quinta-feira, 1 de junho de 2017

"LOGOS 23 DA FENIX":Novembro 2016: FUI,SOU OU SEREI : D'Araújo



Sendo o que sou
Diante do que me poderia ser
Mas não sendo.
E ao mesmo tempo sendo o que fui
Mas que talvez não pudesse ter sido.

Traz-me o desejo de saber
O que seria se eu não fosse.
Assim sendo, serei sempre o que fui o Que sou e o que poderei ser.
Com a certeza do ontem, o viver do hoje e a possibilidade do amanhã.

António D'Araújo

São Bernardo do Campo - Brasil

Para ler o livro na integra com todos os autores:
Clique no link:

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis; Poema: COGNAC!...:


Vem, meu Cognac, meu licor d’amores!...
É longo o sono teu dentro do frasco;
Do teu ardor a inspiração brotando
O cérebro incendeia!...
Da vida a insipidez gostoso adoças;
Mais val um trago teu que mil grandezas;
Suave distração — da vida esmalte,
Quem há que te não ame?
Tomado com o café em fresca tarde
Derramas tanto ardor pelas entranhas,
Que o já provecto renascer-lhe sente
Da mocidade o fogo!
Cognac! — inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor — de amor ardente!
Uma tua garrafa e o Dom Quixote,
É passatempo amável!
Que poeta que sou com teu auxílio!
Somente um trago teu m’inspira um verso;
O copo cheio o mais sonoro canto;
Todo o frasco um poema!

Poesia De Quinta Na Usina: Fernando Pessoa: 46:


"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas
frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua
aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por
isso a aldeia é maior que a cidade...
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura."
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda
a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela
sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado
cuja vibração me estremece no corpo todo.
"Sou do tamanho do que vejo!"Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus
nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do
tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até
às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma
segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago
luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer
palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da
matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a
alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a
cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."

* * *


Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/

Poesia de Quinta Na Usina: Machado de Assis; Poema: MINHA MÃE:




(Imitação de Cowper)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu
quisera
Viver feliz com minha mãe também!
CA de Sá
Quem foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança
Dourou: — é minha mãe!
Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor — anjo do bem
Minha fronte infantil — encheu de rosas
De mimosos sorrisos? — Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe.
Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso
Que chama-se uma mãe?
Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: — minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

Poesia de quinta Na Usina: Fernando Pessoa; Poema: Aqui, Dizeis:


Aqui, dizeis, na cova que me abrigo,
Não está quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, não alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!

D'Araújo: Poema: Desordem:



O tempo escasso, raro e confuso.
Quase real.
Um querer distante
Uma saudade ausente.
O fato.
Tudo ao meu redor em perfeita desordem,
O lamento.
O pensamento franco, os passos lentos.
Atento.
Sempre um a cada momento na inútil

direção da possibilidade.


Poesia De Quinta Na Usina: D'Araujo:Incapazes:


Podem me chamarem de louco sonhador,
Mas nada do que fizerem, me fará,
desistir de lutar há cada dia da minha vida,
para alcançar, a tão sonhada felicidade,
jamais irei ceder a mediocridade dos pobres 
de espirito, incapazes  de qualquer gesto 
que lhes tire do conforto da inercia.