sábado, 1 de abril de 2017

Raul Seixas- O segredo da Luz.

Projeto contos Do Sábado:Miguel Torga: Homens de Vilarinho:


Foi um grande acontecimento em Vilarinho, quando na Senhora da Agonia, à missa, o padre João leu os nomes dos mordomos da próxima festa. É que, a cabeça do rol, vinha o Firmo, e todos esperavam tudo menos isso.
– O Firmo?! – não se conteve, no silêncio da igreja, o António Puga.
– Psiu!... – sibilou, dos lados da pia benta, o sacristão, que andava às esmolas.
E o caso só à saída foi comentado como merecia.
– O Firmo?! Mas então o Firmo, daqui a um ano... – e o Puga nem era capaz de levar o raciocínio ao fim.
– Fica. Desta vez fica... – garantiu a Margarida, que bebia do fino. – O padre Joao tantas lhe disse...
A assistência ouvia maravilhada. O Firmo de pedra e cal em Vilarinho! O mundo sempre dá muita volta!
A notícia tinha realmente que se lhe dissesse. Há muitos anos já que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante, da artilharia, e embarcara, nunca mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a própria mulher. Quando lhe perguntavam pelo homem, o que fazia, se voltava, se gozava saúde, respondia, já resignada:
– O meu Firmo?! Eu sei la do meu Firmo!
No Brasil, na América, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar de terra, sempre a mudar de emprego, e às duas por três a oferecer os préstimos para Portugal.
– Oh! oh!
– São meia dúzia de dias. Daqui a nada estou cá. É só o tempo de o navio chegar, esperar que eu faça um filho à patroa, e levantar ferro...
Dito e feito. Daí a pouco regressava com a mesma cara. De tal maneira que já todos se riam. Dera em droga, não havia que ver. Só mesmo o padre João, cabeçudo, é que podia ter ainda fé naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermão deixado a meio da última vez. O padre era o pároco de Vilarinho. E sempre que o Firmo vinha a terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, lá estava ele à entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachaço de cavador.
– Dás licença, Firmo?
– Faça favor de entrar, senhor padre João.
– Então tu não terás mais juízo, homem de Deus?! Tu não veras que tens aqui um rebanho de filhos?!
Firmo baixava a cabeça diante daquela voz amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum látego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana começava a pedir azeitonas às vizinhas, ia dizendo:
 Es tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo...
– Ah! Firmo, que sorte a minha!
Valia de bem o gemido da infeliz! Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordão se preciso fosse, recorria em ultimo caso ao próprio padre João, mas abalava.
– Grandes terras, Ti Guilhermino!
– Não há dúvida, Firmo... Não há dúvida... Os lucros que tens tirado delas é que são fracos... – respondia melancolicamente o velho, quando o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califórnia.
– Não tem calhado... Que ele também para que é que o dinheiro presta?!
– Homessa!
– É o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba...
– E a mulher e os filhos?
– A mulher e os filhos cá vão vivendo...
E Vilarinho desanimava.
– Coisa assim, como ele se pôs! E ainda se fosse de gente de outra condição, vá lá com mil demônios! Agora quem lhe conheceu o pai, como eu, um homem serio, zelador do que lhe pertencia, amigo da família, sempre agarrado a enxada... Que ele não é mau. Mas fazer-se um traga-mundos daquela maneira! – gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a côngrua. – Acredita que tenho uma paixão, que nem fazes ideia!
O padre era a própria seiva de Vilarinho. Tão agar­rado à terra que costumava dizer aos colegas:
– Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.
Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.
– Ora, ora, padre Joao! Esquece-se do latim, mas lembra-se do português. Que o diga quem pode...
Aludiam risonhamente à conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado à pedra. O prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, pôs-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave de consciência e de disciplina. Que sabia que Sua Reverencia vivia amancebado e tinha prole. Que tomara conta da diocese há pouco tempo e que não desejava iniciar a pastoreação com atos de violência. Mas que, por outro lado, não podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendíssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Reverência o concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.
O réu não esteve com meias medidas.
– Olhe, senhor Bispo, cá por cima são estes usos. Padre sim, padre não, faz o mesmo. Tenha a certeza. O que são é mais finos do que eu. As fêmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados. Ora eu cá sou pão, pão, queijo, queijo. Não nego. Para que? A mulher é minha, nunca foi doutro, gosto dela e não a largo; os filhos tenho já cinco, quero cria-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faça o senhor Bispo o que entender.
A resposta ficou célebre. E os colegas, sempre que vinha a propósito, davam-lhe o beliscão.
Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou lá o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irmãs que governava.
Destas, só uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. O diabo sairá ave de arribação. E para quem como ele mergulhava as raízes no chão de Vilarinho, uma reali­dade assim era um sofrimento.
– Homem, mas tu, afinal, quando te resolves a ser um pai de família e a ter vergonha na cara? – acabou por perguntar ao Firmo, já sem mais paciência.
-Há-de ser um dia. Prometo-lhe que há-de ser um dia!
E quando pela sexta vez o padre o acordou do sono com a mulher, na véspera da Senhora da Agonia, o Fir­mo sossegou-lhe o coração,
– É desta feita. Na Quaresma conte com mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha..
Padre João sentiu que um grande peso lhe saía dos ombros. Até que enfim!
– Dás-me a tua palavra?
– Estou-lhe a falar a sério, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. Já iam sendo horas...
A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, à missa, o pa­dre resolveu amarrar o valdevinos a argola, pondo-o, com grande espanto de Vilarinho, no princípio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.
– Será que ele desta vez fica mesmo? –  insistia o Puga na venda do Trauliteiro.
– Parece que sim. O padre João lá o convenceu...
– Custa-me a acreditar.
– Não tem que ver: está ou não está mudado? Cava ou não cava o dia inteiro, como nós?
– Realmente...
E até os mais renitentes foram cedendo terreno. A própria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resolução, enchia agora os olhos de paz ao vê-lo a tratar do estrume para as próximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso não esquecer de tirar a esmola para a festa, e que a respeito do arraial a coisa havia de ser falada.
O padre, esse, andava de coração em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, só compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde que Firmo parecia aclimatado a Vilarinho, até a vida lhe sabia melhor.
– Com que então desta vez sempre ficas por cá?! – foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.
– É como dizes. O bom filho a casa torna...
E Vilarinho assentou de vez que o réprobo, afinal, ganhara juízo, tomara nas mãos macias as rédeas duras da casa e dera ao demo o que e do demo - o mundo.
Nos Reis, para aumentar a receita destinada a romaria, fez-se um peditório. E o Firmo, que tocava violão, puxou ali pelas seis cordas como um valente.
– Ora vê lá tu se não é melhor a vida que agora levas do que andar como um maltês por lá! – dizia-lhe o padre João, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto de maluquice.
– Na verdade...
– Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos!
O mundo dera a Firmo luzes para além das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal é qual um castanheiro, redondo, maciço, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que não havia formas que o fizessem mudar. Só a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, que se casara, que não tinha estudos - sem nenhum apego à terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem proclamara que o seu reino não era deste mundo - ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado as verças como os juncos as nascentes! As razões que apresentava eram sempre as mesmas. Tantas vezes as ouvira que já nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de há vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer - pois sabia que não o movera nenhum dos argumentos invocados entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significação. Mandavam-no curvar-se de pura admiração diante de uma vida sem fendas, inteira como um rochedo. Que bicho! Nem o próprio bispo pudera com ele. Metera a viola no saco e deixara correr. O bloco de pedra talvez estivesse errado em sítios onde já não tivesse valor o tamanho do natural. Em Vilarinho, metia respeito.
– É assim. Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e as duas por três tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa!
– São feitios, senhor padre João... –  tentou, em todo o caso, o Firmo. –  A vida...
– Quais feitios, qual vida!
Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor a vastidão do mundo. Para que discutir?
– E de festa, que tal vamos? Vê lá isso! Não me deixes ficar mal...
– Está justa a música velha de Constantim, encomendamos o fogo em Cabeda e os saiais são de Sabrosa. Pregador, o senhor padre João diáa...
Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! Lá diz o ditado: infeliz pássaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.
Mas na véspera da Senhora da Agonia, roído não se sabe por que melancólica inquietação, Firmo, que lutara como um herói durante um ano para se aguentar ali, bateu a porta da residência.
– Da licença, senhor padre João?
– Entra, Firmo. Alguma novidade?
– Nada de importância...
No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.
– Bem. Isso é que eu gosto de ouvir.
Sem palavras para desiludir aquela confiança, peado, o desertor começou a gaguejar:
– Pois é verdade... Afinal...
O padre, então, olhou-o com a sua penetração profissional de confessor:
– Desembucha!
E Firmo escancarou-lhe a alma:
– Não posso mais, senhor padre João. Embarco amanhã e venho dizer-lhe adeus.

Projeto Contos de Sábado Na Usina: João Simões Lopes Neto:Contrabandista:

Batia nos noventa anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge,
um que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos
banhados do Ibirocaí. Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas...; ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada!...
Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta- ouvido: aqui, cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o areão. Até pelo gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo. Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na batalha de Ituzaingo; foi do esquadrão do general José de Abreu e sempre que falava do Anjo da Vitória ainda tirava o chapéu, numa braçada larga, como se cumprimentasse alguém de muito respeito, numa distância muito longe.
Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser
muito de mãos abertas. Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia a gurizada da casa, fazia - pi! pi! pi! pi! - como pra galinhas e semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçalha formava, catando as pratas no terreiro. Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços de apanhar a paleta à virilha, e puxado a valer, tanto, que o bicho que o tomava, ficando entupido de dor, e lombeando-se, depois de disparar um pouco é que gritava, num - caim! caim! caim! - de desespero. Outras vezes dava-lhe para armar uma jantarola, e sobre o fim do festo, quando já estava tudo meio entropigaitado, puxava por uma ponta da toalha e lá vinha, de tirão seco, toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas restos de comidas e caldas dos doces!... Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas do bolicheiro, que aproveitava o vento e le echaba cuentas degran capitãn...
Era um pagodista! Aqui há poucos anos - coitado - pousei no arranchamento dele. Casado ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos víamos desde muito tempo. A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui prazenteira; de filhos, uns três matalotes já emplumados e uma mocinha - pro caso, uma moça -, que era o - santo-antoninho-onde-te-porei! - daquela gente toda.
E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado na escola e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs da vila.
E noiva, casadeira, já era. E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas do casamento; estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela. O noivo chegou no outro dia, grande alegria; começaram os aprontamentos, e como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.
O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval da filha. Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em casa, à moda antiga, mas, como cada um manda no que é seu...
Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório na matança dos leitões e no tiramento dos assados com couro. Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes
da tomada das Missões. Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir e acoquinar as guardas do inimigo: uma partida de guascas montava a cavalo, entrava na Banda Oriental e arrebanhava uma ponta grande de eguariços, abanava o poncho e vinha a meia-rédea; apartava-se a potrada e largava-se o
resto; os de lá faziam conosco a mesma cousa; depois era com gados, que se tocava a trote e galope, abandonando os assoleanos. Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam desquitando-se do
mesmo jeito. Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa Tecla,
no Haedo... O mais, era várzea! Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar sesmarias
e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por essas campanhas desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno... e agüentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!...
Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho, o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!...
Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava o capitão-general; ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos sesmeiros... Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas, se explicam.
Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua licença é que algum particular graúdo podia ter em casa um polvarim...
Também só na vila de Porto Alegre é que havia baralhos de jogar, que eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor, e havia fiscal, sim, senhor, das cartas de jogar, e ninguém podia comprar senão dessas!
Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os lavrantes e prendistas dos outros lugares desta terra, só pra dar flux aos retnois...
Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com tantas etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir e pra luxar!...
O tal rei nosso senhor não se enxergava, mesmo!... E logo com quem!... Com a gauchada!...
Vai então, os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado, nos espanhóis, buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas de jogo e prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios...; e ninguém pagava dízimos dessas cousas.
Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas e tudo, numa explosão de pólvora; doutras uma partilha de milicianos saía de atravessado
e tomava conta de tudo, a couce d'arma: isto foi ensinando a escaramuçar com os golas-de-couro.
Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos: recebiam as encomendas e pra aproveitar a monção e não ir com os cargueiros debalde, levavam baeta, que vinha do reino, e fumo em corda, que vinha da Bahia, e algum porrão de canha. E faziam trocas, de elas por elas, quase. Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se entendiam... Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos; depois vieram as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra do Rosas. Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis e gringos emigrados. A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada, na regra, e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça enxuta...; entrou nos homens a sedução de ganhar barato: bastava ser campeiro e destorcido. Depois, andava-se empandilhado, bem armado; podia-se às vezes dar um vareio nos milicos, ajustar contas com algum devedor de desaforos, aporrear algum subdelegado abelhudo... Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era só levantar os
volumes, encangalhar, tocar e entregar!... Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se.
Rompeu a guerra do Paraguai. O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro, que corria
por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil-réis!... Imagine o que estrangeirada bolou nas contas!... Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas de cheiro, armas, minigâncias, remédios, o diabo a quatro!... Era só pedir por boca! Apareceram também os mascates de campanha, com baús encangalhados e canastras, que passavam pra lá vazios e voltavam cheios, desovar aqui... Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro e cabelo e nas coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e rabioscas... Ora... ora!... Passar bem, paisano!... A semente grelou e está a árvore ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje. O Jango Jorge foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até a hora
da morte. Eu vi. Como disse, na madrugada véspera do casamento o Jango Jorge saiu para ir buscar o enxoval da filha. Passou o dia; passou a noite.
No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada. Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos, autoridades, moçada. Havia de se dançar três dias!... Corria o amargo e
copinhos de licor de butiá. Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa de música
na sala. Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos pratos enfeitados. A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido, estava sossegada, ao menos ao parecer.
As vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na volta da estrada, encoberta por uma restinga fechada de arvoredo. Surgiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaco
de rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios. Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por falta do seu vestido branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu branco, das suas flores de laranjeira, que o pai fora buscar e ainda não trouxera.
As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam. Entardeceu. Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra e ela - tão boazinha! - veio à porta do quarto, bem penteada, ainda num
vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se a rir pra nós, pra mostrar que estava contente.
A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas grandes, que rolavam devagar nos olhos pestanudos... E rindo e chorando estava, sem saber por quê... sem saber por que, rindo e chorando, quando alguém gritou do terreiro:
- Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!... Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como estava, no quadro da porta, rindo e chorando, cada vez menos sem saber por quê... pois o pai estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu, as suas flores de noiva...
Era já fusco-fusco. Pegaram a acender as luzes. E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio, tudo.
E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos. Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue de um homem, ainda de pala enfiado... Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo...; que a festa estava acabada e a tristeza começada...
Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enfeitado, que ia ser o trono dos noivos. Então um dos chegados disse:
- A guarda nos deu em cima... tomou os cargueiros... E mataram o capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um pacote que vinha solto.., e ainda o amarrou no corpo... Aí foi que o crivaram
de balas... parado... Os ordinários!... Tivemos que brigar, pra tomar o corpo!
A sia-dona mãe da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e desamarrou o embrulho; abriu-o.
Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu branco, as flores de laranjeira...
Tudo numa plastada de sangue... tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de cobrado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos... como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!... Então rompeu o choro na casa toda.