quinta-feira, 8 de junho de 2017

Poesia De Quinta Na Usina: Machado de Assis:MINHA MUSA :


RJ, 22 fev. 1856

A Musa, que inspira meus tímidos cantos,
É doce e risonha, se amor lhe sorri;
É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.
Saudades carpindo, que sinto por ti.
A Musa, que inspira-me os versos nascidos
De mágoas que sinto no peito a pungir,
Sufoca-me os tristes e longos gemidos,
Que as dores que oculto me fazem trair.
A Musa, que inspira-me os cantos de prece,
Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.
Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece
Ao último arranco de esp’ranças de amor.
A Musa, que o ramo das glórias enlaça,
Da terra gigante — meu berço infantil,
De afetos um nome na idéia me traça,
Que o eco no peito repete: — Brasil!
A Musa, que inspira meus cantos é livre,
Detesta os preceitos da vil opressão,
O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,
Na lira engrandece, dizendo: — Catão!
O aroma de esp’rança, que n’alma recende,
É ela que aspira, no cálix da flor;
É ela que o estro na fronte me acende,
A Musa que inspira meus versos de amor!

Poesia De Quinta Na Usina:Machado de Assis: AS ROSAS



A Caetano Filgueiras
Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;
Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.
Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas, que sois então? — Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.
Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Poesia de Quinta Na Usina: Fernando Pessoa; Poema: Aqui:


Aqui, Nem era, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.
Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o CORPO,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Passamos essa carne
Que os deuses concederam
Ao sido Averno antes.
Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.
Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.

Poesia Quinta Na Usina: Fernando Pessoa: 48:


"A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me
os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção
analítica não consegue definir."

* * *



Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares
Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/

Poesia De Quinta Na Usina: D'Araújo: O Viajante


Se hoje sou quem sou, é porque me fizeste assim.
Sigo o meu caminho sem observar o caos, ao meu redor, 
simplesmente sigo em frente.

Não mim importa aonde vou chegar, 
pois o semblante de tristeza na face 
de cada ser, já é uma realidade incontestável.

Sigo a velha trilha deixada ao longo dos 
tempos pelos velhos sonhadores como eu.

A observar apenas quantos ainda andam 
as cegas neste horizonte de perdição.



Por favor, alguém me avisa quanto, 

me chegar o tempo findo, pois estou 
seguindo o meu coração sem me 
preocupar com o doce tempo.

D'Araujo


Poesia de Quinta na Usina: Poema: Avesso.


A réstia que corta o horizonte na linha reta 
do meu pensar. Me da o repouso do aconchego 
do colo da vida que escorrega, as mãos do falso destino, 
de menino travesso.


Aceitando o avesso da vida que passa olhando 
as vidraças do tempo que resta nos arreios da testa, 
que separa a visão, da cegueira da alma.


D'Araujo.