quinta-feira, 2 de março de 2017

Poesia De Quinta Na Usina:D'Araújo: Não mais...:


Estando eu vivo meus olhos veem,
Então paro, penso, reflito e sinto.

Ando, corro, canso, sento,
Vejo, paro, penso, reflito e sinto.

Deito, durmo sonho, acordo,
Vejo, paro, penso, reflito e sinto.

E com o tempo se esvaindo por entre os dedos da insensatez.
Envelheço, esmoreço morro,
Não mais vejo,
Não mais paro,
Não mais penso,
Não mais reflito,
Não mais sinto,

Não mais...

Conteúdo do Livro: Covas Rasas.
Editora: www.perse.com.br

Poesia De quinta Na Usina: D'Araújo: Folhas



Apesar do tempo de luta
E tantos sonhos soterrados
Nas valas dos insolentes,
Como podemos continuar
Colhendo as folhas da miséria assistida

Enquanto as raízes das desigualdades
Proliferam-se por entre guetos e favelas
Arquitetonicamente distribuídas a serviço
Dos oportunistas hipócritas de Platão.

Sempre se utilizando delas
Como suas inesgotáveis
Fontes de existência sustentável.
Aqui preços vão fingir que tudo isso é normal
Enquanto lavamos nossas consciências
Nas águas da tranqüilidade
Inexistente e quase perfeita...

D'Araújo.


Poesia De Quinta Na Usina: D'Araujo: Ser só:


Curando a solidão do amar eterno,
neste inferno dos meus pensamento não lúcidos,
entre o absurdo e a gloria do ser só.

Poesia De Quinta Na Usina: Mário Quintana:Tutuzinho de feijão LETRA PARA UMA MARCHINHA DE CARNAVAL:


Ai o meu brotinho preto Tutuzinho de feijão Com pimenta pra xuxu Remexido como quê!
Quem me deixa desse jeito Desse jeito
Batucando o coração? Tu, tu, tu,
Tutuzinho  de  feijão! Quem tem a boca rasgada? Os óio que é um patacão?
O que é que é bem pretinho Bem pretinho
Quentinho como um fogão? Tu, tu, tu,

Tutuzinho de feijão!

Ai o meu brotinho preto

Não me deixa assim na mão... Tu, tu, tu,

Tutuzinho de feijão!

Poesia De quinta Na Usina: Florbela Espanca: NOITE TRÁGICA:



O pavor e a angústia andam dançando... Um sino grita endechas de poentes...
Na meia-noite d´hoje, soluçando, Que presságios sinistros e dolentes!... Tenho medo da noite!... Padre nosso
Que estais no céu... O que minh´alma teme! Tenho medo da noite!... Que alvoroço Anda nesta alma enquanto o sino geme!
Jesus! Jesus, que noite imensa e triste! A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria dor parece... Ó noite imensa, ó noite do Calvário,
Leva contigo envolto no sudário

Da tua dor a dor que me não esquece!

Poesia De quinta Na Usina: Fernando Pessoa: Abdicação.



Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis: Poema: Embirração: .


A balda alexandrina é poço imenso e fundo,
Onde poetas mil, flagelo deste mundo,
Patinham sem parar, chamando lá por mim.
Não morrerão, se um verso, estiradinho assim,
Da beira for do poço, extenso como ele é,
Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé
Que volte um afogado, à luz da mocidade,
A ver no mundo seco a seca realidade.
Por eles, e por mim, receio, caro amigo;
Permite o desabafo aqui, a sós contigo,
Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;
Nem vence o positivo o frívolo ideal;
Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,
E até da vã loucura a moda é prima-irmã:
Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,
Do verso alexandrino há de livrar-nos Deus.
Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,
Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
E o triste, se morreu, deixando mal escritas
Em verso alexandrino histórias infinitas,
Vai ter lá noutra vida insípido desterro,
Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro;
Fechado em quarto escuro, à noite não tem luz,
E se é cá do meu gosto o guarda que o conduz,
Debalde, imerso em pranto, implora o livramento;
Não torna a ser, aqui, das Musas o tormento;
Castigo alexandrino, eterna solidão,
Terá lá no desterro, em prêmio da ilusão;
Verá queimar, à noite, as rosas esfolhadas,
Que a moda lhe ofertara, e trouxe tão cuidadas,
E ao pé do fogo intenso, ardendo em cruas dores,
Verá que versos tais são galhos, não dão flores;
Que, lendo-os a pedido, a criatura santa,
A paciência lhe foge, a fé se lhe quebranta,
Se vai dum verso ao fim; depois... treme... vacila...
Dormindo, cai no chão; mais tarde, já tranqüila,
Sonha com verso-verso, e as ilusões floridas,
Risonhas, vem mostrar-lhe as largas avenidas
Que o longo verso-prosa oculta, do porvir!
Sonhando, ao menos, pode amar, gozar, sentir,
Que um sono alexandrino a deixa ali em paz,
Dormir... dormir... dormir... erguer-se, enfim, vivaz,
Bradando: “Clorofórmio! O gênio que te pôs.
A palma cede ao metro esguio, teu algoz!”
E aspiras, vate, assim, da glória ao ideal?
Triste e funesto afã!... tentativa fatal!
Nesta sede de luz, nesta fome de amor,
O poeta corre a estrela, à brisa, ao mar, à flor;
Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,
Quer-lhe o aroma sentir na rosa da campina,
Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar;
Ó inútil esforço! Ó é ímprobo luta!
Em vez da luz, do aroma, ou do alento, ou da voz,
O verso alexandrino, o impassível algoz!...
Não cantas a tristeza, e menos a ventura;
Que em vez do sabiá gemendo na espessura,
Imitarás, no canto, o grilo atrás do lar;
Mas desse estreito asilo, escuro e recatado,
Alegre hás de fugir, que erguendo altivo brado,
A lírica harmonia há de ir-te despertar!
Verás de novo aberta a copiosa fonte!
Da poesia verás tão lúcido o horizonte,
Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar,
Que nas asas do gênio, a voar pelo espaço,
Da perna sacudindo o alexandrino laço,
Hás de a mão bendizer que o soube desatar.
Do precipício foge, e segue a luz secreta,
Essa estrela polar dos sonhos do poeta;
Mas, noutro verso, amigo, onde ao mago ideal
A música se ligue, o senso e a verdade;
— Num destes vai-se, a ler, da vida a imensidade,
Da sílaba primeira à sílaba final!
Meu Deus! Esta existência é transitória e passa;
Se fraco fui aqui, pecando por desgraça;
Se já não tenho jus ao vosso puro amor;
Se nem da salvação nutrir posso a esperança,
Quero em chamas arder, sofrer toda a provança:
— Ler verso alexandrino... Oh! isso não Senhor!

Pensamento do Dia:

“Que o alvorecer dos teus dias, seja tão belo quanto o sorriso que ilumina tua bela face.”


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