sábado, 22 de abril de 2017

Projeto Contos Do Sábado Na Usina:Uma senhora:Marques Rebelo:


Dona Quinota não se importava com a aspereza do ano inteiro. Com ela
era ali no duro - trabalho, trabalho e mais trabalho. O ordenado das
empregadas, na verdade, era uma pouca-vergonha que a polícia devia pôr
um paradeiro. Não punha. Vivia metida com a maldita da política. Falta
duma boa revolução!... Ah, se ela fosse homem!... Enquanto a revolução
não vinha para botar tudo nos eixos, obrigando-a a endireitar as empregadas,
fazia de criada - cozinhava, varria, cosia. Encerava a casa também, aos
sábados, depois que disseram pelo rádio ser higiénico e muito econômico.
- Econômico? Então se encera mesmo.
O marido, que já estava acostumado àquelas resoluções, largou no
melhor pedaço o segundo volume de Os Miseráveis, meteu sobre o pijama a
gabardine cheirando a gasolina na gola e foi telefonar para a loja de ferragens,
pedindo duas latas de cera- da boa, vê lá! - chorando um abatimentozinho
na escova e na palha de aço: está ouvindo, Seu Fernandes?
Estava sempre para tudo que, graças a Deus, era mulher forte. Saíra à
mãe, que também o fora, morrendo velha de desastre, desastre doméstico,
uma chaleira de água fervendo para o escalda-pé do marido, um coronel
reformado, que lhe virou por cima do corpo.
Nunca se queixava da vida. Não ia à cidade passear, as suas compras
eram em regra feitas pelo marido, precisava que a fita fosse muito falada para
ela se abalar até ao cinema do bairro, onde cochilava a bom cochilar;
contavam-se os domingos em que ia à missa, não fazia visitas, nem recebia.
Não reclamava o trabalho que lhe davam os filhos, três desmazelados
que andavam na escola pública, Elcio, Ëlcia e Elcina, respectivamente quinze,
quatorze e treze anos, o que atesta bem a força do marido e dá idéia o que
seria depois de dez anos de casada, se depois da Elcina não tomasse as devidas
precauções.
- Não se esqueçam de dar lembranças à Dona Margarida - aconselhava na hora
da saída, enquanto punha nas bolsas as bananas e o pão com
manteiga da merenda. Dona Margarida fora sua amiga no colégio das Irmãs,
uma bicha no francês, cearense, um talento! Mandar lembranças para ela
equivalia a dizer: Olha que são meus filhos, Margarida; os filhos da tua amiga
Quinota...
E os exames estavam perto, com prêmios de cadernetas da Caixa
Econômica dados pelo prefeito, ridicularizados pelos jornais oposicionistas,
elogiados pelos do governo - a Folha dizia que era um gesto de Mecenas
mas enfim fartamente anunciados em todos os jornais para incentivo da
meninada estudiosa. Ela queria ser mordida por um macaco se não arranjasse
três cadernetas para casa. Os filhos é que não faziam fé.
Bordava para fora, cuidava do Joli, o bichano para sujar a casa era um
desespero, e sobrava tempo ainda para ter ciúmes do marido com as vizinhas,
principalmente Dona Consuelo, uma descarada, é certo, mas muito chique,
confessava.
Chegando o carnaval, tirava a forra.
As economias acumuladas saíam do Banco Popular juntas com os juros.
Não ficava nada. Metia-se numa fantasia de baiana e inundava a capota do
automóvel com seus oitenta e cinco quilos honestíssimos. As meninas iam
de baianas também, menos saias, mais berloques, e o menino de pierrô, cada
ano de uma cor, porque não é para outra coisa que o dono do Tinto! gasta
aquele dinheirão em anúncios. Tirava do cabide a casaca do casamento,
dezesseis anos por isso (como o tempo corre!), dava um jeito nas manchas:
- No automóvel, ninguém repara, meu filho - dizia com um sorriso,
ora para a casaca, ora para o marido, que se traduzia: lembras-te?
Ele, então, com uma faixa vermelha na cintura, brincos em forma de
argola, pendentes das orelhas demasiadas, enfiava na cabeça um turbante de
seda branca com pérolas em profusão, e ia em pé, no carro, de rajá diplomata.
No terceiro dia, graças a Deus não choveu em nenhum dos três,
perguntava para o marido:
- Quanto temos ainda?
Ele remexia a carteira (bolso de casaca é o tipo da coisa encrencada!),
fura-bolos trabalhava passado na língua, e cantava a quantia:
- Duzentos e oitenta.
- E os oitocentos do automóvel?
- Já estão fora.
- Ah! Bem... - Para fazer contas no ar era um assombro: ... pode
gastar mais cento e cinqüenta.
O resto ficava para gastar depois do carnaval - mas entrava na verba
dele - com o fígado do marido, porque depois da pândega (a experiência
de Dona Quinota é que falava) Seu Juca tinha rebordosas, vômitos biliosos,
uma dor do lado danada, de tanta canseira, tanta serpentina e tanta cerveja
gelada.
Não faz mal. Não fazia não. A vida era aquilo mesmo: três dias - falava.
Mas pensava: por ano. Podia dizer, mas não dizia. Deixava ficar lá dentro.
O "lá dentro" de Dona Quinota era uma coisa complicada, complícadíssima,
que ninguém compreendia. Só ela mesma e o marido, às vezes.
Desciam do automóvel à porta de casa, quando o vizinho veio vindo
com o rancho da filharada.
- Brincaram muito? - fez Seu Adalberto, com um jeito de despeitado.
- Assim, assim...
Dona Quinota dizia aquele "assim-assim" de propósito. Que lhe
importava os outros saberem se ela tinha gozado ou não? Quem gozava era
ela. Mas gostava de ficar deliciando-se por dentro com a inveja dos vizinhos:
assim, assim... Ah! Ah! Ah!
Seu Adalberto exultava:
- E isso mesmo. Faz-se despesas enormes (e Dona Quinota sorria) e
não se diverte nada. (Dona Quinota olhava para o céu.) É sempre assim. Pois
olhe: nós fomos a pé mesmo. Estivemos ali na Avenida na esquina do Derbi,
apreciamos o baile do Clube Naval, muita fantasia rica, muita, vimos
perfeitamente as sociedades, tomamos refrescos, brincamos à grande. Não foi?
As mocinhas fizeram que sim, humilhadas, mas os guris foram sinceros:
- Aquele carro do girassol que rodava, hem, papai!
Seu Adalberto corrigiu logo:
- Girassol, não, Artur; crisântemo.
Depois que corrigiu, ficou azul, sem saber ao certo se era crisântemo
ou crisantemo - quer ver que eu disse besteira?
Seu Juca não havia meio de encontrar o raio da chave. Esses bolsos de
casaca!...
- O ano que vem - Dona Quinota falou firme - nós iremos
também a pé.
O marido até se virou. Ficou olhando, espantado. Que diabo é isto? -
ia perguntando. Por um triz que não perguntou. Mas ficou assim...
Compreendeu? Parece... Esta Quinota!...
Foi quando Seu Adalberto, evidentemente mortificado, se refez e
sentenciou como experiente na matéria, apesar de nunca ter entrado num
automóvel pelo carnaval: é melhor mesmo.
A tribo sumiu pela porta do 37. A maçaneta fechou por dentro.
Torreco, torreco. Agora foi a chave - duas voltas. O pigarro do seu
Adalberto, ainda com o acento do crisântemo a fuzilar-lhe na cabeça, veio
até cá fora se misturar com um resto de choro, pandeiro e chocalhos, do
bonde que passava mais longe. Passos apressados no fundo da rua. O burro
do inglês estava na janela do apartamento fumando para a lua. Dona Quinota
ficou olhando-o um pouco, depois cerrou a porta bem e fixou o marido que
dava por falta dum brinco: Que cretinos!
Seu Juca parou no meio do corredor, cara de ressaca, pernas abertas, o
turbante nas mãos e esperou mais. Mas Dona Quinota era hermética. O resto
ficou lá dentro onde ninguém ia buscar, porque o marido, o único interessado
na ocasião, mais morto do que vivo, preferiu tirar o colarinho e a casaca.
Dona Quinota atirou-se na cama escangalhada e feliz, só acordando na
quarta-feira de cinzas ao meio-dia.
Quando o resto da família se levantou, o almoço (feito por ela) já estava
na mesa, e Dona Quinota se desesperava porque tinha lido no Jornal do Brasil
que foram os Fenianos que pegaram o primeiro prêmio, quando todo mundo
viu perfeitamente que só o carro-chefe dos Democráticos...
Anos 40 e 50
Modernos, maduros, líricos
Em torno da primeira metade do século, nossos escritores estão mais
maduros. Escrevem numa língua que também amadureceu, está mais
uniforme e representativa daquela usada no cotidiano pelos brasileiros
educados, de qualquer lugar do país. O passado rural começa a
desaparecer efetivamente, tornando-se objeto mais de nostalgia do que
de rejeição. As relações afetivas passam a constituir a verdadeira utopia
do brasileiro, e também exibem seu lado difícil. Descompassos na
família. Saudades. Lirismos. Na época da consagração definitiva do
movimento modernista, predominam na literatura o romance, a crônica e a poesia,
mas a amostra apresentada nesta seção revela que alguns
dos mais belos clássicos do conto brasileiro moderno foram publicados
nesse período.

***

Projeto Contos do Sábado na Usina:Machado de Assis: Torrente de Loucos:


 Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.
 — A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada”. 
O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que
com isto presto um bom serviço à humanidade.
— Um excelente serviço, corrigiu o boticário.
— Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; 
ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.
— Muito maior, acrescentou o outro.
E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde.
Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos
deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma
povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria
de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de
tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por
exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia
regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de
apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, 
Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três
meses antes, jogando peteca na rua!
 — Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa
Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.
— Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas
na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas
antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...
— Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o
alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também
alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...
— Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!
Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do
delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela
d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, 
ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele
recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do
pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, 
quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se
de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de
uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.
O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia
de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos.
A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobre-
diabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca
para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:
 — Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi,
Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o
marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.
Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes
seguidas:
 — Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei;
outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente,
dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e não
acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um
sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia 
reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois
desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em
que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu
e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.
 Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por
caridade do que por interesse científico.
 Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que
todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão
Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa
idéia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem
incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela Câmara, da
distribuição da comida e da roupa, e assim também na escrita, etc. Era o melhor
que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.
 — A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há
o governo temporal e o governo espiritual. E o Padre Lopes ria deste pio trocado,
— e acrescentava, — com o único fim de dizer também uma chalaça: — Deixe
estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.
Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta
classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes
principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias,
delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo aturado e contínuo;
analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias,
as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão,
costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da
mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa,
enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma
observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. 
Ao mesmo tempo estudava o melhor regímen, as substâncias medicamentosas, 
os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados
árabes, como os que ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora,
todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal
comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um
texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do

jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista. 



Papéis Avulsos:
 Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Publicado originalmente por Lombaerts & Cia, Rio de Janeiro, 1882

Pensamento do Dia:

O demônio só abita os corações daqueles que nunca souberam o que é amor.


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