certo não desencadearia uma guerra por tão pouca coisa. 
Varela contava tudo isto com uma eloqüência cheia e entusiasmo, de transbordante paixão; e, ao me lembrar ele, comparo-o sempre com o doutor Ortiz Monteiro, que foi meu lente, sempre calmo, metódico, não perdendo nunca um minuto para não interromper a exposição da sua geometria descritiva. A sua pontualidade e o seu amor em ensinar a sua disciplina faziam-no uma exceção no nosso meio, onde os professores cuidam pouco nas suas cadeiras, para se ocuparem de todo outro qualquer afazer. 
De todos eu queria também falar da Senhor Oto de Alencar, mas que posso eu dizer da sua cultura geral e profunda, da natureza tão diferente da sua inteligência da nossa inteligência, em geral? Ele tinha alguma coisa daqueles grandes geômetras franceses que vêm de Descartes, passam por d'Alembert e Condorcet, chegam até nossos dias em Bertrand e Poincaré. Podia tocar em tudo e tudo receberia a marca indelével do seu gênio. Entre nós, há muitos que sabem; mas não são sábios. Oto, sem eiva de pedantismo ou de insuficiência presumida, era um gênio universal, em cuja inteligência a total representação científica do mundo tinha lhe dado, não só a acelerada ânsia de mais, saber, mas também a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas ou gafanhotos. Ela não é uma deusa que possa gerar inquisidores de escalpelo e microscópio, pois devemos sempre julgá-la com a cartesiana dúvida permanente. Não podemos oprimir em seu nome. 
Foi o homem mais inteligente que conheci e o mais honesto de inteligência. 
Mas, de todos, de quem mais me lembro, é de minha professora primária, não direi do "a-b-c", porque o aprendi em casa, com minha mãe, que me morreu aos sete anos. 
É com essas recordações em torno das quais esvoaçam tantos sonhos mortos e tantas esperanças por realizar, que vejo crepitar esse matutino movimento escolar; e penso nas mil e tantas meninas que todos os anos acodem ao concurso de admissão à Escola Normal. 
Tudo têm os sábios da Prefeitura imaginado no intuito de dificultar a entrada. Creio mesmo que já se exigiu Geometria Analítica e Cálculo Diferencial, para crianças de doze a quinze anos; mas nenhum deles se lembrou da medida mais simples. Se as moças residentes no Município do Rio de Janeiro mostram de tal forma vontade de aprender, de completar o seu 
curso primário com um secundário e profissional o governo só deve e tem a fazer uma coisa: 
aumentar o número das escolas de quantas houver necessidade. 
Dizem, porém, que a municipalidade não tem necessidade de tantas professoras, para admitir cerca de mil candidatas a tais cargos, a despesa, etc. Não há razão para tal objeção, pois o dever de todo governo é facilitar a instrução dos seus súditos. 
Todas as mil que se matriculassem, o prefeito não ficava na obrigação de fazê-las professoras ou adjuntas. Educá-las-ia só se estabelecesse um processo de escolha para sua nomeação, depois que completassem o curso. 
As que não fossem escolhidas, poderiam procurar o professorado particular e, mesmo como mães, a sua instrução seria utilíssima. 
Verdadeiramente, não há estabelecimentos públicos destinados ao ensino secundário às moças. O governo federal não tem nenhum, apesar da Constituição impor-lhe o dever de prover essa espécie de ensino no Distrito. Ele julga, porém, que só são os homens que necessitam dele; e mesmo os rapazes, ele o faz com estabelecimentos fechados, para onde se entra à custa de muitos empenhos. 
A despesa que ele tem, com os Ginásios e o Colégio Militar bem empregada daria para maior número de externatos, de liceus. Além de um internato no Colégio Militar do Rio, tem outro em Barbacena, outro em Porto Alegre, e não sei se projetam mais alguns por aí. 
Onde ele não tem obrigação de ministrar o ensino secundário, ministra; mas aqui, onde ele é obrigado, constitucionalmente, deixa milhares de moças a impetrar a benevolência do governo municipal. 
A municipalidade do Rio de Janeiro que rende cerca de quarenta mil contos ou mais, podia ter há muito tempo resolvido esse caso; mas a política que domina a nossa edilidade não é aquela que Bossuet definiu. A nossa tem por fim fazer a vida incômoda e os povos infelizes; e os seus partidos têm por programa um único: não fazer nada de útil. 
Diante desse espetáculo de mil e tantas meninas que querem aprender alguma coisa, batem à porta da Municipalidade e ela as repele em massa, admiro que os senhores que entendem de instrução pública, não digam alguma coisa a respeito. 
E creio que não é fato insignificante; e, por mais que fosse e capaz de causar prazer ou dor à mais humilde criatura, não seria demasiado insignificante para não merecer a atenção do filósofo. Creio ser de Bacon essa observação. 
O remédio que julgo tão simples, pode não sê-lo; mas, espero despertar a atenção dos entendidos e serão eles capazes de achar um bem melhor. Ficarei muito contente e tenho esperança que tal se dê. 
Bagatelas, 3-5-1918 



Crônicas de Segunda na Usina: Machado de Assis:15 DE JUNHO DE 1863:


Confirma-se a notícia da morte de João Francisco Lisboa, mais conhecido pelo pseudônimo de Timon. Faleceu em Lisboa, no dia 25 de abril, na idade de 49 anos, deixando ao nosso país a glória de um nome respeitado entre os mais eminentes. Todos os que conhecem seus escritos dispensam da minha parte uma enumeração dos seus raros e elevados dotes, de seus profundos e sólidos estudos. A sua obra sobre o Padre Antonio Vieira virá confirmar a alta conta em que o tinham os seus compatriotas e todos quantos apreciam as boas letras. 

Dizem que J. F. Lisboa se dispunha a escrever a história do Brasil para o que coligia documentos. É realmente para doer que a morte o viesse arrebatar antes de realizada essa tarefa. As páginas da história brasileira receberiam deste modo aquela robustez de estilo e alta apreciação que faziam supor nas mãos de Timon a pena de Tácito. 
Os seus escritos vão ser publicados a expensas de Sua Majestade o Imperador. 
A morte de J. F. Lisboa deve contristar por mais de um motivo. Não é só a perda de tão ilustre brasileiro que há a sentir, senão também o medíocre efeito que esse triste acontecimento produziu. Como há muito mais de que falar, com um livro termino este escasso capítulo. O livro é o 2.° volume das lições de história pátria do Sr. Dr. Macedo. Sabem todos que o excelente poeta da Nebulosa estuda e sabe a fundo a história nacional, a que se dedica como um homem que lhe conhece a importância. Estes livros são destinados ao uso da mocidade. 
Os que estimam as letras vão ter ocasião de apreciar uma novidade no país e ao mesmo tempo vão ter conhecimento de obras inéditas de autores conhecidos e estimados. Os meus leitores hão de lembrar-se de uma carta que publiquei, escrita pelo Sr. A. de Pascual ao Sr. Zaluar. 
Era um convite para instituir leituras públicas ao uso da Inglaterra e Alemanha. Não se efetuou a reunião necessária e anunciada, e as leituras não se fizeram como fora de desejar. Entretanto a idéia ficou, e o Sr. Zaluar pretende realizá-la dentro de poucos dias. O primeiro curso é de seis leituras, como simples ensaio, a ver se o nosso público possui a necessária atenção, concentração e gosto para diversões dessa natureza. 
Não desejo outra coisa mais do que o bom resultado da tentativa, a respeito da qual devem caber muitos louvores ao poeta das Revelações. 
A imprensa conta mais um legionário, mas legionário tal que me coloca em uma difícil posição sobre o que lhe direi. O Sr. L. de Nerciat acha-se a frente de um jornal francês intitulado Le Nouvelliste de Rio de Janeiro. Suas vistas acerca do Brasil são, como declara, as mais cordatas e bem dispostas. É, entretanto, um órgão do partido legitimista, cuja bandeira hasteou, sem rebuço ou reserva. Ora, semelhante bandeira nesta terra faz o efeito do calção e meia de seda entre as calças largas da civilização. A discussão dessas idéias destina-se unicamente à população francesa; mas, não interessando, nem pela singularidade, ao resto da população e nem a uma boa parte daquela, não creio no sucesso do Nouvelliste. 
Seja-lhe, entretanto, levada em conta a sua boa vontade a nosso respeito. Ponham-se de parte aquelas convicções; a pena do Sr. De Nerciat deseja acertar no estudo de nossas coisas. Se puder conservar a separação devida entre os dois objetos a que se destina a sua gazeta, terá a gratidão de todos, certos como estão todos de que, em terra americana, as suas opiniões antiquadas não convencem nem arrastam ninguém. 
Está o bispado do Rio de Janeiro acéfalo. Faleceu na idade de 65 anos o Sr. D. Manoel do Monte Rodrigues de Araujo, conde de Irajá, autor de várias obras de teologia e moral. É coisa, que todos sabem. O que ninguém ainda sabe é sobre quem recairá a escolha do governo para substituir o finado prelado. 
Essa escolha será das mais difíceis; precisa-se de um prelado altamente enérgico e ilustrado, que se compenetre da sua missão e faça do clero aquilo que ele não é; um prelado cuja força possa esmerilhar nesse corpo mais fanático que religioso, mais intolerante que instruído, os elementos puros ou aproveitáveis e com eles empreender a obra árdua de uma regeneração. 
Tenho fugido hoje ao enlace dos períodos e faço nos assuntos verdadeiros saltos mortais. Assim o pede a hora. 
Foi o leitor ouvir o Sr. Croner? Perdeu se não foi. Este artista que como é sabido, foi buscar em Londres a consagração do seu talento, justificou os juízos anteriores. 
Em um instrumento tão ingrato como é o clarinete, sabe o Sr. Croner despertar as mais gratas harmonias. Pelo que respeita aos segredos da arte, ouvi a seu respeito honrosas palavras. O Sr. Croner pretende dar ainda um concerto, depois do que irá ao Rio da Prata. 
Se o leitor é curioso, e ainda não ouviu o Sr. Croner, vá, no dia 19 ao Ginásio. 
Terminarei transcrevendo para aqui a Carta que o nosso ilustre poeta Gonçalves Dias escreveu de Dresde ao Dr. Antonio Henrique Leal, no Maranhão: 
“Desde o começo deste ano que estou lutando com um ataque de reumatismo, que me tem feito ver as estrelas e esgotado a pouca soma de paciência com que Deus foi servido dotar-me. Há dois dias que não me levanto, mal posso andar de fraqueza e escrevo com dificuldade.” 
“Assim, pois, antes de partir para Carlsbad, a fim de consertar o meu fígado e de ver se me desaparece um resto de ascite que me ficou, tenho de ir aos banhos de Tiplitz, aqui nas vizinhanças de Dresde, a ver se as minhas juntas querem tomar juízo.” 
“Todo o ano passado foi perdido para mim, e este vai ainda pelo mesmo teor: levanto-me da cama agora. Maio passo em Tiplitz, junho e julho em Carlsbad, depois mais um, ou dois meses de resguardo, lá se vai o ano.” 
”Quando me convencer de que isto não ata nem desata, tomo uma resolução, o adeus. Vou-me para o nosso Maranhão até que os tempos mudem, se mudarem.”

Crônicas de Segunda na Usina: Machado de Assis: 1º DE JUNHO DE 1863:



O Jornal de Recife deu-nos duas notícias importantes, com a diferença de alegrar- nos a primeira tanto quanto nos contrista a segunda; refiro-me às melhorias de saúde de Gonçalves Dias e a morte de J. F. Lisboa, verdadeira a última ou não passa de deplorável engano? É lícito duvidar da exatidão dela, e, sem ofensa a folha pernambucana, deve-se esperar uma confirmação mais positiva. Não é que o fato seja impossível; mas o silêncio da imprensa portuguesa a respeito, silêncio impossível, a ter-se dado o caso, abre lugar à dúvida. Mau era se a indiferença de um país amigo e irmão fosse a única elegia que tivesse na morte um homem tão ilustre como o autor do Jornal de Timon. 
Pelo que respeita a Gonçalves Dias, a mesma folha se refere a uma carta do poeta. Os seus sofrimentos não desapareceram de todo, nem deixam de ser grandes; mas o ilustre poeta está fora de perigo. Escreve de Dresde, e ia partir para Carlsbad, a fim de tomar banhos minerais. A esta notícia acrescenta que tem em mãos vários trabalhos literários que pretende mandar imprimir em Leipzig. Doente embora, o grande cantor nacional emprega a sua atividade em encher de novas jóias o seu já tão farto escrínio literário. Belo exemplo esse à mocidade de hoje, a quem pertence o futuro do país. É deste modo que o talento é sacerdócio. Que importa o labor de uma longa semana? Há, para muito descanso, o domingo da imortalidade. 
Falando dos moços e indicando-lhes tal exemplo, devo mencionar, entre outros nomes, o do Sr. Bruno Seabra, mavioso poeta paraense, a quem já os leitores conhecem sem dúvida por suas delicadas composições. Acaba ele de chegar da Europa para onde partira há oito ou nove meses. Demorou-se em Paris a maior parte do tempo, aplicando como melhor pôde, a sua aptidão e o seu desejo de saber. Entre outras composições, trouxe já, impressa uma comédia em um ato, que intitulou: Por direito de Patchouly. O título indica o assunto: é a vitória do néscio cheiroso na luta com o homem chão e sisudo, coisa que se vê todos os dias, mas que o poeta reduziu a um ato chistoso, fácil, epigramático, original. Tem Bruno Seabra boas qualidades para o gênero, e a sua estréia, se alguma coisa tem de menos, apresenta já, uma boa amostra do que ele pode fazer se não parar neste primeiro trabalho. Estou certo de que o autor das Flores e Frutos corresponderá à justiça que lhe faço, e trabalhará como lhe cumpre na medida do seu belo talento. 
Em São Paulo publicou o Sr. Luiz Ramos Figueira, bacharel e estudante do 4.º ano de Direito, um volume a que deu por título Dalmo ou os Mistérios da noite. 
Em boa justiça devem-se louvores ao Sr. Figueira. Se a sua obra acusa descuidos, revela qualidade de imaginação e de apreciação; há nela muitas belezas derramadas por muitas páginas. Uma boa crítica não pode deixar de acolher a obra do Sr. Figueira como um presente que promete outros muitos, e a isso fica virtualmente emprazado o leitor. 
Pertence o Sr. Figueira à mocidade acadêmica de São Paulo, onde os moços sabem entremear os estudos jurídicos com os literários, e não esquecem a vocação do berço pelo labor do curso acadêmico. 
E já que estou no capítulo dos moços, falarei de um, verdadeira criança, não tanto pelos anos, como pela ingenuidade do coração e do espírito. É nada menos que um poeta. Se lhe falta a beleza da forma, sobra-lhe o sentimento da poesia, que é o essencial e o que não se adquire. 
Quem pode alcançar dinheiro de um usurário? Este é um usurário das musas, e para alcançar os versos que abaixo transcrevo, foi-me preciso surpresa. Ainda assim custou-me convencê-lo depois de que devia publicá-los. Consentiu sob condição de lhe não publicar o nome. Anuí. Os versos não são originais; são traduzidos de um poeta da Rumania. Não são perfeitos, mas são agradáveis de ler: 
Sincero amor tu me juraste um dia Até que a morte te deitasse o véu; Tudo passou, tudo esqueceste, tudo, Coisas do mundo, o erro não é teu. 
“Ó meu amado, me disseste, eu quero, Eu quero dar-te meu quinhão do céu!” Dessas promessas olvidaste todas. 
Coisas do tempo, o erro não é teu! 
Sabes que pranto derramei no dia Em que juraste o teu amor ao meu; 
Morri por ti, tu me esqueceste, embora, Coisas do sexo, o erro não é teu. 
Mudo abracei-te; teu ardente lábio Celeste orvalho sobre mim verteu; Veio depois a gota de veneno... 
Coisas do sexo, o erro não é teu. 
Tudo, a virtude, o amor, a fé, a honra, Tudo o que prometias, te esqueceu; Ah! nem remorsos nem amor conheces. Coisas do sexo, o erro não é teu! 
A lei do ouro e da banal vaidade Dessa tua alma fé e amor varreu; Curaste a chaga, amorteceste a sede, Coisas do sexo, o erro não é teu. 
Pesar de tudo, o coração amante Há de bater de amor no peito meu 
Ao pressentir-te. Ficas sempre um anjo... Coisas do amor, o erro não é teu! 
O meu poeta procurou conservar a mais estrita fidelidade. Não vi o original e não pude comparar; mas há expressões, que ele próprio indica, e que são verdadeiras belezas do original; aquele verso. 
Curaste a chaga, amorteceste a sede é uma delas. 
Parece-me a poesia graciosa, e como tal a ofereço aos leitores. 
O meu poeta, esse, encerrado na sua torre de marfim, adormece e procura esquecer-se, poetando para si. Não louvo nem condeno a reclusão voluntária; admiro e lastimo. 
Para concluir estas linhas, lançadas ao papel em uma época de verdadeiro fastio para mim, menciono o fato que há muito se não repete de uma reunião, tanto ou quanto numerosa, de artistas nesta Corte. Veio do sul Arthur Napoleão; de Lisboa, o Sr. Croner, clarinete, que teve em Londres o sucesso mais lisonjeiro que pode ter um artista, o da consagração entusiástica da crítica refletida e competente. Acrescentem-se a esses — outros, filhos do país ou estrangeiros aqui residentes e cujos nomes todos sabem. Se há ocasião para concertos é esta. Se cada um deles der a sua festa artística pode haver muitas e relativamente esplêndidas. No Lírico o barítono Celestino e o soprano Briol são aplaudidos pelos diletantes, e nomeadamente no Rigoletto, onde agradaram. Acrescente-se ainda que esta, a chegar uma companhia de ópera cômica francesa e terá se completado assim o capítulo da música. E eu termino este pedindo escusa da minha avidez. 
Post-scriptum. 
Já estava composta a crônica quando recebi uma notícia que me confirma nas esperanças de uma boa estação musical. Arthur Napoleão oficiou a comissão da subscrição nacional oferecendo os seus serviços em favor dos fins para que ela se organizou. Naturalmente a oferta será aceita. É inútil repetir o que em todos desperta este ato cavalheiresco do distinto pianista.

sábado, 26 de novembro de 2022

Domingo na Usina: Biografias: Peregrino Júnio:



Peregrino Júnior (João Peregrino Júnior da Rocha Fagundes), jornalista, médico, contista e ensaísta, nasceu em Natal, RN, em 12 de março de 1898, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 23 de outubro de 1983.
Era filho de João Peregrino da Rocha Fagundes, professor de Línguas e Matemática, e de Cornélia Seabra de Melo. Fez o curso primário no Colégio Diocesano Santo Antônio e no Grupo Escolar Augusto Severo, os estudos secundários no Ateneu Rio-Grandense, cursando ao mesmo tempo a Escola Normal. Ainda estudante exerceu grande atividade jornalística. Ele próprio lançou A Onda, jornal em que escreveu um artigo contra o diretor da Escola Normal e professor do Ateneu, que provocou enorme celeuma e custou-lhe a saída do colégio. Ainda em Natal, funda mais dois jornais: A Gazeta de Notícias e O Espectador.
Proibido de estudar na sua cidade, mudou-se em 1914 para Belém, onde terminou o curso secundário no Ginásio Pais de Carvalho. Em A Folha da Tarde ocupou, gradativamente, as funções de suplente de revisor, repórter de polícia e redator. Trabalhou, ainda, em A Tarde e A Rua, além de secretariar A Semana. Fundou e dirigiu A Guajarina, antes de iniciar os estudos de Medicina. Aprimorou sua formação literária, mergulhado nos preceitos filosóficos e nas leituras de Nietzsche e Bergson, mas logo se concentra nos clássicos portugueses e nos românticos Herculano, Garrett e Castilho.
Em 1920 fixou-se no Rio de Janeiro, mais precisamente na Glória, numa pensão de estudantes e candidatos a escritores. Trabalhou na imprensa, como escrevente na Gazeta de Notícias, e começou a produzir literatura. Trabalhou por um tempo na Central do Brasil, onde teve como companheiro de trabalho Pereira da Silva, a quem sucedeu na Academia.
Em 1926, casou-se com a cunhada do poeta Ronald de Carvalho, D. Vanda Acioly. De 1928 a 1938 publicou sua obra literária de ficção e de crítica. Após uma interrupção de mais de 20 anos, retomou os trabalhos e voltou a publicá-los, em 1960, com uma nova edição de Histórias da Amazônia, acrescida de novelas inéditas, inclusive “A mata submersa”. Organizou uma antologia de Ronald de Carvalho e escreveu ensaios sobre José Lins do Rego, Graciliano Ramos e estudos sobre temas da literatura brasileira.
Formou-se em Medicina em 1929, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Iniciou como interno da 20ª Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia (Serviço do Professor Antônio Austregésilo) uma carreira médica longa e bem-sucedida, como médico adjunto da Santa Casa; chefe da 41ª Enfermaria do Hospital Estácio de Sá; fundador e diretor do Serviço de Endocrinologia da Policlínica do Rio de Janeiro; docente de Clínica Médica e de Biometria da Faculdade Nacional de Medicina, onde chegou a catedrático; e também professor da Faculdade Fluminense de Medicina e professor emérito da Universidade do Brasil. Durante 18 anos, foi membro do Conselho Universitário. Foi fundador e o primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Biotipologia e Nutrição; diretor-presidente da Policlínica Geral do Rio de Janeiro; chefe da Divisão de Assistência Médico-Hospitalar do IPASE, entre outros cargos.
No terreno esportivo, além de professor e diretor da Escola Nacional de Educação Física, também foi membro do Conselho Nacional de Desportos.
Sua inclinação para as letras e o jornalismo nunca o deixou. Além da Gazeta de Notícias, escreveu para O Jornal, Rio Jornal, O Brasil, A Notícia, Careta, ganhando grande nomeada, sobretudo como cronista e como colaborador de numerosas revistas literárias e científicas do Brasil e do estrangeiro. Representou o Brasil em inúmeros conclaves internacionais, como as Comemorações Cervantinas (Espanha, 1946), os Colóquios Luso-Brasileiros de Lisboa (1958), as Conferências de Cooperação Intelectual de Santander (1957) e Granada (1958). Foi membro do Conselho Federal de Educação, do Conselho Federal de Cultura, presidente da UBE (União Brasileira de Escritores), membro titular da Academia Nacional de Medicina e membro da Sociedade Argentina para o Progresso da Medicina Interna, da Academia das Ciências de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia.
Sexto ocupante da cadeira 18, foi eleito em 4 de outubro de 1945, na sucessão de Pereira da Silva, e recebido pelo acadêmico Manuel Bandeira em 25 de julho de 1946. Recebeu o Acadêmico Odilo Costa, filho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1956 e 1957.

fonte de origem:

https://www.academia.org.br/academicos/peregrino-junior/biografia

Domingo na Usina: Biografias: Joaquim Caetano da Silva:


 

Joaquim Caetano da Silva, professor, diplomata, publicista, nasceu em Jaguarão, RS, em 2 de setembro de 1810, e faleceu em Niterói, RJ, em 28 de fevereiro de 1873. É o patrono da cadeira n. 19, por escolha do fundador Alcindo Guanabara.

Cadeira: 
19
Posição: 
Patrono
Data de nascimento: 
2 de setembro de 1810
Naturalidade: 
Jaguarão - RS
Brasil
Data de falecimento: 
28 de fevereiro de 1873
Local de falecimento: 

Domingo na Usina: Biografias: Ángel Rupérez:


 

Ángel Rupérez (n. Burgos ; 1953 ) é um poeta, crítico e tradutor espanhol, doutor em Filosofia e Letras e professor de Teoria da Literatura na Universidade Complutense de Madrid . Publicou seus primeiros livros na Editora Trieste , dirigidos por Valentín Zapatero e Andrés Trapiello . 
Em 1988 conheceu e fez amizade com o poeta Claudio Rodríguez , a quem sempre admirou por sua integridade pessoal e gênio poético. Em 1990, Rodríguez o convidou a ler poemas do ato poético Leitura no Palácio Real, junto com Ángel González , Antonio Gamoneda , Juan Carlos Suñén e Luis García Montero . Nesse mesmo ano passou a colaborar no jornal El País , tarefa que não abandonou desde então. Seu livro Conversação em junho (1992) foi finalista do Prêmio Nacional de Poesia , do poeta José Ángel Valente. O seu trabalho crítico tem realizado diversos meios de comunicação, como, para além do El País , o já extinto Diario 16 e as revistas Insula , Revista de Occidente e Boletim da Fundação García Lorca , entre outros. 
Obra literária e crítica 
Poesia 

Em outro coração (Trieste, Madrid, 1983) 

Folhas secas (Trieste, Madrid, 1985) 

Conversa em junho [finalista do Prêmio Nacional de Poesia] (El banquete, Madrid, 1992) 

O que meus olhos viram (El banquete, Madrid, 1993) 

Uma razão para viver (Tusquets, Barcelona, ​​1998) 

Rio eterno (Calambur, Madrid, 2006) 

Surpreso com a alegria (Bartleby, Madrid, 2012) 

Morrer em Hiroshima (Evohé, 2019) 

Traduções 

Lírica em inglês do século 19 (Trieste, Madrid, 1987 e Homo Legens, 2ª ed. Corrigida e ampliada, Madrid, 2007) 

Antologia Essencial da Poesia Inglesa (Espasa, Coleção Austral, Madrid, 2000) 

Romance 

Vidas de outros (Debate, Madrid, 2002) 

Sensação de vertigem (Izana, Madrid, 2012) 

Livros de histórias 

As lágrimas necessárias (Izana, Madrid, 2016). 1 

Ensaio 

Sentimento e criação (Trotta, Madrid, 2007) 

Antologias 

Claudio Rodríguez. Poemas escolhidos (Mondadori, Madrid, 1992) 

Luis Cernuda. Antologia Poética (Espasa, Coleção Austral, Madrid, 2002) 

Claudio Rodríguez. Antologia Poética (Espasa, Coleção Austral, Madrid, 2004) 

Francisco Brines. Antologia Poética (Espasa, Coleção Austral, Madrid, 2006) 

Estudos críticos 

"Prólogo" para a Lírica Inglesa do século 19 (op. Cit.) 

"Vida para sempre", prólogo de Claudio Rodríguez. Poemas escolhidos (op. Cit.) 

"Uma temporada na casa da poesia inglesa", prólogo de Essential Anthology of English Poetry (op. Cit.) 

“O mundo como meditação”, prólogo de Luis Cernuda. Antologia Poética (op. Cit.) 

"Onde está sendo coalhado", prólogo de Claudio Rodríguez. Antologia Poética (op.cit.) 

"Paradise Lost", prólogo de Francisco Brines. Antologia Poética (op.cit.) 

"Hágase", comentário sobre o poema "Sin epitafio", de Claudio Rodríguez, in Philip W. Silver (ed.), Canal El rumoroso. Novas leituras de Claudio Rodríguez (Foam Pages, Madrid, 2010) 

Antologias em que sua obra poética tem aparecido 

20 anos de poesia. Novos textos sagrados, 1989-2009 (Tusquets, Barcelona, ​​2009) 

Traduções de sua poesia para outros idiomas 

Ao italiano : Miguel Salas Díaz (ed.), Con giogia e con tormento. Poesie autografe di autori spagnoli contemporanei (Raffaelli Editore, Rimini, 2006) 

Para o português : Joaquim Manuel Magalhães (ed.), Poesia Espanhola de Agora (Relógio D'Agua Editores, Lisboa, 1997) 

Para o inglês , traduzido por Joan Lindgren, na revista Faultline. Jornal de Arte e Literatura , vol. 12, (University of California, Irvine, 2003).
fonte de origem:

Domingo na Usina: Biografias: Juan Manuel Bonet Planes:


 Juan Manuel Bonet Planes (Paris, 1953) é um crítico, historiador de arte e poeta espanhol de língua castelhana, autor do Diccionario de las Vanguardias en España (1907-1936) e de uma poesia que transita entre o tradicional e o vanguardista. É considerado o especialista em pintura mais importante da Espanha atualmente[1]. É tradicional colaborador de jornais como ABC e El País.
Biografia
Mais conhecido como crítico de arte, Juan Manuel Bonet foi um pensador precoce, publicando seus primeiros artigos sobre arte aos 15 anos de idade e tendo se tornado diretor do "Centro de Arte Reina Sofia" de Madri[2]. Bonet chegou a Madrid em 1973, depois de sua passagem pelo centro de arte M-11 de Sevilha. 
Nesta época, era um radical de esquerda, e se notabilizou por sua colaboração ao jornal espanhol El País e sua atuação junto aos artistas da galeria underground de arte "Buades"[3]. 
Responsável por numerosas exposições de arte e literatura de relevo internacional em sua carreira profissional, foi curador de mostras, entre outros grandes artistas, das obras de Tarsila do Amaral. Também foi diretor do "Instituto Valenciano de Arte Moderna" e da revista de poesia e gravura "Estación central"[4]. Hoje, em sua residência possui mais de uma centena de quadros de artistas reconhecidos na parede. 
Poética 
Defininindo-a como impressionista, o autor produz uma poesia que mistura várias estéticas tradicionais e modernas, de uma forma, porém, muito concisa, às vezes minimalista. 
Ligada à percepção dos sentidos, sua poesia, frequentemente, a serviço de uma impressão fugitiva, cria uma paisagem urbana e, às vezes, intimista, registrando sempre um momento preciso, mesmo de forma imprecisa, como um quadro intra-histórico impressionista elaborado em poucas pinceladas[5]. 
Já na obra "Praga. Doce poemas de Pavel Hrádok en versión de J.M.B.", usando uma "linguagem telegráfica" à moda futurista, porém com uso de pontuação, como o fazia W. H. Auden, com um efeito semelhante à montagem cubista, Bonet recria um cenário de outra época, através da suposta obra lírica de um poeta tcheco fictício, que teria vivido entre 1907 e 1953, em um ambiente sombrio e sem liberdade de expressão sob o regime totalitário stalinista reinante na Europa Oriental de então, fazendo lembrar da temática dos poemas de Reiner Kunze. 
Obra 
Além de ser autor de numerosos ensaios sobre arte e de 6 livros de bibliofilia, escreveu poesia, anotações e um dicionário de arte vanguardista. 
Poesia 

La patria oscura - 1983 

Café des exilés - 1990 

Última Europa - 1990 

Praga. Doce poemas de Pavel Hrádok en versión de J.M.B. - 1994 

Postales - 2004 

Polonia-Noche - 2009 

Livro de notas 

La ronda de los días - 1990 (notas breves, tratadas por muitos observadores como poemas)[6] 

Teoria 

Diccionario de las Vanguardias en España (1907-1936) - 1995.

fonte de origem:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Juan_Manuel_Bonet

Domingo na Usina: Biografias: Miguel Casado:

 




Miguel Casado ( Valladolid , 1954 ) é um poeta , crítico literário e tradutor espanhol. 
Biografia 
Ele nasceu em Valladolid em 1954 e vive em Toledo desde 1996. Seu extenso trabalho como escritor desenvolveu-se paralelamente na poesia, ensaios e crítica literária e tradução. É casado com o poeta asturiano Olvido García Valdés . 1 
Como poeta, recebeu o Prêmio Hyperion em 1987. Seus textos foram publicados em francês, inglês, alemão, português, holandês e árabe. 
Como crítico, preparou edições de Antonio Gamoneda , José-Miguel Ullán ou Vicente Núñez e publicou, ao longo de quase três décadas, suas reportagens ou ensaios em jornais e revistas como El País , Diario 16 , ABC , La Vanguardia , El Norte de Castilla , Arquipélago , Hispano - cadernos americanos , o tetraz , Insula , cadernos Norte , Revista de Libros , mais um anjo , espaço / espaço escrito ,A alegria dos naufrágios , Revista Ocidental , La Balsa de la Medusa ... , na Vuelta mexicana , O Poeta e sua Obra , Jornal de Poesia , Fractal ou Cartas Livres , no Diario de Poesía argentino , o Hueso úmero peruano , a revista francesa Littéraire , Europe ou Nouveau Recueil , a English Agenda , a italiana Soglie ou a portuguesa A Phala . 
De sua intensa atividade editorial e cultural, destaca-se a participação em revistas: desde 1981 codiretor de Los Infolios , foi membro do conselho editorial de El signo del gorrión ao longo de sua carreira e do comitê permanente da revista hispano-portuguesa Hablar / Falar de Poesia . Dirigiu a coleção de livros de ensaio Dossoles-Crítica. Foi membro do grupo "Estudios de Poética". Co-dirigiu com Olvido García Valdés o ciclo "Poetas para pensar o século", realizado no Círculo de Bellas Artes de Madrid, entre 2001 e 2004, e dirigiu e ministrou diversos workshops, seminários, ciclos e conferências sobre poesia em geral ou sobre poetas em particular. Ele é o editor de alguns livros coletivos. 
Obras 

Poesia 

Invernales , 1985. Relançamento parcial: Para uma teoria da cor , 1995. 

Condição do passageiro , 1986 

Inventário (II Prêmio de Poesia Hyperion ), 1987 

Movimento falso 1993 

The Automatic Woman ", 1996 

O ar , 2002 

Loja de feltro ", 2004 

O sentido da visão , 2015. Trabalho final do Prêmio da Crítica de Castela e Leão em 2016. 2 

Ensaio e crítica literária 

Do olhar dos outros: leituras de Castela, Leão e Portugal , 1999 

Notas do exterior 1999 

A Porta Azul: A Poética de Aníbal Núñez , 1999 

De andar no gelo , 2001 

Mar Interior, poetas de Castilla-La Mancha , 2002 

Poesia como pensamento , 2003 

O veemente, o eremita: leituras de Vicente Núñez , 2004 

Arquivos: leituras, 1988-2003 , 2004 

Ramón del Valle Inclán , 2005 

Os polêmicos artigos e outros textos sobre poesia , 2005 

Desejo de realidade , 2006 

O curso da idade: leituras de Antonio Gamoneda , 2009 

A experiência do estrangeiro. Ensaios sobre poesia , 2009 

A palavra sabe, e outros ensaios sobre poesia , 2012. 

Literalmente e em todos os sentidos. Da poesia de Roberto Bolaño , 2015. 

Um discurso republicano. Ensaios sobre poesia , 2019 

Traduções 

Verlaine, Paul The Good Song; Romances sem palavras; Bom senso , 1991 

San Geroteo, R., A palavra de um homem , 1999 

Ponge, Francis, The Dreaming Matter , 2006 

Arthur Rimbaud, Obra poética completa (em colaboração com Eduardo Moga ), 2007 

Poe, Baudelaire, Mallarmé, Valéry, Eliot, escuridão matemática. Genealogia da Poesia Moderna (em colaboração com Jordi Doce), edição Antoni Marí, 2010 

Bernard Noël, O resto da viagem e outros poemas (em colaboração com Olvido García Valdés), 2014 

Bernard Noël, Diário do olhar , 2014.

Fonte de origem: 

https://es.wikipedia.org/wiki/Miguel_Casado


Domingo na Usina: Biografias: Julio Alonso Llamazares:

 


Julio Alonso Llamazares (Vegamián, Leão 28 de março de 1955) é um escritor e jornalista espanhol que nasceu no desaparecido povo leonês de Vegamián, onde seu pai Nemesio Alonso trabalhava como maestro nacional pouco dantes de que a localidade ficar inundada pela barragem de Porma. 
Apesar de ter nascido acidentalmente em Vegamián, a sua família provém da vila leonesa de Mata de la Bérbula (também chamada La Matica), localizada na bacia do rio Curueño e cuja descrição consta do seu livro de viagens El río del olvido. 
Biografia 
Depois da destruição da vila de Vegamián muda-se com sua família para a vila de Olleros de Sabero, na bacia carbonífera de Sabero. A infância em ambas as aldeias marca, futuramente, parte de sua obra. 
Licenciado em Direito, abandonou o exercício da profissão para se dedicar ao jornalismo escrito, radiofónico e televisivo em Madrid onde reside actualmente. 
Em 1983 começou a escrever Luna de lobos, o seu primeiro romance (1985), e em 1988 publicou La lluvia amarilla. Ambas foram finalistas do Prêmio Nacional de Literatura na modalidade de Narrativa. Outra obra sua é Escenas de cine mudo, de 1994. 
Géneros em sua obra: 
A literatura de viagens: El río del olvido (1990. É a narração da viagem que realizou a pé pela ribeira do Curueño durante o verão de 1981), Trás-os-montes (1998) e Cuaderno del Duero (1999. Crónica da viagem ao longo das províncias que percorrem o rio e que nunca concluiu). 
O ensaio: El entierro de Genarín (1981) e Los viajeros de Madri, (1998) 
O artigo jornalístico: alguns recolhidos em livros como En Babia (1991) e Nadie escucha (1993), onde demonstrou que “o jornalismo é outra faceta da literatura, também faz parte do afã de contar”. 
As obras de Julio Llamazares caracterizam-se pelo seu intimismo, o uso de uma linguagem precisa e o extraordinário cuidado nas descrições. Um claro exemplo é sua obra El cielo de Madrid, publicada no ano 2005. 
Julio Llamazares afirma que a sua visão da realidade é poética. A sua forma de escrever está muito colada à terra, poderíamos dizer que é um escritor romântico no sentido original, que é o da consciência da divisão do homem com a natureza, da perda de uma idade de ouro fictícia porque nunca existiu. 
Obras 

Narrativa 
Luna de lobos (1985), novela 

La lluvia amarilla (1988), novela 

Escenas de cine mudo (1994), novela 

En mitad de ninguna parte (1995), relatos 

Tres historias verdaderas (1998), relatos 

El cielo de Madrid (2005), novela 

Tanta pasión para nada (2011), relatos 

Las lágrimas de San Lorenzo (2013), novela. Finalista do Premio de la Crítica de Castilla y León.[1] 

Distintas formas de mirar el agua (2015), novela 

Poesia 
La lentitud de los bueyes (1979) 

Memoria de la nieve (1982) 

Ensaio 
El entierro de Genarín: Evangelio apócrifo del último heterodoxo español (1981). 

En Babia (1991), artículos de prensa 

En mitad de ninguna parte (1995), artículos de prensa 

Nadie escucha (1997), artículos de prensa 

Los viajeros de Madrid (1998), artículos de prensa 

Modernos y elegantes (2006), artículos de prensa 

Entre perro y lobo (2008), artículos de prensa 

Viagens 
El río del olvido (1990) 

Trás-os-montes (1998) 

Cuaderno del Duero (1999) 

Las rosas de piedra (2008) 

Guiões cinematográficos 
Retrato de un bañista (1984) 

Luna de lobos (1987) 

El techo del mundo (1995) 

Flores de otro mundo (1999) 

Antologías 
Antología y voz: El búho viajero (2007) 

Prémios 

1978: Prémio Antonio González de Lamba. 

1982: Prémio Jorge Guillén. 

1983: Prémio Ícaro. 

1986: Finalista do Prémio Nacional de Literatura. 

1988: Livro de Ouro da CEGAL. 

1989: Finalista do Prémio Nacional de Literatura. 

1992: Prémio de Jornalismo O Correio Espanhol-O povo basco. 

1993: Prémio Nonino. 

1994: Premeio Cardo D´Ouro. 

1999: Prémio da Semana Internacional da Crítica no Festival Internacional de Cannes.
fonte de origem:

Domingo na Usina: Biografias: Pedro Casariego Córdoba:

 


Pedro Casariego Córdoba , também conhecido na Espanha como Pe Cas Cor , nasceu em Madri em 1955. Iniciou sua obra poética por volta de 1974, geralmente escrevendo poemas-em-série, como pequenos roteiros, nos quais estrangeiros, em ambiente quase-nchiano, convivemos com personagens históricos, enquanto lemos a canção de Van Horne, o hidroavião de K., a risada de Deus, a maquiagem. Litania de maçãs do rosto e pânico, a voz de Mallick (pelo qualificado ou prêmio Juan Ramón Jiménez, em 1989) e Dra. Um exemplo, que abre ou poema-em-série K.'s Seaplane, escrito em 1978: 
O apelo 

tecido vitamínico 

o que constitui a alma 

das mulheres do Laos. 

Deficiência de vitamina desajeitada 

isso corrói Kierkegaard. 

Mulher laos 

cachos em uma bola 

uma bola de lã natural. 

Kierkegaard 

vai tecer com ela 

uma tapeçaria azul. 

Joalheria galante 

nosso homem se apresenta. 
(em K.'s Seaplane, 1978) 
O poeta publicou pouco na vida. A maior parte dos poemas-em-série seriam reunidos no volume Poemas Encadenados (1977-1987), publicado na Espanha pela editora Seix Barral, em 2003, dez anos após a morte do poeta. Como o poeta não escreveu nenhum poema de abertura de Mallick's Voice (1981): 
Wataksi 

Me escute. 

Fiquei em silêncio e fiquei ainda mais silencioso: 

meu silêncio tem sido mais longo 

que o caminho da serpente 

mais profundo 

do que a dor da hiena. 
(A voz de Mallick, 1981) 
O ano de 1987, não em que escreveu um único poema, marca o seu abandono da poesia, passando a dedicar-se à pintura no ano de agora, até ou ano de 1993, quando decidiu parar perante um tremor. Ou um poeta se reúne em sua estranheza e posição marginal, na poesia espanhola contemporânea, a Leopoldo María Panero (n. 1948), ou outro "esquisito" espanhol dos anos 70. Ele cometeu suicídio em 6 de janeiro de 1993. 
--- Ricardo Domeneck

fonte de origem:

https://www.escritas.org/pt/bio/pedro-casariego-cordoba

Domingo na Usina: Biografias: Humberto de Campos:

 


Terceiro ocupante da Cadeira 20, eleito em 30 de outubro de 1919, na sucessão de Emílio de Menezes e recebido pelo Acadêmico Luís Murat em 8 de maio de 1920.
Humberto de Campos (H. de C. Veras), jornalista, crítico, contista e memorialista, nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de dezembro de 1934.
Foram seus pais Joaquim Gomes de Faria Veras, pequeno comerciante, e Ana de Campos Veras. Perdendo o pai aos seis anos, Humberto de Campos deixou a cidade natal e foi levado para São Luís. De infância pobre, desde cedo começou a trabalhar no comércio como meio de subsistência. Dali, aos 17 anos, passou a residir no Pará, onde conseguiu um lugar de colaborador e redator na Folha do Norte e, pouco depois, na Província do Pará. Em 1910 publicou seu primeiro livro, a coletânea de versos intitulada Poeira, primeira série. Em 1912 transferiu-se para o Rio. Entrou para O Imparcial, na fase em que ali trabalhava um grupo de escritores ilustres, como redatores ou colaboradores, entre os quais Goulart de Andrade, Rui Barbosa, José Veríssimo, Júlia Lopes de Almeida, Salvador de Mendonça e Vicente de Carvalho. João Ribeiro era o crítico literário. O diretor José Eduardo de Macedo Soares participava da segunda campanha civilista. Humberto de Campos ingressou no movimento. Mas logo depois o jornalista militante deu lugar ao intelectual. Fez essa transição com o pseudônimo de Conselheiro XX com que assinava contos e crônicas, hoje reunidos em vários volumes. Assinava também com os pseudônimos Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Em 1923, substituiu Múcio Leão na coluna de crítica do Correio da Manhã.
Em 1920, já acadêmico, foi eleito deputado federal pelo Maranhão. A revolução de 1930 dissolveu o Congresso e perdeu o mandato. O presidente Getúlio Vargas, que era admirador do talento de Humberto de Campos, procurou minorar as dificuldades do autor de Poeira, dando-lhe os lugares de inspetor de ensino e de diretor da Casa de Rui Barbosa. Em 1931, viajou ao Prata em missão cultural. Em 1933 publicou o livro que se tornou o mais célebre de sua obra, Memórias, crônica dos começos de sua vida. O seu Diário secreto, de publicação póstuma, provocou grande escândalo pela irreverência e malícia em relação a contemporâneos.
Autodidata, grande leitor, acumulou erudição, que utilizava nas crônicas. Poeta neoparnasiano, fez parte do grupo da fase de transição anterior a 1922. Poeira é um dos últimos livros da escola parnasiana no Brasil. Fez também crítica literária de natureza impressionista. É uma crítica de afirmações pessoais, que não se fundamentam em critérios e, por isso, não podem ser endossadas nem verificadas. Na crônica, seu recurso mais corrente era tomar conhecidas narrativas e dar-lhes uma forma nova, fazendo comentários e digressões sobre o assunto, tecendo comparações com outras obras. No fundo ou na essência, não era uma crítica profunda, que não resiste ao tempo.

fonte de origem:

https://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm%3Fsid%3D221/biografia

Domingo na Usina: Biografias: Zélia Gattai:


 
Sexta ocupante da Cadeira nº 23, eleita em 7 de dezembro de 2001, na sucessão de Jorge Amado e recebida em 21 de maio de 2002 pelo Acadêmico Eduardo Portela.
Zélia Gattai nasceu em São Paulo (SP), em 2 de julho 1916, e faleceu no dia 17 de maio de 2008, em Salvador (BA).
Era filha de Angelina Da Col e Ernesto Gattai, ambos italianos. Seu pai, que a registrou como nascida no dia 4 de agosto, fazia parte do grupo de imigrantes políticos que chegou ao Brasil no fim do século XIX, para fundar a célebre Colônia Cecília, tentativa de criar uma comunidade anarquista na selva brasileira. A família de sua mãe, católica, veio para o Brasil após a abolição da escravatura para trabalhar nas plantações de café, em São Paulo.
Na década de 1930, Zélia tornou-se amiga de diversos artistas e intelectuais da época, como Oswald de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Rubem Braga, Zora Seljan, Aparecida e Paulo Mendes de Almeida, Letícia e Carlos Lacerda, Aldo Bonadei, Vinicius de Moraes e outros. Aos 17 anos, emprestado por um italiano, amigo de seu avô, o velho Ristori, recebeu um livro de “um tal Jorge Amado, giovanotto inteligente, jornalista, escritor”, que fora a São Paulo vindo do Rio de Janeiro.
Em 1942, no dia 12 de agosto, nasce seu primeiro filho, Luís Carlos Veiga, de seu casamento com o intelectual e militante comunista Aldo Veiga.
No início de 1945, Jorge Amado, membro do Partido Comunista, se encontrava em São Paulo para participar de movimentos reivindicativos e comandar a organização de um comício para Luís Carlos Prestes, recém-saído da prisão. Zélia, que já lera os primeiros romances de Jorge Amado e o admirava, conhece-o pessoalmente na abertura do Congresso Brasileiro de Escritores, que se realizava no Teatro Municipal de São Paulo. Registrou Zélia em seu discurso de posse na ABL: “De mim ele não sabia nada, nem podia saber, porque eu era apenas uma simples desconhecida, sem nenhuma credencial. Ele também não sabia que eu possuía uma estrela que o pusera em meu caminho.” Em meados de 1945, casaram-se. Dessa união nasceu, em 25 de novembro de 1947, o filho João Jorge Amado, no Rio de Janeiro.
Em fins de 1947 o registro do Partido Comunista foi cancelado e os parlamentares eleitos por essa legenda, entre os quais Jorge Amado, eleito deputado federal por São Paulo, foram expulsos do Parlamento. Sem condições de segurança para permanecer no Brasil, Jorge viajou para a Europa. Em 1948, Zélia viajou ao seu encontro. Permaneceram na Europa durante cinco anos, entre Paris e Praga, participando intensamente da vida cultural europeia. Zélia conheceu personalidades como Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Aragon, Paul Éluard, Fréderic Juliot Curie, Picasso e Ilya Eremburg. Nesse período, adquire uma máquina fotográfica alemã, no mercado de Paris, iniciando-se na arte da fotografia.
Em 1949, conclui o curso de Língua e Civilização Francesa, na Sorbonne. Zélia e Jorge passam a residir no Castelo da União dos Escritores, em Dobris, na Tchecoslováquia, no ano de 1950. No dia 19 de agosto de 1951, nasce sua filha Paloma Jorge Amado, em Praga.
Retornando ao Brasil, em 1952, instala-se no apartamento do sogro, no Rio de Janeiro, morando na cidade durante dez anos. O casal fixa residência em Salvador, Bahia, no ano de 1963.
Começa sua produção literária escrevendo seu primeiro livro de memórias, Anarquistas, graças a Deus, lançado em 1979, no Rio de Janeiro. Nesta obra narra a vida de seus pais, a realidade dos imigrantes italianos no Brasil e sua infância em São Paulo. Um chapéu para viagem é seu segundo livro, editado em 1982. A obra narra o começo de sua vida com Jorge Amado e as histórias dos Amados, contadas por Lalu, mãe do escritor. No ano seguinte é lançado, em Salvador, o livro Pássaros noturnos do Abaeté, com gravuras de Calasans Neto e texto de Zélia Gattai. Em 1987, publica Reportagem incompleta (fotobiografia), com fotografias de sua autoria. Torna-se membro do Conselho Curador da Fundação Banco do Brasil. Edita Jardim de inverno, em 1988. O livro é lançado na Fundação Casa de Jorge Amado. A obra narra os momentos políticos difíceis, vividos entre 1949 e 1952. É homenageada com uma exposição sobre o tema “Jardim de inverno”, pela Fundação Casa de Jorge Amado.
No mundo da ficção estreia com o livro infantil Pipistrelo das mil cores, em 1989, com ilustrações de Pink Wainer. Dois anos depois publica O segredo da Rua 18, também dirigido às crianças, ilustrado por Ricardo Leite.
Volta às memórias com Chão de meninos, lançado em 1992. A obra, que retrata o retorno do exílio, no período de 1952 a 1963, é dedicada ao marido, em comemoração aos seus oitenta anos. O próximo livro é um romance, Crônica de uma namorada, de 1995. Relata a época do surgimento da televisão e a descoberta do amor por uma adolescente. No mesmo ano sua filha, Paloma Jorge Amado, publica, em homenagem aos pais, o ABC dos 50 anos de amor de Zélia e Jorge.
Edita, em 1999, A Casa do Rio Vermelho. No ano de 2000, lança na Bienal do Livro, em São Paulo, Città di Roma, ilustrado com fotografias de época. A obra narra a saga de seus familiares e seus primeiros anos em São Paulo. Publica, também, no mesmo ano, o livro infantil Jonas e a sereia, com ilustrações de Roger Mello.
Em 2001 fica viúva de Jorge Amado. Publica Códigos de família, livro de memórias, ao qual se segue Jorge Amado: um baiano sensual e romântico, lançado em 2002.
Sua obra literária gerou a adaptação de Anarquistas, graças a Deus para minissérie da Rede Globo; a peça de teatro adaptada de seu segundo livro Um chapéu para viagem; a edição comemorativa com fotografias da autora e seus familiares pelos 20 anos de Anarquistas, graças a Deus.

fonte de origem:

https://www.academia.org.br/academicos/zelia-gattai/biografia