quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: D'Araújo: Constelação:




De uma constelação distante onde fica 
o meu universo sem fim uma imensa 
estrela brilha para mim.

Uma galáxia de uma imaginaria 
existência sinto sempre a tua
presença no meu viver de cada alvorecer.

Então posso adormecer a cada 
final de jornada com a calma dos 
sábios e com o calor do teu ser no meu existir.

O teu sorriso me faz acreditar que o ser feliz 
não passa de um imenso sorriso com todo prazer da alma.

D'Araujo.

Poesia De Quinta Na Usina: Poema: Farpas.


Com farpas de loucura, acho que não 
tem cura esta desventura com sabor 
amargo e a doçura do não existir.

Quase que por completo, não vejo 
teto acima deste sentimento contraditório.

Então ignora ao meu redor tudo aquilo 
que mais adoro, fecho meus olhos para 
as portas dos desejos, e viro sobejos de uma refeição plena.

D'Araujo.

Poesia De quinta Na Usina: Fernando Pessoa:


Poesia de Quinta Na Usina: Fernando Pessoa: Acordar:


Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.
Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.
Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja
A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.
Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...
Minha dor é velha

Como um frasco de essência cheio de pó.




              Poemas de Álvaro de Campos
 Fernando Pessoa
Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/facam.html

Poesia De quinta Na Usina: Fernando Pessoa: Acaso:


No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.
A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.
Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.
Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!
Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?
Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...
Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.






              Poemas de Álvaro de Campos
 Fernando Pessoa
Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/facam.html


Poesia De Quinta Na Usina: Augusto dos Anjos: ODE AO AMOR:




Enches o peito de cada homem, medras Nalma de cada virgem, e toda a alma Enches de beijos de infinita calma...

E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra, bate nos granitos

E quebra as rochas e arrebenta as pedras!

És soberano! Sangras e torturas! Ora, tangendo tiorbas em volatas, Cantas a Vida que sangrando matas, Ora, clavas brandindo em seva e insana Fúria, lembras, Amor, a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.

Beijam -te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! -- Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça

--         Flores que tombam quando a neve passa No turblhão das avalanches bravas!

Tudo dominas! -- Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios, e dos Capitólios
Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras,

Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos.

Sobes ao monte ondeo edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte!
Mas, vezes, desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta

E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia!

Rompe a manhã. Sinos além bimbalham . Troa o conúbio dos amores velhos
-- As borboletas e os escaravelhos Beijam -se no ar...Retroa o sino. E, quietos Beijam -se além os silfos e os insetos

Sob a esteira dos campos que se orvalham .

E em tudo estruge a tua dúlia -- dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue, chora e se lamenta e vibra...

E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia!

Bem haja, pois, esse poder terrível,

--         Essa dominação aterradora

--         Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme
E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens, impassível!

Esta de amor onde queixosa, Irene, Quedo, sonhei-a, aos astros, ontem, quando Entre estrias de estrelas, fosforeando, Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio

E os quadros divinais de Guido Reni!


Qual um crente em asiático pagode, Entre timbales e anafis estrídulos, Cativo, beija os áureos pés dos ídolos, Assim, Irene, eis-me de ti cativo! Cativaste-me, Irene, e eis o motivo, Eis o motivo porque fiz esta ode.

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis: VI:




Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano;
É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano.
Solta do chão abrindo as asas luminosas,
Minh'alma se ergue e voa às regiões venturosas,
Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corina,
Reveste a natureza a púrpura divina!
Lá, como quando volta a primavera em flor,
Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;
Ao influxo celeste e doce da beleza,
Pulsa, canta, irradia e vive a natureza;
Mais lânguida e mais bela, a tarde pensativa
Desce do monte ao vale; e a viração lasciva
Vai despertar à noite a melodia estranha
Que falam entre si os olmos da montanha;
A flor tem mais perfume e a noite mais poesia;
O mar tem novos sons e mais viva ardentia;
A onda enamorada arfa e beija as areias,
Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!
O esplendor da beleza é raio criador:
Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor.
Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida,
Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal sofrida
Da saudade que punge e do amor que lacera
E palpita e soluça e sangra e desespera.
Sinto em torno de mim a muda natureza
Respirando, como eu, a saudade e a tristeza;
É deste ermo que eu vou, alma desventurada,
Murmurar junto a ti a estrofe imaculada
Do amor que não perdeu, coa última esperança,
Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.
Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda,
Do meu sombrio céu alma estrela bem-vinda!
Como divaga a abelha inquieta e sequiosa
Do cálice do lírio ao cálice da rosa,
Divaguei de alma em alma em busca deste amor;
Gota de mel divino, era divina a flor
Que o devia conter. Eras tu.
No delírio
De te amar — olvidei as lutas e o martírio;
Eras tu. Eu só quis, numa ventura calma,
Sentir e ver o amor através de uma alma;
De outras belezas vãs não valeu o esplendor,
A beleza eras tu: — tinhas a alma e o amor.
Pelicano do amor, dilacerei meu peito,
E com meu próprio sangue os filhos meus aleito;
Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança;
Por eles reparti minh'alma. Na provança
Ele não fraqueou, antes surgiu mais forte;
É que eu pus neste amor, neste último transporte,
Tudo o que vivifica a minha juventude:
O culto da verdade e o culto da virtude,
A vênia do passado e a ambição do futuro,
O que há de grande e belo, o que há de nobre e puro.
Deste profundo amor, doce e amada Corina,
Acorda-te a lembrança um eco de aflição?
Minh'alma pena e chora à dor que a desatina:
Sente tua alma acaso a mesma comoção?
Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano,
É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano!
Vou, sequioso espírito,
Cobrando novo alento,
N'asa veloz do vento
Correr de mar em mar;
Posso, fugindo ao cárcere,
Que à terra me tem preso,
Em novo ardor aceso,
Voar, voar, voar!
Então, se à hora lânguida
Da tarde que declina,
Do arbusto da colina
Beijando a folha e a flor,
A brisa melancólica
Levar-te entre perfumes
Uns tímidos queixumes
Ecos de mágoa e dor;
Então, se o arroio tímido
Que passa e que murmura
À sombra da espessura
Dos verdes salgueirais,
Mandar-te entre os murmúrios
Que solta nos seus giros,
Uns como que suspiros
De amor, uns ternos ais;
Então, se no silêncio
Da noite adormecida,
Sentires — mal dormida —
Em sonho ou em visão,
Um beijo em tuas pálpebras,
Um nome aos teus ouvidos,
E ao som de uns ais partidos
Pulsar teu coração;
Da mágoa que consome
O meu amor venceu;
Não tremas: — é teu nome,

Não fujas — que sou eu!






Crisálidas
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente no Rio de Janeiro, por B.-L. Garnier, em 1864.

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis: O POETA:




Também eu, sonhador, que vi correr meus dias
Na solene mudez da grande solidão,
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O último suspiro e a última oração;
Também eu junto à voz da natureza,
E soltando o meu hino ardente e triunfal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza,
E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal!
Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas
Tua alma de mulher deve de palpitar;
Mas que te não seduza o cântico das águas,

Não procures, Corina, o caminho do mar!







Crisálidas
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente no Rio de Janeiro, por B.-L. Garnier, em 1864.

Poesia De Quinta Na Usina: Augusto dos Anjos: CANTO DE AGONIA:






Agonia de amor, agonia bendita!

--         Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura

E o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:

-- Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei, ontem, a sós, num volutuoso assomo, Numa prece de amor, numa felícia infinda,

Delícia que ainda gozo, oração, prece que ainda Entre saudades rezo, e entre sorrisos e entre Mágoas soluço, até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. Amor, escuridão e eterna claridade...

-- Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve, Frio que me assassina, amor e frio, neve,

Neve que me embala como um berço divino, Neve da minha dor, neve do meu destino!

E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia, agonia, agonia, agonia!

-- Diz e morre-lhe a voz, e cansado e morrendo O Viajeiro vai, e vê a luz e vendo

Uma sombra que passa, uma nuvem que corre, Caminha e vai, o louco, abraça a sombra e... morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita...


Agonia de amar, agonia bendita!

Pensamento do Dia:



“Quando um ciclo se fecha em nossa vida, não há perdas, mas a oportunidade de se fazer diferente.”


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