quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Florbela Espanca:VOZES DO MAR:



Quando o sol vai caindo sob as águas Num nervoso delíquio d´ouro intenso, 
Donde vem essa voz cheia de mágoas

Com que falas à terra, ó mar imenso? 
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar? 
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar? 
Tens cantos d´epopéias? Tens anseios D´amarguras? 
Tu tens também receios, Ó mar cheio de esperança e majestade?! 
Donde vem essa voz, ó mar amigo?...

...Talvez a voz do Portugal antigo, Chamando por Camões numa saudade!

Poesia De Quinta Na Usina: Florbela Espanca: PAISAGEM:







Uns bezerritos bebem lentamente Na tranqüila levada do moinho. Perpassa nos seus olhos, vagamente, A sombra duma alma cor do linho! Junto deles um par. Naturalmente Namorados ou noivos. De mansinho Soltam frases d´amor...e docemente Uma criança canta no caminho!
Um trecho de paisagem campesina, Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!
Oh, abre-me em teu seio a sepultura, Minha terra d´amor e de ventura,

Ó meu amado e lindo Portugal!

Poesia De Quinta Na Usina: D'Araújo: Encontro:



Este teu olhar que desnuda a minha esperança
tardia em saber que finalmente chegou
o dia em que o terno se torna eterno.

Teu sorriso me acende um ser que 
repousa sobre a sombra do esperar eterno.

O calor do teu corpo me traz para a vida 
que parou um dia e a felicidade brota em 
meu peito feito grama em solo fértil..

Teu cheiro me faz delirar em pensamentos 
profanos me vejo em outro plano.

A busca termina num solo eterno a tua voz 
soa como um bálsamo dos deuses que acalma 
e sustenta o meu ser.

D'Araujo.

Poesia De quinta Na Usina: D'Araújo: Verdade indesejável:




                                  Enquanto houve sobre o solo deste planeta, 
                                  um só exemplar da espécie humana, 
                                 não deixará de existir racismo e preconceito.




Conteúdo do Livro:




















Editora: www.perse.com.br


Poesia De Quinta Na usina: Fernando Pessoa: A alcova:



Desce não se por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.
E o deserto está agora
Virado para baixo.
A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.
Qualquer coisa caiu

E tiniu no infinito.




                 
Cancioneiro
Fernando Pessoa
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/cancioneiro.htm

Poesia De Quinta Na Usina: Fernando Pessoa: Abdicação:




Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.




                  Cancioneiro
 Fernando Pessoa
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/cancioneiro.htm

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis: ITE, MISSA EST:


Fecha o missal do amor e a bênção lança
À pia multidão
Dos teus sonhos de moço e de criança,
Soa a hora fatal, — reza contrito
As palavras do rito:
Ite, missa est.
Foi longo o sacrifício; o teu joelho
De curvar-se cansou;
E acaso sobre as folhas do Evangelho
A tua alma chorou.
Ninguém viu essas lágrimas (ai tantas!)
Cair nas folhas santas.
Ite, missa est.
De olhos fitos no céu rezaste o credo,
O credo do teu deus;
Oração que devia, ou tarde ou cedo,
Travar nos lábios teus;
Palavra que se esvai qual fumo escasso
E some-se no espaço.
Ite, missa est.
Votaste ao céu, nas tuas mãos alçadas,
A hóstia do perdão,
A vítima divina e profanada
Que chamas coração.
Quase inteiras perdeste a alma e a vida
Na hóstia consumida.
Ite, missa est.
Pobre servo do altar de um deus esquivo,
É tarde, beija a cruz;
Na lâmpada em que ardia o fogo ativo,
Vê, já se extingue a luz.
Cubra-te agora o rosto macilento
O véu do esquecimento.

Ite, missa est.





Texto-fonte: Falenas:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente no Rio de Janeiro, por B.-L. Garnier, em 1870.

Poesia de Quinta Na Usina: Machado de Assis:TO BE OR NOT TO BE:




(SHAKESPEARE)
Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida cousa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta idéia abalou, desvia o curso,

Perde-se, até de ação perder o nome.





Ocidentais
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. III,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

Pensamento do Dia:

“As grandes tempestades em nossas vidas, são apenas avisos perversos, das doces brisas que estão por vir.”




Esta e mais de 90 outras frases estão nesta edição comemorativa.
Para fazer o download grátis do livro basta clicar no link a baixo: