quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Poesia DE Quinta Na Usina: Mário Quintana:O colegial:


O vento passa lá fora

e eu, no quadro negro, imóvel

- ó muro de fuzilamento! Morro sem dizer palavra. O professor parece triste, talvez por outros motivos.
Manda sentar-me e eu carrego
ó almazinha assustada,

um zero, como uma auréola... Rezai, rezai pelas alminhas dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam tanta coisa?
Eu queria saber contar só com os dedos da mão! O resto é complicação, um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar teu corpo todo com a mão
até sabê-lo de cor como um ceguinho.
E o vento passa lá fora

com a sua memória em branco. O que ele viu, nem recorda...

e eu nada vi: só adivinho!

Poesia De Quinta Na Usina: Florbela Espanca: A ANTO!:



Poeta da saudade, ó meu poeta qu´rido Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal, Ao escrever o Só pensaste enternecido Que era o mais triste livro deste Portugal,

Pensaste nos que liam esse teu missal, Tua bíblia de dor, teu chorar sentido Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!

Ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos, Soluços que eu uni e que senti dispersos Por todo o livro triste! Achei teu coração... Amo-te como não te quis nunca ninguém,

Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe Beijando-te já frio no fundo do caixão!

Poesia De Quinta Na Usina: D'Araujo: Arte do criar.















O que é a arte na plenitude do criar, 
se não o limiar da loucura do ser onde 
a criação sente-se o próprio criador em 
uma viagem alucinante

Entre o real e o imaginário o consciente 
e o inconsciente se confundem em uma 
velocidade frenética e inimaginável.

Ao fim desta mutação inconsciente 
criador e a criação fundem-se com 
que chamamos de pura arte ou 
simplesmente o sonho de um louco 
imaginário inconsciente...

D'Araujo.

Poesia De Quinta Na Usina:D'Araujo: De mim mesmo:


Não mais , me resta tempo para esperá
Tudo que quiser, daqui pra frente
Tenho que construir com as 
minhas próprias mãos.

Como tem sido por todo o sempre
Agora o meu maior desafio neste doloroso
viver do hoje.

inevitavelmente, é resgatar o que restou de mim mesmo
 depois desta densa tempestade que avassalou o meu viver do hoje..

D'Araujo.

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis:SOMBRAS:


 Quando, assentada, à noite, a tua fronte inclinas,
E cerras descuidada as pálpebras divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem falar, e sonhas sem dormir,
Acaso uma lembrança, um eco do passado,
Em teu seio revive?
O túmulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?
Com que flor, com que espinho, a importuna memória
Do teu passado escreve a misteriosa história?
Que espectro ou que visão ressurge aos olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cai das mãos de Deus?
É saudade ou remorso? é desejo ou martírio?
Quando em obscuro templo a fraca luz de um círio
Apenas alumia a nave e o grande altar
E deixa todo o resto em treva, — e o nosso olhar
Cuida ver ressurgindo, ao longe, dentre as portas
As sombras imortais das criaturas mortas,
Palpita o coração de assombro e de terror;
O medo aumenta o mal. Mas a cruz do Senhor,
Que a luz do círio inunda, os nossos olhos chama;
O ânimo esclarece aquela eterna chama;
Ajoelha-se contrito, e murmura-se então
A palavra de Deus, a divina oração.
Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;
Volve os olhos à luz, imita aquele exemplo;
Corre sobre o passado impenetrável véu;

Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.

Poesia De quinta Na Usina: Fernando Pessoa: Um Dia de Chuva:



"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.

Ambos existem; cada um como é."

Poesia De quinta Na Usina: Machado de Assis:O DESFECHO:


 Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.
Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;

Acabara o suplício e acabara o homem.





 Ocidentais
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. III,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis:UMA CRIATURA:


 Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.



 Ocidentais
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. III,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

Poesia De Quinta Na Usina: Fernando Pessoa:Aqui está-se sossegado:


 Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.
Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-a ser do mundo.
Tinha os gestos inocentes.
Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde!
Aqui tudo é paz e mar.
Sim, poderia ter sido...
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.
Sim, poderia ter sido...
Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, oiço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que veio azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho.
Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.
Não foi propósito, não.
Durmo, desperto e sozinho.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho —
Um movimento sem lida...
Durmo, desperto e sozinho.
Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois

Nada explica nem consola.