segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Crônicas De Segunda Na Usina:Machado de Assis: Sufrágios pelo rei de Portugal:


16 DE DEZEMBRO DE 1861.
A lei das condecorações – O sr. Ministro do Império – O fim do
decreto – Escola-normal de teatro – Nada de concorrência –
Os fins do teatro – Sufrágios pelo rei de Portugal.
Dizia um filósofo antigo que as leis eram as coroas das cidades.
Para caracterizá-las assim deve supor-se que leis sejam boas e
sérias. As leis más ou burlescas não podem ser contadas no número
das que tão pitorescamente designa o pensador a que me refiro.
A folha oficial deu a público um decreto que reúne as duas
condições: de abusivo e de ridículo; é o decreto que regula a
concessão de condecorações. A imprensa impugnou o ato
governamental, e à folha oficial foram ter algumas respostas, com
que se procurou tornar a coisa séria.
Mas se a coisa era burlesca e má, má e burlesca ficou; as
interpretações dos sacerdotes não trouxeram outra convicção ao
espírito do vulgo. Devo todavia notar que a má impressão produzida
pelo regulamento das condecorações diminuiria se tivesse atendido
para o nome do ministro que firmou o decreto.
Benza-o Deus, o Sr. Ministro do Império não é, nunca foi, e muito
menos espera ser uma águia. Adeja na sua esfera comum, tem por
horizonte a beira dos telhados da sua secretária, e deixa as nuvens e
os espaços largos a quem envergar asas de maiores dimensões que
as suas.
Isto no gabinete, isto na tribuna; o homem da palavra luta de
mediocridade com o homem da pena, e, força é dizer, quando este
parece que suplanta aquele, aquele vence a este, para de novo ser
vencido.
Por isso há de dar água pela barba a quem descobrir qual dos dois é
mais vulgar.
Se tivesse atendido a esta circunstância, o pasmo não teria sido tão
grande, porque está escrito que o fruto participa das qualidades da
árvore, e o tal decreto devia doer mais ao Sr. Ministro do que se
pensa. S. Excia. levou seu tempo a trabalhar naquela obra, não
comunicou a ninguém a novidade que ia dar, pelo menos não houve
esse zum-zum que precede, as mais das vezes, aos atos do poder, e
um belo dia disse consigo: - “Vou causar uma surpresa a estes
queridos fluminenses: amanhã pensam ler na folha oficial uma
cataplasma árida do expediente dos meus colegas, e eu dou-lhes
este acepipe preparado por minhas bentas mãos”. E publicou-se o
regulamento.
Ora, cuidar que depois da sua obra a musa da história o receberia
nos braços, e ver que ele teve o mais triste dos acolhimentos, o do
ridículo, é um transe duro de sofrer, e maior do que se houvesse
ligado pouca importância ao resultado das suas lucubrações.
Cada ministro gosta de deixar entre outros trabalhos, um que
especifique o seu nome no catálogo dos administradores.
A matéria das condecorações seduziu o Sr. Ministro do Império ;
datavam de longe os decretos que a regulavam, o Sr. Ministro quis
reunir esses retalhos para fazer o seu manto de glória, e organizou
um regulamento geral.
O primeiro artigo desse regulamento espantou a todos, porque exigiu
20 anos de serviços não remunerados, para concessão de uma
condecoração, era murar a grande porta das graças, e fazia admirar
que o governo com as próprias mãos quebrasse uma das suas boas
armas eleitorais.
O art. 9.º restabeleceu os ânimos; muravam a grande porta, é
verdade, mas abriam um largo corredor, ou antes, reconheciam e
legalizavam essa via de comunicação aberta pelo abuso.
O governo quis ser esperto, mas o público não se deixou cair no laço
armado à sua boa fé.
Não vá agora o leitor pensar que me pronuncio assim porque
considero a concessão de graças o sumo bem que pode desejar toda
a ambição do coração humano!Deus me absolva se peco, mas eu não
penso assim. O que, porém, cumpre dizer em honra da verdade, é
que o decreto de 7 de dezembro é uma lei manca e burlesca.
Entre os atos de nulo valor do governo ocupa esse um lugar distinto.
Oxalá que ande ele melhor avisado na organização de uma escola
normal de teatro, sobre o que está uma comissão encarregada de
dar o seu parecer.
Espera-se com ânsia, e pela minha parte, com fé, o resultado do
estudo da comissão, porque a matéria apesar de importante não foi
até aqui estudada.
Entretanto, antes que tenha aparecido o trabalho oficial, já uma
opinião se manifestou nas colunas do “Correio Mercantil”.
Essa opinião sinto dizê-la, devia ser a última lembrada, se merecesse
ser lembrada.
A doutrina liberal de concorrência aplicada à espécie prejudica o
ponto essencial da questão, e que se tem em vista atingir.
Criar no teatro uma escola de arte, de língua e de civilização, não é
obra de concorrência, não pode estar sujeita a essa mil
eventualidades que têm tornado, entre nós, o teatro uma coisa difícil
e a arte uma profissão incerta.
É na ação governamental, nas garantias oferecidas pelo poder, na
sua investigação imediata, que existem as probabilidades de uma
criação verdadeiramente séria e seriamente verdadeira.
Uma legislação emanada da autoridade, a reunião dos melhores
artistas, a escolha dos mestres de ensino, a criação de escolas
elementares de ensino, onde se aprenda arte e língua, duas coisas
muitas vezes ausentes de nossas cenas, a boa remuneração ao
trabalho dos compositores, um júri de julgamento de peças, em boas
bases, ficando extinto o conservatório, tudo isto sem descuidar-se na
flutuação das receitas, tais são os fundamentos, não de um teatroescola,
mas do teatro, na sua acepção mais abstrata.
Virá o estímulo, os outros aprenderão no primeiro, e arte torna-se
um fato, uma coisa real.
Mas deixar à luta individual a criação de uma escola nas condições
exigidas, equivale a não criar coisa nenhuma. E se alguma coisa se
fizer há de ser em demasia lento.
Não, o teatro não é uma indústria, como diz a opinião a que me
refiro; não nivelemos assim as idéias e as mercadorias.
O teatro não é um bazar, e se é, que estranhas mercadorias são
estas, chamadas Othelo, Athalia, Tartufo, Marion Delorme e Frei Luiz
de Souza, e como devem soar mal, nos centros comerciais, os nomes
de Shakespeare, Racine, Molière, Victor Hugo e Almeida Garrett.
Não é o teatro uma escola de moral? Não é o palco um púlpito?
Diz Victor Hugo no prefácio da Lucrecia Borgia: “O teatro é uma
tribuna, o teatro é um púlpito. O drama, sem sair dos limites
imparciais da arte, tem uma missão nacional, uma missão social e
uma missão humana. Também o poeta tem cargo de almas. Cumpre
que o povo não saia do teatro sem levar consigo alguma moralidade
austera e profunda. A arte só, a arte pura, a arte propriamente dita,
não exige tudo isso do poeta; mas no teatro não basta preencher as
condições da arte.”
Estou certo de que a comissão e o governo não entregarão à
concorrência a criação de uma escola normal de teatro. Isto no
pressuposto de que a nomeação da comissão não foi uma fantasia do
autor do decreto das graças.
Dito isto, passemos a outras coisas. Mas o quê?Depois da minha
última revista, nada se deu que mereça uma menção ou um
comentário.
O que de mais notável sei, é que se continua a celebrar missas e
ofícios fúnebres pelo rei D. Pedro V; na sexta-feira foi o do cônsul de
Portugal, hoje é o da sociedade Portuguesa de Beneficência
Dezesseis de Setembro, o da Dezoito de Julho, o da Igualdade e
Beneficência, e de uma comissão da Prainha.
Folgo por ver que nestas homenagens prestadas à majestade morta,
fala menos o ânimo dos vassalos que o coração dos amigos e

admiradores das virtudes daquele ilustre soberano.

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