quinta-feira, 15 de junho de 2017

Poesia de Quinta Na Usina: Machado de Assis: VAI-TE:



1º jan. 1858

Por que voltaste? Esquecidos
Meus sonhos, e meus amores
Frios, pálidos morreram
Em meu peito. Aquelas flores
Da grinalda da ventura
Tão de lágrimas regada,
Nesta fronte apaixonada
Cingida por tua mão,
Secaram, mortas estão.
Pobre pálida grinalda!
Faltou-lhe um orvalho eterno
De teu belo coração.
Foi de curta duração
Teu amor: não compreendeste
Quanto amor esta alma tinha...
Vai, leviana andorinha,
A outro clima, outro céu:
Meu coração? Já morreu
Para ti e teus amores,
E não pode amar-te — vai!
O hino das minhas dores
Dir-to-á a brisa, à noite,
Num terno, saudoso — ai —
Vai-te — e possa a asa do vento
Que pelas selvas murmura,
Da grinalda da ventura
Que em mim outrora cingiste,
Inda um perfume levar-te,
Morta assim: como um remorso
Do teu olvido... eu amar-te?
Não, não posso; esquece, parte;

Eu não posso amar-te... vai!

Poesia de Quinta Na Usina: Machado de Assis: Versos a Corina: III:


Quando voarem minhas esperanças
Como um bando de pombas fugitivas;
E destas ilusões doces e vivas
Só me restarem pálidas lembranças;
E abandonar-me a minha mãe Quimera,
Que me aleitou aos seios abundantes;
E vierem as nuvens flamejantes
Encher o céu da minha primavera;
E raiar para mim um triste dia,
Em que, por completar minha tristeza,
Nem possa ver-te, musa da beleza,
Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;
Quando assim seja, por teus olhos juro,
Voto minh'alma à escura soledade,
Sem procurar melhor felicidade,
E sem ambicionar prazer mais puro,
Como o viajor que, da falaz miragem
Volta desenganado ao lar tranqüilo
E procura, naquele último asilo,
Nem evocar memórias da viagem,
Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados
A tudo mais, — a minha fantasia
As asas colherá com que algum dia
Quis alcançar os cimos elevados.
És tu a maior glória de minha alma,
Se o meu amor profundo não te alcança,
De que me servirá outra esperança?

Que glória tirarei de alheia palma? *

Poesia De Quinta Na Usina:Fernando Pessoa: A Grande Esfinge do Egito:


 A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...
Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops ...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste
candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com
a pena...
Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...

Poesia De Quinta Na Usina: Fernando Pessoa; Poema: Ao Longe:



Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
Hoje, Nem era, não nos escondamos,
Nada que for necessário porque nós não somos nada.
Não esperamos nada
E ternos frio ao sol.
Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Poesia De Quinta Na Usina:D'Araújo:Poema: Surdo:


Uma guerra injusta, 
Aonde a curva do desejo vai alem da razão, 
Qual a paixão sem fim, ou um amor sem começo.
Então paga-se o preço justo do absurdo.

O que tem de belo no esperar eterno, 
No falante calado, ou no ouvinte surdo.
Já é claro a escuridão da observação 
De não enxergar o óbvio.

De aceitar o fato, ou de aceitar a lógica, 
Do despertar pro nada, e não poder viver tudo.
Como encontrar a paz, 
Quando a guerra em mim já é inevitável.

Aí acordo pro mundo, 
Perfeito ou imperfeito não importa.
Simplesmente vivo.

D'Araújo.

Conteúdo do livro: O Grito da Alma poesias e pensamentos:
www.blioteca24horas.com




Poesia De Quinta Na Usina: D'Araujo: A mesa posta: