sábado, 1 de setembro de 2012

Crônicas:Momento de um adolescente no regime militar.


       É isso mesmo que você leu, sem tirar nem por uma vírgula, com muito orgulho.
Só que este vivo não remete a nenhum tipo de esperteza ou sabedoria tal qual a todos que estamos nesta mesma nave do desconhecido, simplesmente remete a audácia da sobrevivência contrariando toda lógica da normalidade. Às vezes me pego a pensar que todos os nordestinos nascidos até a década de setenta. Só sobreviveram porque nascerão com um manual de sobrevivência, pois tudo que sua doce mãe fazia dava certo, em compensação tinham outros que por mais que se fizesse, não tinha jeito o óbito era inevitável, era mais ou menos como você querer aprender a usar um tablet com um manual de trator.
Porque para os que nasceram no nordeste na década de sessenta e necessitava de cuidados médicos, só por mágica, seria mais ou menos como hoje em dia encontrar um partido político que nunca se utilizou de caixa dois, pensado bem era quase um milagre.
      Pois ainda hoje tenho na minha lembrança o dia em que tive de enfrentar um desta espécie, não, não estou falando dos partidos políticos não, é só de um simples mais absolutamente necessário, clínico geral. Esta consulta repentina não era por motivo de doença, era justamente para prevenir que se ficasse doente.
É que nos anos setenta lá pra gente, chegou à obrigatoriedade do exame médico periódico, para a prática de educação física. Falo na minha cidade, pois era a única que eu conhecia naquela época. Mas voltando ao clínico, nem é necessário dizer que como adolescentes que éramos, ficamos todos apreensivos, talvez o termo utilizado tenha sido inadequado para o nível de entendimento de um adolescente ansioso.
A direção da escola era taxativa só poderia fazer educação física os alunos que fizessem o exame periódico, e ponto.
       Bem, a termologia exame na cabeça de um adolescente daquela época, caia mais ou menos como os exames feitos no DETRAN para se obter a carteira de habilitação que naquela época os mesmos eram feitos ao ar livre você tinha que ter conhecimentos sobre o funcionamento do motor...
Onde o instrutor, um sujeito com cara de poucos amigos, ficava ao lado do automóvel com o capu aberto, e ia chamando um a um dos respectivos candidatos que se encontravam militarmente enfileirados.
Bem, em um momento destes a mente de um adolescente viaja;
De repete você se da conta que inevitavelmente está chegando a sua vez, de adentrar na sala, Não se você percebeu, mas não estamos mais falando do exame do DETRAN certo? Logo você imagina aquele sujeito de branco coberto de sabedoria e você ali apavoradamente indefeso. De repente sai da sala uma enfermeira com cara de fada, olhar meigo, sorriso sincero, corpo... Bem vamos parar por ai porque isso não vai dar em boa coisa, em se tratando de uma mente de um adolescente.
Ela pronúncia o seu nome em um tom poético, e gentilmente pede que você adentre a sala; Você se enche de uma coragem que nunca teve e encara o inevitável, já na sala diante daquele ser do outro lado da mesa, Que na sua mente é um misto de médico, pai de santo e até um daqueles personagens de filme de ficção científica, com mania de esterilizar tudo que lhe vem a sua frente.
Então você respira fundo e encara aquele ser com um aparelho esquisito envolto no pescoço, que nem o nome eu me atrevo a pronunciar, pois isso é coisa para as pessoas mais letradas;
     Bem com o sorriso quase inerente ao caso, aquela figura que lhe é tão estranha pede para que você deite-se a maca, ele saca daquele aparelho que se encontrava escanchado no seu pescoço, e enquanto, encosta aqui. Enfia lá, cutuca ali, para sua enorme surpresa ele lhe pergunta; Você é portador de alguma doença grave?
Aí você se pergunta quem afinal é o médico aqui eu ou ele?
Bem se fosse eu conhecedor das minhas enfermidades, procuraria eu um farmacêutico, que é o conhecedor dos efeitos medicamentosos, não desmerecendo a figura do medico absolutamente necessária em qualquer caso de doença.
Só para ilustrar melhor o momento, acho que estes médicos responsáveis por exames periódicos deveriam se escrever no guinnes book, por que meu amigo, depois de três respiradas profundas e duas arregaladas de olhos, e ele já foram logo anotando, “Apto”.
Bem pelo que eu pude entender dentro do meu pobre e ralo conhecimento em medicina, é que o sujeito para está “apto” a praticar educação física, basta está respirando e enxergando, o enxergar eu até entendo, pois talvez seja com o cuidado do individuo não machucar o seu colega e ele processar o estado.
Mais o que realmente me deixou preocupado, foi quando eu tive a impressão que aquele aparelhinho desgraçado, poderia ver além do físico. Ou então o sujeito era medico e também lia carta de tarô, Runas e até mesmo cartas ciganas, pois de repente, assim do nada ele começou a dizer;
Está bebendo pouca Água, precisa comer mais feijão e grãos em geral, e dormir melhor, para evitar anemias e por conseqüências, fraquezas e indisposições.
Aí meu caro amigo eu entrei em desespero, porque como todo adolescente eu não poderia ter deixado de ter pensamentos mundanos ao ver a formosura daquela enfermeira, apesar que os sorrisos contidos na sua face só denunciava que ele apenas me poupava do vexame.
Bem e como para tudo nesta maravilhosa vida, o inevitável tempo passou, e cá estou eu um sobrevivente do caos. Porque se não bastasse às dificuldades naturais naquela época você tinha que ter cuidado com o que falava, pois o regime Militar era implacável.
Mas depois de muito sacrifício e luta, conquistamos finalmente a tão sonhada democracia, pois hoje em dia não importa se você é nordestino, Gaúcho, Paranaense, Paulista, Carioca etc. Todos nós conquistamos o direito de morrer gritando nossas mais sinceras opiniões, nas imensas filas do INSS, dos Hospitais, dos Bancos, das Delegacias, e daí por diante.
Pelo menos não podemos reclamar da falta de liberdade de expressão. Que é o princípio básico para o fundamento de direito de toda pessoa.
“Por que aqui é assim, se não se iguala por cima, vai por baixo mesmo”
Isso é que me faz sentir muito orgulho de ser nordestino, peba, cabeça chata, pois independente de preconceito desconheço qualquer sonho no passado que não tenha realizado, não tem um sonho no presente que não esteja trabalhando na sua realização e pode acreditar, não terá nada deste mundo que me impeça de realizar os meus sonhos futuros.
...Desculpe, mas eu ainda estou tentando descobri o que isso tem a ver com o exame periódico. Vamos voltar aos sonhos?
Não importa onde nasceu qual sua cor da pele sua língua, ou mesmo a sua classe social, só uma coisa impede você de realizar os sonhos, você mesmo.
Basta levantar o seu traseiro do confortável sofá da inércia e você conquistará o mundo. Acredite não importa qual seu sonho ele é possível.
Peço desculpas ao caro leitor, pois o que era para ser uma simples crônica sobre o exame periódico acabou ficando com cara de resumo da tragédia Grega.
E por falar na Grécia... Não, não se preocupe o caso Grego mais recente fica para outra ocasião.
Vou parar por aqui, pois se esticar mais um pouquinho isso aqui vai ficar igual Romance do Suassuna que tem pra mais de setecentas páginas.
Por favor, alguém desliga esse computador e me tira daqui se não eu não paro nunca...

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