quinta-feira, 20 de julho de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis: Versos a Corina:IV:




Tu que és bela e feliz, tu que tens por diadema
A dupla irradiação da beleza e do amor;
E sabes reunir, como o melhor poema,
Um desejo da terra e um toque do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre névoas deslizas
Aos versos do poeta um desvelado olhar,
Corina, ouve a canção das amorosas brisas,

Do poeta e da luz, das selvas e do mar.

Poesia De Quinta na Usina: Machado de Assis:X:


 Era chegado
O fatal prazo, o desenlace triste.
Tudo morre, — a tristeza como o gozo;
Rosas de amor ou lírios de saudade,
Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.
Costeando as longas praias, ou transpondo
Extensos vales e montanhas, correm
Mensageiros que às tabas mais vizinhas
Vão convidar à festa as gentes todas.
Era a festa da morte. Índio guerreiro,
Três luas há cativo, o instante aguarda
Em que às mãos de inimigos vencedores,
Caia expirante, e os vínculos rompendo
Da vida, a alma remonte além dos Andes.
Corre de boca em boca e de eco em eco
A alegre nova. Vem descendo os montes,
Ou abicando às povoadas praias
Gente da raça ilustre. A onda imensa
Pelo arraial se estende pressurosa.
De quantas cores natureza fértil
Tinge as próprias feições, copiam eles
Engraçadas, vistosas louçanias.
Vários na idade são, vários no aspecto,
Todos iguais e irmãos no herdado brio.
Dado o amplexo de amigo, acompanhado
De suspiros e pêsames sinceros
Pelas fadigas da viagem longa,
Rompem ruidosas danças. Ao tamoio
Deu o Ibaque os segredos da poesia;
Cantos festivos, moduladas vozes,
Enchem os ares, celebrando a festa
Do sacrifício próximo. Ah! não cubra
Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos
Destes polidos tempos! Rudes eram
Aqueles homens de ásperos costumes,
Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,
E nós, soberbos filhos de outra idade,
Que a voz falamos da razão severa
E na luz nos banhamos do Calvário,
Que somos nós mais que eles? Raça triste

De Cains, raça eterna...

Poesia De quinta Na Usina: Fernando Pessoa:


"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos
gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;
mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi
a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas
vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me
respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com
que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a
narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos

siameses que não estão pegados."

Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/

Poesia De quinta Na Usina:Fernando Pessoa:Não sei quantas almas tenho:


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Poesia De Quinta Na Usina: Ser e querer:




A quietude do meu ser, 
está bem alem do meu querer estar com você.

E a quietude do que vem nunca convém, 
pois te amo muito além da quietude ou inquietude,
do ser ou querer.

Poesia De Quinta Na Usina:D'Araújo: Duas vidas, minha e tua.


Minha vida, tua vida, nossas vidas.
Vidas, que se usam,
Vidas que se cruzam,
Vidas que se abusam.

Tua vida em meu caminho
Tua vida no meu ninho
Minha vida em tua vida
Nossas vidas sem saída
Tua vida bem vivida
Nossas vidas repartidas.

Vidas feias, vidas belas
Todas presas a uma aquarela
Aquarela de vidas frias, vidas mornas
Na agonia, vidas tensas vidas imensas
Minha vida em tua vai ficando dividida.

Vidas lógicas, vidas incertas
Vidas íntimas, mau cobertas
Vidas energéticas, vidas nórdicas
Minha vida tua vida, nossas vidas.
Vida inerte pela consciência que
Contempla tua existência.

Fortes pela complacência
Ah! Minha vida sem a tua vida
Não seria tão vivida.
A vida semente da ilusão
Caminho sem compaixão
Assento sem chão.

 Ah! Tua vida sem a minha vida,
Não seriam nossas vidas
Uma vida que cai, uma vida que sai
É a lua que não vem, e o sol que não sai
É o vento que treme, e o espírito que geme.

O mundo não teria vida
Sem as nossas vidas.
Ah! Nossas vidas.
Tua vida, minha vida,
 Todas elas bem vividas
 Minha e tua.

D'Araujo; "o Grito da Alma" Poesias e pensamentos.


Raul Seixas - Última Entrevista - 1989 - Parte 01