segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Crônicas De Segunda Na Usina: Machado de Assis: Comentários da semana: Prefácio político:


1 DE NOVEMBRO DE 1861.
Prefácio político – Exposição – Ensino Praxedes –
Coroa ao Dr. Pinheiro Guimarães – O mágico Felipe –
Regata - Comemoração de defuntos.
O que há de política? É a pergunta que naturalmente ocorre a todos,
e a que me fará o meu leitor, se não é ministro. O silêncio é a
resposta. Não há nada, absolutamente nada. A tela da atualidade
política é uma paisagem uniforme; nada a perturba, nada a modifica.
Dissera-se um país onde o povo só sabe que existe politicamente
quando ouve o fisco bater-lhe à porta.
O que dá razão a este marasmo? Causas gerais e causas especiais.
Foi sempre princípio nosso do governo aquele fatalismo que entrega
os povos orientais de mãos atadas às eventualidades do destino. O
que há de vir, há de vir, dizem os ministros, que, além de acharem o
sistema, cômodo, por amor da indolência própria, querem também
pôr a culpa dos maus acontecimentos nas costas da entidade
invisível e misteriosa, a que atribuem tudo.
Dizem, é verdade, que há tal ministro que, adotando politicamente
aquele princípio, descrê da sua legitimidade quando se trata da sua
pessoa, e que, longe de esperar que a chuva lhe traga água, vai á
própria fonte buscar com que estancar a sede. O leitor vê bem o que
há de profundamente injurioso em semelhante proposição, e
facilmente compreenderá o sentimento que me leva não insistir
neste ponto.
Mas, seja ou não assim, o que nos importa saber é que os nossos
governos são, salvas as devidas exceções, mais fatalistas que um
turco de velha raça. Seria este ministério uma exceção? Não; tudo
nele indica a filiação que o liga intimamente aos da boa escola. É um
ministério-modelo; vive do expediente e do aviso; pouco se lhe dá do
conteúdo do ofício, contanto que tenha observado na confecção dele
as fórmulas tabelioas; dorme á noite com a paz na consciência, uma
vez que de manhã tenha assinado o ponto na secretaria.
Está dada a razão por que subiu no meio das antífonas e das orações
dos amigos, apesar dos travos de fel com que alguns quiseram fazerlhe
amargar a taça do poder. Diziam estes: “É um ministério
medíocre”. Mas, por Deus, por isso mesmo é que é sublime!Em
nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão ;
para os que têm a fortuna de não se alarem além de uma esfera
comum é que nos fornos do Estado se coze e tosta o apetitoso pãode-
ló, que é depois repartido por eles, para glória de Deus e da
pátria. Vai nisto um sentimento de caridade, ou, direi mesmo, um
princípio de equidade e de justiça. Por toda a parte cabem as
regalias ás inteligências que se aferem por um padrão superior; é
bem que os que se não acham neste caso tenham o seu quinhão em
qualquer ponto da terra. E dão-lhe grosso e suculento, a bem de se
lhes pagar as injúrias recebidas da civilização.
Não se admire, portanto, o leitor se não lhe dou notícias políticas.
Política, como eu e o meu leitor entendemos, não há. E devia agora
exigir-se de um melro o alcance do olhar da águia e o rasgado de
seu vôo? Além de ilógico fora crueldade. Estamos muito bem assim;
demais, não precisa o império de capricórnio.
É sob a gerência deste ministério que vai efetuar-se em nossa capital
uma festa industrial, a exposição de 1 de dezembro.
Se o leitor acompanhou as discussões do senado este ano, deve
lembrar-se que quase no fim da sessão o Sr. senador Penna, que ali
ejaculou alguns discursos “notáveis”, entre eles o dos pesos e
medidas do Sr. Manoel Felizardo, levantou-se e pediu a opinião do
Sr. ministro do fomento acerca da conveniência de representar o
Brasil na próxima exposição de Londres.O Sr. ministro, que por uma
coincidência, que não passou despercebida, havia previsto os
sentimentos do honrado senador, levantou-se e declarou que já
havia pensado nisso, e que dentro de quatro dias tinham de aparecer
as instruções regulamentares das exposições parciais no Brasil, para
delas extrair-se o melhor, e enviar-se á exposição de
Londres.Portanto, os dois heróis da exposição são os Srs. Penna e
ministro do fomento, a quem, em minha opinião, devem ser
conferidas as primeiras medalhas, a não ser que se olhe como
prêmio comemorativo a presidência de Mato-Grosso e as ajudas de
custo, que, por eleição do sagrado concílio, couberam ao Sr.
Herculano Penna. Em todo o caso há uma dívida contraída com o Sr.
ministro do fomento.
As instruções apareceram um pouco sibilinas e indigestas, como
salada mal preparada, mas dignas do ministro e do ministério. E
imediatamente as ordens se expediram, com uma presteza cuja
raridade não posso deixar de comemorar, e em toda a parte se
preparam a esta hora as exposições parciais.
A da corte tem lugar no dia 2 de dezembro, no edifício da escola
central. A decoração está a cargo do Sr. Dr. Lagos, que é um dos
mais importantes expositores. Disse-me alguém que àquele nosso
distinto patrício se entregou uma soma fabulosa. . . (mente)
mesquinha, o que é realmente digno de censura, se não atendermos
à divisa do ministério, e a que é impossível fazer uma exposição e ao
mesmo tempo mandar uma jovem comissão estudar à Europa os
sistemas postais. A exposição é uma coisa bonita; mas há muito
moço que ainda não foi a Paris, e é preciso não deixar que esses
belos espíritos morram abafados pela nossa atmosfera brasileira.
Ora, a economia. . .
A Exposição corresponderá aos esforços dos seus diretores, se a
atenção pública não for desviada pela nova obra “Ensino Praxedes”,
de que dá notícia a folha oficial. É um novo método de ensino,
fundado sobre a filosofia do A B C. Ouço já o meu sôfrego leitor
perguntar-me o que é a filosofia do A B C. Eu ainda não li o precioso
livro; mas diz-me um boticário, que o folheou entre duas receitas,
que essa filosofia cifra-se em demonstrar que não há entre as letras
do alfabeto a diferença que geralmente se supõe, e que o A e o G se
parecem como duas gotas de água. Talvez o meu leitor não ache
muito clara a identidade; mas é aí que está a sutileza do novo
método.
Ocorre-me lembrar uma coisa. Este livro deve figurar na exposição
de Londres. Ali se reserva uma sala para a exposição de planos,
livros e métodos pedagógicos de ensino primário. Vê-se que o novo
“Ensino” está correndo para lá como um rio para o mar.
A matéria do ensino é grave e profunda; não se deve perder material
algum que possa servir à organização da instrução pública, como ela
deve ser feita. Ora, compreendesse bem que o sistema do “Ensino
Praxedes” vem dar um grande avanço, porque, se pela analogia, ou
antes, identidade dos caracteres, chegamos a converter o alfabeto
em uma só letra, é evidente que teremos feito mais que todos o que
têm estudado e desenvolvido a matéria e, se é dado crismar o novo
método, proponho que se desdenhe o título de “Método-vapor”, e
que se lhe de o que lhe compete, “Método-elétrico.”
A obrigação de comentar leva-me a fazer transições bruscas; por
isso passo sem preâmbulo do novo livro a oferta que por parte de
alguns amigos e admiradores acaba de ser feita ao Sr. Dr. Pinheiro
Guimarães, autor do drama “História de uma moça rica”.
Afirmo que o leitor, se não é beato, está tão convencido como eu da
justiça daquela oferta. Ela significa, além disso, um desmentido
solene às censuras que, em mal da composição do novo dramaturgo,
haviam levantado os que sentem em si à alma daquele herói de
Molière, que pecava em silêncio e se acomodava com o céu.
As palmas que acompanhavam a entrega da coroa ao Sr.Dr.Pinheiro
Guimarães confirmaram ainda uma vez a boa opinião que nós
espíritos desprevenidos, sinceramente amante das letras, tem criado
o poeta. Estou certo de que elas valem mais que a alma devota dos
censores.
Tem outro alcance a coroa do autor da “História de uma moça rica”;
é um incentivo à mocidade laboriosa, que, vendo assim aplaudidas e
festejadas as composições nacionais, não se deixará ficar no escuro,
e virá a cada operário por sua vez enriquecer com um relevo o
monumento da arte e da literatura.
A nossa capital tem sido visitada por mais de um mágico, e sem
dúvida está ainda fresca a impressão que produziu o distinto
Hermann, que fazia coisas com aquelas bentas mãos de pôr a gente
a olhar o sinal. No tempo em que Hermann divertia a curiosidade
infantil do nosso povo, chegou aqui um colega, que, reconhecendo
não poder competir com tão distinto mestre, resolveu esperar
melhores dias, e foi exercer a sua arte pelo interior.
Agora apareceu ele, o Sr. Philippe, filho de um mágico célebre de
Paris. Trabalha com destreza e habilidade, e faz passar o espectador
algumas horas de verdadeira satisfação. Se o meu leitor quiser
verificá-lo deve ir ao Ginásio sempre que o Sr. Philippe trabalhar.
Efetua-se hoje à tarde a grande regata de que falei em um dos meus
“Comentários” passados, e cujo programa as folhas publicaram
ontem.
Ao que parece, o divertimento será em regra, e amadores e
espectadores terão uma tarde deliciosa a passar. Compreende-se
bem que os Ingleses se distraiam das suas graves preocupações
para tomar parte ou presenciar uma regata, hoje que o
divertidíssimo soco inglês é punido pelas leis da Grã-Bretanha.
Vejam se não excita a fibra ver quatro escaleres rasgando com as
quilhas cortadoras o seio de um mar calmo e azul, e os remeiros,
com o estímulo e o entusiasmo nos olhos, empregando toda a
perícia, a ver quem primeiro chega ao termo da carreira, que é a
terra da promissão!
Diga-se o que quiser dos Ingleses, mas confesse-se que nesta
predileção pela regata e outros divertimentos do mesmo gênero
mostram eles que Deus também os dotou da bossa do bom gosto.
Honra àqueles graves insulares!
Os moços que hoje tomam parte na regata são pela maior parte,
oficiais da nossa jovem marinha, mas entram no divertimento
franceses e ingleses que não deviam faltar a ele. A festa é, portanto,
completa, e desta vez é deveras uma regata, pois que os escaleres
devem correr próximos à praia, para que todos possam ver.
Depois da festa do mar, vem a festa dos cemitérios, a comemoração
dos mortos, piedosa romagem que a população faz às pequenas e
solitárias necrópoles, onde repousam os restos do irmão, do pai, do
consorte, da mãe e do amigo.
É uma peregrinação imponente. Os romeiros vão de luto orar pelos
que repousam no último jazigo, e derramar à vista de todos, as
lágrimas da saudade e da tristeza. É esta uma das práticas dos
povos cristãos que mais impressionam a alma do homem
verdadeiramente religioso, embora a vaidade humana macule, como
acontece em todas as coisas da vida, a grave e melancólica
cerimônia, com as suas suntuosas distinções.
Dizem os que têm visitado a antiga cidade de Constantino que há
uma grande diferença entre um cemitério turco e um cemitério
cristão. Aquele não inspira o sentimento que se experimenta quando
se entra neste. O turco entrelaça a morte à vida, de modo que não
se passeia com terror ou melancolia entre duas alas de túmulos. A
razão desta diferença parece estar na própria religião. O que quereis
que seja a morte para um povo a quem se promete na eternidade, a
eternidade dos gozos mais voluptuosos que a imaginação mais viva
pode imaginar? Esse povo, que vive no requinte dos prazeres
materiais, só entende o que fala aos sentidos, e considera bem
aventurados os que morreram que já gozam ou estão perto de gozar
os prazeres prometidos pelo profeta.
Mas filosoficamente, terão razão eles ou nós, filhos da igreja cristã?
Há razão para ambas as partes, e cumpre acatar os sentimentos

alheios para que não desrespeitem os nossos.

Comentários da semana
Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Edições W. M. Jackson,1938.
Publicado originalmente o Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, de 01/11/1861 a
05/05/1862.

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